quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Devíamos ouvir os comunistas

Rui Ramos

O PCP e o BE não são partidos como os outros. Por vezes, diz-se que são partidos de “protesto”. Não: são partidos revolucionários.



Depois do debate entre António Costa e Catarina Martins, alguma gente de boa-fé convenceu-se de que sim, o Bloco de Esquerda estaria disponível para conversar com o PS. Não ouviram Catarina Martins. O BE só atenderá o telefone ao PS caso o PS, muito solenemente, renegar desde já pelo menos uma parte do seu programa eleitoral. Ou seja, António Costa precisaria de submeter-se à direcção do BE mesmo antes de discar o número de Catarina Martins.

O PCP e o BE não são partidos como os outros. Por vezes, diz-se que são partidos de “protesto”. Não: são partidos revolucionários. Têm, por razões históricas, um lugar na democracia e são partidos legais, mas a constituição só lhes interessa na medida em que poderem dizer que os outros a atacam. No fundo, esta constituição ou o Estado social não representam os seus fins últimos. Aquilo que sempre os animou foi a ruptura violenta com a democracia pluralista (“a ditadura da burguesia”) e a economia de mercado (o “capitalismo”). Até 1976, foram claros nesses objectivos. Quando deixou de haver “condições objectivas” para a revolução, trataram muito oportunisticamente de manter viva a chama, à espera de melhores tempos. Têm explorado, com disciplina, as posições institucionais conquistadas no PREC (como os sindicatos) e a socialização esquerdista de certas gerações e profissões no sector público. Vigiam, com uma fúria sectária, essas quintas de opinião e de organização. De certo modo, é por causa deles que não há Podemos nem Syriza em Portugal: com medo de perder o controlo, nunca deram espaço ao tipo de movimentos alargados de contestação (como os Indignados) que sopraram o balão da esquerda radical da Espanha.

Para os perceber, basta ouvi-los. Por exemplo: o PCP e o BE falam muito de “esquerda” e de um “governo da esquerda”. Mas quem seguiu a extraordinária rábula de Dupond e Dupont que Catarina Martins protagonizou com Jerónimo de Sousa na RTP, terá certamente reparado que o principal alvo das suas fúrias não é a direita, mas o maior partido da esquerda em Portugal, o PS. Para Catarina Martins, o PS tem um “alinhamento completo com o PSD e o CDS no que é essencial”; para Jerónimo de Sousa, o PS seguiu sempre “uma política de direita”, diferente do PSD e do CDS apenas em “ritmo” ou “grau”. Esta raiva ao PS tem uma grande razão de ser: um dos maiores obstáculos à revolução está em que a maior parte da opinião “progressista”, de “esquerda” se reconhece, através do PS, no pluralismo democrático e na livre iniciativa dos cidadãos. A destruição do PS ou a sua redução a um novo MDP-CDE é assim uma condição básica para a promoção revolucionária. É por isso que, como António Costa notou no debate com Catarina Martins, eles têm tanto interesse como a direita em propalar que, “no actual sistema”, “não há alternativa”. O que lhes interesse é sair do sistema, não é arranjar alternativa.

As “políticas” não são para eles muito importantes, ao contrário do que acontece para os partidos de governo da democracia. Fundamentalmente, apoiam tudo o que lhes pareça ter potencial para abalar o sistema: desde uma segurança social sem financiamento até à imigração sem limites. Não o fazem, porém, sem os devidos cálculos. Por vezes, diz-se que o PCP quer a saída do euro, ou que o BE quer o repúdio da dívida. Mas quem tem acompanhado a peregrinação de Catarina Martins e Jerónimo de Sousa pelas televisões já terá descoberto que não é bem assim: o PCP, afinal, propõe apenas “o estudo e a preparação” da “hipótese” de saída do euro; o BE pretende simplesmente discutir e negociar com os credores, para determinar que parte da dívida é “legítima”. Não há mistério nem moderação aqui: o PCP e o BE não podem esconder que a bancarrota e a inflação teriam custos muito maiores do que a austeridade, como aliás António Costa disse a Catarina Martins. E poupam-se, muito sensatamente, ao trabalho de defender, em véspera de eleições, o que lhes serve apenas para se distinguirem circunstancialmente dos outros partidos. Não há aqui “idealismos” nem romantismos. A revolução perdoou sempre o cinismo dos revolucionários. 
Título e Texto: Rui Ramos, Observador, 16-9-2015

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