quinta-feira, 5 de novembro de 2015

O dia em que eu trabalhei com o FBI!


Alberto José

Em 1965, eu morava em Copacabana, a uma quadra da praia que eu frequentava diariamente, das 8 às 11h e, às vezes, à noite.

Eu era tão bom de mar que eu nadava defronte ao Hotel Copacabana Palace, tirando gente que era puxada para a terrível "vala". Das 12 às 17h30 eu trabalhava no Banco da Bahia, hoje Bradesco, e estudava à noite. Enfim, não tinha do que reclamar!

No dia 24 de Novembro de 1965, o meu chefe me avisou que, no dia seguinte, eu estaria de férias. Na manhã do dia 25, fazia um calor de rachar, mas lá estava eu no meu point favorito.

Às 11h da manhã, eu vi um turista sendo puxado para dentro da vala. Não pensei duas vezes, mergulhei na vala e em poucos segundos eu estava ao lado dele dando instruções em francês para que ele pudesse sair do sufoco. Nunca agarrei ninguém pois aí é que mora o perigo. Abraço de afogado é morte certa!




Ele se safou e eu ainda peguei umas ondas no surf de peito. Quando cheguei na praia, o estrangeiro veio falar comigo, em inglês: " você falou em francês comigo?" Eu expliquei que falei em francês pois achei que ele era europeu.



Então ele perguntou se eu sabia quem ele era? Eu disse que não. Ele respondeu: - Meu nome é Kennedy, irmão do presidente John Kennedy!
Eu, com aquele ar de espanto apertei a mão dele e ele agradeceu pelo que eu havia feito (entrar no mar para ajudá-lo, o que para mim era um prazer fosse qualquer pessoa!).



Ele me chamou para a barraca e me apresentou ao grupo: a Ethel Kennedy, cinco casais de assessores e seis agentes do FBI. Ele perguntou sobre a minha vida, etc. e me convidou para almoçar com eles.

Nesse instante, os repórteres dos jornais, da televisão e pessoas que estavam na praia o reconheceram e começaram a nos cercar. Em dado momento o pessoal da TV me prometeu um emprego se conseguisse que ele desse uma entrevista, o que recusei.


Ao sair correndo da praia, ele perdeu uma carteira que eu peguei na areia. Continha US$ 2.000 em traveler’s cheques, isto é, naquele tempo não havia cartão de crédito no comércio de rua, então usavam os cheques. Ele nem reparou que havia perdido os cheques e quando eu devolvi ele ficou muito sensibilizado e perguntou se eu poderia ficar com eles no hotel durante o tempo que passariam no Rio.

Quando chegamos ao hotel, ele chamou o grupo e me apresentou formalmente como seu "personal assistant" e disse que o meu nome passava a ser "Albert"! Pediu aos agentes do FBI que facilitassem a minha vida pois eu teria trânsito livre nos dois andares que eles ocupavam no Leme Palace Hotel. Nem o pessoal do consulado podia se meter comigo.



Depois do almoço, ele me deu US$ 500 e pediu que fosse comprar vinte raquetes de frescobol com bolas, discos e um aparelho de som para fazer um "happy hour" no hotel!

Dormi no hotel e, pela manhã, fui em casa para mudar a roupa pois teria que sair com as seis ladies da comitiva para ir ao Pão de Açúcar, almoçar em um restaurante fino e, na volta, visitar lojas em Ipanema.

À noite, fomos jantar no Copacabana Palace com escolta de batedores do Exército. Depois do jantar fomos conhecer a Barra da Tijuca! No dia seguinte, praia, almoço, Cristo Redentor, Vista Chinesa, lojas e jantar em Ipanema.

Então, ele me falou que gostaria que eu fosse trabalhar no gabinete dele em Washington e eu poderia estudar por lá. Fiquei de dar a resposta depois. Tive muitas horas de fama (não apenas 15 minutos) e garotos e garotas brasileiras andavam desesperadas atrás de mim para atravessar um pedido para o Senador, rs, rs, rs... Os jornais escreviam que "um jovem rapaz brasileiro estava na comitiva e sempre saía com as senhoras dos americanos"!

Fomos a duas boates e a Ethel pediu para tocarem a música que ela mais gostava que era Moon River!


Quando eles foram embora para Manaus (no Electra da Varig), o Senador quis me gratificar. Lógico que eu não aceitei, o prazer foi todo meu. Então ele me disse que todo político amigo dele que viesse ao Rio iria me procurar. Isso, de fato aconteceu durante dois anos.

Em Junho de 1968, eu já estava na Varig quando ouvi a trágica notícia de que Robert Kennedy fora assassinado. No ano seguinte, fui para Nova Iorque como havia combinado e fui muito bem recebido pelas pessoas que ele recomendou. O Senador Jacob Javits mandou o motorista me pegar para conhecer Washington e jantar em um evento dos políticos de Massachussets, ligados aos Kennedy pois muitos já me conheciam. Quando estava voltando para o Brasil o Senador Javits lembrou que Bob Kennedy teria gostado que eu trabalhasse com eles, e que se eu quisesse ficar lá não seria problema!

Na hora eu lembrei da famosa frase do Tom Jobim: "Morar nos States é bom mas é ruim; morar no Brasil é ruim mas é bom!
Título, Imagens e Texto: Alberto José, 5-11-2015

5 comentários:

  1. História incrível!!!! Hj em dia seria praticamente impossível esse golpe de sorte! Marcio

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  2. Ehehe!! Muito bom! História digna do filme Forrest Gump. As fotos são muito boas! Escreva um livro de memórias! "Uma memória, alguns detalhes e boas histórias"

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    1. E tem algumas coisas que não foram escritas: Quando o Bob foi visitar o Castelo Branco, no Palácio Laranjeiras a Polícia do Exército me barrou na porta. O capitão falou que eu não tinha credencial e alem de muito jovem "era brasileiro" e por isso não podia ser assistente do Senador. Quando Bob viu o barraco, voltou e disse para a segurança que "se eu não entrasse ele também ficaria na porta"! Me deram um crachá na hora! Na Pennsylvania Station eu estava esperando o trem para Washington e apareceu um Deputado Brasileiro que perguntou o que eu estava fazendo nos States. Contei que estava indo conhecer a cidade e ao jantar dos políticos do partido dos Kennedy. O Deputado me ofereceu US$ 1 mil se eu levasse ele ao jantar!!!!

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    2. Eu não aceiteis pois eu estava a fim de "curtir" a súbita fama, e nessa hora vc não pensa em quanto vai ganhar mas como vai aparecer. Fazendo as contas, eu poderia ter entrado na TV Tupi e na Manchete (Fatos e Fotos) como repórter convidado, poderia ter ficado trabalhando com o pessoal do Bob em Nova York, Washington ou Nashville (berço político do Bob) ... mas eu tinha uma missão mais importante: trabalhar como Comissário da Varig!

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