terça-feira, 22 de setembro de 2015

Brasil: uma nau sem rumo prestes a afundar de vez?

Impressiona a velocidade da deterioração do quadro econômico brasileiro
Rodrigo Constantino

Todo investidor sabe que o momento bom de comprar é quando há “sangue nas ruas” e o de vender é quando todos estão eufóricos, como estavam com o Brasil em 2010. Logo, o excesso de pessimismo com o futuro do Brasil, agora, pode ser arriscado. O timing para jogar a toalha pode ser inadequado. Afinal, há muita coisa ruim no preço dos ativos, e vai que a Dilma cai mesmo…

Dito isso, e feito o alerta do ponto de vista do investidor, o fato inegável é que a situação está muito ruim para o cidadão brasileiro. Não só a crise econômica se agrava a cada momento, como a questão da segurança piora a olhos nus, especialmente no meu querido Rio de Janeiro. Cheguei hoje na “cidade maravilhosa”, após cinco meses longe, e o impacto é muito cruel.

Nunca tinha ficado mais de um ou dois meses fora do país, e confesso que é chocante ver o contraste depois de um tempinho maior respirando ares mais civilizados. O Brasil testa ao limite o patriotismo daqueles que, como diz o ditado, não desistem nunca.

Resta a nossa marca registrada de sapo escaldado, que é fazer troça da desgraça, como fiz hoje no meu Facebook: “Estou no Rio há quase 5 horas e ainda não sofri nenhum assalto nem vi nenhum arrastão. Estou no lucro! Posso me considerar um cara de sorte…” Brincadeiras à parte, a triste realidade é que o Brasil todo, e o Rio em especial, afundam rapidamente, e é fácil perceber isso.

Mas não posso contar, como economista, apenas com a sensação, com o visual, com o que dizem por aí, com esse clima de desesperança e violência. É preciso analisar os dados. E como farei uma palestra em breve em São Paulo, tive que atualizar os gráficos que normalmente utilizo em minhas apresentações, o que não fazia há meses. A velocidade da deterioração é impressionante. Vejam, por exemplo, o PIB:

Crescimento do PIB YoY, trimestral. Fonte: Bloomberg

Agora, se o PIB mergulhou de vez, mais assustadora ainda é a expectativa para frente, dos principais analistas do mercado. A ficha parece ter caído de vez, e ninguém mais espera uma recuperação tão cedo. A recessão veio para valer, e podemos experimentar uma queda de até 3% da atividade este ano, sem recuperação no ano que vem:

Crescimento esperado do PIB para 2015. Fonte: Boletim Focus / Bloomberg

Claro, o governo petista ainda tenta alegar que se trata de uma crise mundial, o que gera apenas mais insegurança nos agentes de mercado, pois eles sabem muito bem que não é nada disso, e a negação do governo impede uma mudança de rumo mais efetiva. Quando analisamos o crescimento dos principais países do G20, o resultado é lamentável para o Brasil petista:

Fonte: Bloomberg
À exceção da Rússia, envolvida numa guerra com a Ucrânia, extremamente dependente do petróleo e sob um governo autoritário e populista, o Brasil é o grande patinho feio, e isso mesmo incluindo países desenvolvidos em crise. Ou seja, a desculpa de que nossos problemas são oriundos do resto do mundo não se sustenta por um segundo de análise, mas o PT, sempre cara de pau, repete de forma cansativa essa ladainha, para não ter que assumir a responsabilidade pelas trapalhadas que jogaram o país nesse caos.

Mas como se isso não bastasse, o Brasil não vive “apenas” uma grande recessão, e sim uma enorme estagflação, já que a inflação segue em patamar absurdamente elevado, a despeito da queda da atividade. Quando analisamos a inflação do G20, portanto, o resultado é até mais assustador:

Fonte: Bloomberg

É inegável que a situação do Brasil esteja terrível, assim como é impossível negar que ela não seja o resultado de medidas do nosso governo. Mas a reação do governo Dilma é nula, é um “ajuste fiscal” patético, calcado em aumento de impostos, tudo com a mesma empáfia e arrogância de antes. A capacidade da presidente de liderar reformas é totalmente inexistente, mas Dilma parece não se importar. E com isso vai jogando o Brasil cada vez mais para o abismo.

Tenho vários outros gráficos para mostrar, mas a mensagem já está bastante clara: o Brasil afunda cada vez mais rápido, distanciando-se do restante do mundo, e o governo segue paralisado, com propostas paliativas ou ruins, sem endereçar a raiz dos problemas. O dólar, como efeito disso, chegou a R$ 4,00 hoje, assustando todo mundo. E a nau continua sem rumo, ou por outra: rumo ao fundo do mar.

O senador Aécio Neves, que havia identificado os perigos à frente durante a eleição, mas que foi ridicularizado pelo PT, escreveu em sua coluna de hoje na Folha um bom resumo desse alarmante quadro:

Contrariando a máxima de que toda unanimidade é burra, vai se consolidando no país a convicção de que vivemos um período de desgoverno sem paralelo, agravado pela reiterada incapacidade de quem o comanda de se colocar à altura da complexidade da crise. Crise, aliás, urdida e fomentada nas hostes do partido governista, sob as bênçãos de suas maiores lideranças.

O que mais assusta é a ausência de perspectivas. Não há uma agenda visível e factível para o país.

Para onde vamos, afinal? O que estamos assistindo, entre assustados e indignados, é a erosão crescente do nosso futuro. O presente, por sua vez, é uma incógnita que se sustenta na falta de uma coordenação efetiva. Este é um governo que reage apenas a espasmos, quando se sente acuado.

O senador tucano critica, em seguida, o mesmo receituário de sempre, que é subir impostos, e questiona se a presidente quer mesmo alguma mudança. Aponta para a total falta de confiança da população em alguém que só fez mentir nas últimas eleições, praticando o maior estelionato eleitoral da história. E cita os movimentos erráticos que desnorteiam empresários e investidores em geral. Fica complicado esperar alguma saída enquanto Dilma estiver no poder.

Aécio também termina questionando por onde anda Guido Mantega, em um silêncio ensurdecedor depois que ajudou a destruir o país. Os “desenvolvimentistas” inflacionistas da Unicamp atearam fogo no paiol de pólvora, e agora assistem ao incêndio, às labaredas consumindo cada ativo brasileiro, o legado todo do Plano Real, como se não tivessem nada com isso. É espantoso!

Em suma, o Titanic Brasil bateu num iceberg chamado PT, e começa a ver água por todo lado. Se vamos ou não a pique ainda é cedo para dizer. Há alternativas, há boias de resgate. Mas não são indolores, tampouco triviais. O problema é que sabemos que o PT não vai nos levar nessa direção certa. Sabemos que Dilma não tem a menor capacidade para tanto. E é isso que mais assusta: a crise, que não é apenas econômica, vai se alastrando, vai destruindo esperanças, negócios, famílias, e não vemos luz no fim do túnel.

Como disse no começo, esse tipo de momento pode ser interessante do ponto de vista do investidor. É justamente quando ninguém ama, ninguém quer mais o ativo, que ele pode estar na bacia das almas e ser uma opção interessante de compra. Mas isso se houver mudanças reais à frente, se os fundamentos podres que levaram o preço do ativo ao fundo do poço mudarem. Será que mudam mesmo?

Não, repito, enquanto Dilma estiver no poder. E sempre haverá o risco concreto de seguirmos na trajetória trágica da Argentina ou da Grécia. É essa espada na cabeça que impede qualquer alívio para os investidores. Eles, ao contrário dos petistas, sabem fazer contas, e enxergam o tamanho do buraco logo ali na frente. Como o motorista é cego por ideologia e se recusa a fazer uma curva drástica, o perigo só aumenta com o passar do tempo.

Não está nada fácil apostar no Brasil, insistir no país. Nem do ponto de vista do investidor, muito menos do ponto de vista do cidadão, que precisa, além da crise econômica, encarar diariamente a crise da segurança, dos serviços públicos, da educação pública, da saúde pública… Brasileiro não desiste nunca, repetem por aí. Até o dia que desistir, que cansar de vez.

Espero que isso não aconteça nunca, mas é cada vez mais gritante a comparação de nosso “país do futuro” com os “países do presente”, mais desenvolvidos, mais capitalistas, mais liberais, mais civilizados. Que possamos escapar de mais essa tormenta e evitar o naufrágio. A salvação passa, inevitavelmente, pela saída do PT do poder. Sem isso, veremos o fundo do mar em breve, com todas as suas criaturas tenebrosas que vivem nas sombras, onde a luz jamais chegou. 
Título, Imagens e Texto: Rodrigo Constantino, VEJA, 21-9-2015

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