domingo, 29 de novembro de 2015

Gangorra inspiradora

Jacinto Flecha

Numa roda de médicos, bem antes de eu me exilar em São Paulo, um colega se referiu a um ornitólogo brasileiro, muito em evidência na imprensa da época. Tinha sido colega dele no grupo escolar, quando passava quase todo o tempo livre trepado em árvores para observar a vida dos passarinhos nos seus ninhos. O comentário geral era que ele nunca conseguiria ser nada na vida, se continuasse perdendo tempo com passarinhos. O colega não entrou neste detalhe, mas imagino que ele mesmo e muitos outros também gostavam de passarinhos – uns para matar, outros para capturar com alçapões, outros para roubar os ovos dos ninhos. O futuro ornitólogo encarava os passarinhos de modo diferente, e talvez fosse este o motivo da crítica generalizada.

Teria recebido dos pais ou de outras pessoas o incentivo para prosseguir naquilo que tantos consideravam perda de tempo? Ou teria ele resolvido enfrentar oposições, para afinal realizar o que os colegas não entendiam? Não tenho mais dados sobre a infância desse ornitólogo, para fornecer informações confiáveis. Mas posso fazer conjeturas sobre dificuldades e oposições, apoios e incentivos numa carreira que se esboçava naquela preferência de uma criança. Pode ter sido tudo fácil, mas pode também ter ele sofrido muito ao enfrentar zombarias, oposições, maledicências.

O êxito ou fracasso das pessoas pode depender da interação de preferências pessoais com as manifestações externas, sejam estas favoráveis ou contrárias. Alguns dos grandes personagens históricos contrariaram meio mundo para realizar seus projetos. Se não fossem arrojados, tenazes, talvez não o conseguissem. Para outros, o êxito só foi possível por seguirem bons conselhos, adaptar-se ao que outros mostravam ser mais conforme aos seus talentos. Oposições para uns, facilidades para outros, apoios e conselhos para muitos, tudo isso pode conduzir a bons resultados ou maus, em função de inúmeros fatores individuais ou alheios.

Parecem-me suficientes, para o tema desta crônica, as considerações que acabo de fazer sobre este assunto delicado da educação: Deve ser apoiada ou reprimida tal preferência ou tendência? Decisão difícil, com que o educador depara em cada manifestação da criança. Não é fácil definir se uma tendência é boa e deve ser apoiada, ou má e ser combatida. Não é fácil proibir sempre o que é objetivamente um mal. Não é fácil apoiar e aprovar sempre o que é bom. Por isso mesmo não é fácil a vida de educador, que todo pai e mãe são chamados a ser.

O que pretendo contar-lhe hoje é um resultado muito útil para pessoas da minha área profissional, que só foi possível com minhas experiências pessoais em brinquedos infantis. Junto com meu irmão mais velho, construímos uma gangorra de madeira para brincarmos juntos. Ela nos deu muito mais alegria do que dariam essas de plástico, bonitinhas, comuns em qualquer parque de diversões.

Iniciávamos nossa brincadeira ficando cada um bem na ponta do seu lado da gangorra. Mas meu irmão era mais pesado e inclinava a gangorra para o seu lado. Eu subia, mas não conseguia descer, enquanto ele permanecia encostado no chão, zombando de mim. Quando se cansava de me atormentar, afastava-se um pouco da ponta e se aproximava do ponto de apoio da gangorra. Restabelecido assim o equilíbrio, podíamos ambos subir e descer alternadamente, cada um a seu tempo. Este é um aspecto bem conhecido por qualquer pessoa que tenha brincado em gangorra, mas essa experiência infantil ajudou-me a resolver um problema bem conhecido de todos os laboratoristas.

Em qualquer laboratório, o centrifugador ou centrífuga é um aparelho comum, destinado a separar estruturas ou substâncias mais leves das mais pesadas, por meio da força centrífuga. Girando em alta velocidade tubos contendo misturas diversas, o que é pesado vai para o fundo do tubo, e o que é leve fica numa camada superior. Os tubos colocados em posições opostas precisam ter pesos iguais ou bem próximos, para evitar trepidação no movimento giratório, e a comparação dos pesos dos tubos é feita visualmente. Isso toma muito tempo e é um trabalho bem aborrecido. Um problema antigo, que já esquentou a cabeça e esgotou a paciência de muita gente.

Em breve deixará de existir essa dificuldade, pois consegui resolvê-la obtendo o equilíbrio de modo semelhante ao que usávamos naquela gangorra da minha infância: Sendo maior o peso de um lado, um sistema automático afasta o peso do outro lado. Assim, ao aumentar a distância do peso menor, ele adquire força centrífuga maior e compensa a do peso maior que está no outro lado, restabelecendo o equilíbrio.

Como funciona isso? Não dá para explicar numa crônica como esta, mas é certo que eu não teria resolvido o problema sem os meus conhecimentos infantis sobre gangorra. Até as impertinências do meu irmão contribuíram para isso. Estou mesmo pensando em aplicar-lhe agora os cascudos que fiquei devendo na época… 
Título, Imagem e Texto: Jacinto Flecha, ABIM, 28-11-2015

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