quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Novembro

Luís Naves

No final de 1975, Portugal era controlado pelo Conselho da Revolução, uma junta militar de onde tinham sido afastados, em Março, todos os membros conservadores. Em Abril desse ano, nas primeiras eleições livres, e contra as expectativas da esquerda revolucionária, o país votara nos partidos burgueses, mas o conteúdo político da nova Assembleia Constituinte não se reflectia nos governos provisórios que o Conselho da Revolução nomeava. Sob o quinto governo provisório (radicalizado e sem ministros do Partido Socialista, que vencera as eleições) a economia portuguesa estava essencialmente nacionalizada e os revolucionários, usando assembleias populares fáceis de controlar, tentavam apoderar-se das empresas, do aparelho de estado e de todas as instituições civis, incluindo os órgãos de comunicação. No início de Novembro, a Assembleia Constituinte foi cercada, numa evidente humilhação dos deputados eleitos. O país enfrentava três cenários: triunfava a democracia, havia guerra civil ou a revolução evoluía para um processo soviético de tomada de poder.

O golpe militar de 25 de Novembro de 1975 permitiu o triunfo da democracia, mas a elite que beneficiou do regime resultante tem hoje vergonha do que aconteceu naquele dia. Ao pôr fim ao chamado “Verão Quente”, o 25 de Novembro representou o triunfo da facção militar democrática que mais tarde devolveria o poder aos partidos que tinham vencido as primeiras eleições livres e de sufrágio universal. Graças ao 25 de Novembro, Portugal teve uma nova Constituição em 1976, curiosamente hoje defendida sobretudo pelos mesmos partidos que procuraram destruí-la à nascença. Sem o 25 de Novembro, Portugal não seria hoje uma democracia ou teria um regime com mais feridas por cicatrizar. É por isso estranho ver agora os três antagonistas de ontem a tentarem disfarçar as duas trincheiras de 1975: de um lado estava o PS, que liderou com coragem a resistência à tomada de poder pelos radicais; do outro lado, os comunistas e a extrema-esquerda, tentando apoderar-se de um país que os rejeitava ou não compreendia.
Título e Texto: Luís Naves, Fragmentário, 25-11-2015

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