terça-feira, 10 de novembro de 2015

O texto de Caetano sobre Israel é moralmente doloso

No auge da covardia, cantor não tem a coragem de assumir como sua a associação entre israelenses e nazistas e apela a um... judeu!

Reinaldo Azevedo
Eu juro que tentei não ler o texto que Caetano Veloso escreveu sobre a questão israelo-palestina na Folha de domingo. E tentei não ler por uma razão elementar: Veloso não me surpreenderia.

Exceto por uma tolice ou outra, sabia que o texto não era dele. E eu estava certo. Aquilo foi escrito a muitas mãos. O autor é uma legião, como os demônios. Aquela é a ladainha das esquerdas mundo afora. A bobajada, vazada em caetanês castiço, tem copyright ideológico: os múltiplos lobbies palestinos, notórios por abrigar também israelenses e judeus de toda parte.

Veloso e Gilberto Gil apresentaram-se em Israel e foram alvos da patrulha do BDS, um movimento internacional de boicote ao país, coalhado de antissemitas que usam o biombo do antissionismo para se justificar. O que eles querem é o fim do Israel. E o fato de haver judeus ligados à rede não quer dizer rigorosamente nada, a não ser deixar claro que judeus, como todo mundo, não são imunes ao equívoco e a ideias e práticas moralmente criminosas.

O senhor Veloso, como de hábito, não perde a mania de ser raso para parecer profundo, como a sugerir que uma apreensão superficial do mundo, ditada por associações ligeiras e despropositadas querem dizer alguma coisa. É lá vai ele associando comunidades palestinas às favelas do Rio ou aos acampamentos do MST, o que é de uma tolice inclassificável, só explicada pela disposição de fazer demagogia e baixo proselitismo sobre Israel e sobre o Brasil.

Uma frase, que o cantor toma de empréstimo, define a delinquência intelectual de seu texto. Depois de registrar que não percebeu em Tel Aviv um esquema muito severo de segurança, veio à sua mente um verso de Marcelo Yuka: “a paz que eu não quero”. Pois é… Caetano não quer. A esmagadora maioria dos israelenses quer. Aqueles cujos filhos explodiam em ônibus escolares preferem a paz que Veloso, o caridoso!, rejeita.

 Num momento realmente estupefaciente do seu texto, lê-se:

“Era difícil reconhecer que essa paz refletia o maior poder adquirido pelo Estado de Israel, sua certeza de que a cúpula de proteção construída por sua defesa está firme. Será, como diz Marcelo Yuka, a paz que não quero?”.

Não fosse o que este senhor chama “cúpula de proteção”, Israel já teria desaparecido como a pátria dos judeus. Caetano sabe que o Hamas transformou a Faixa de Gaza numa base de lançamento de mísseis e que essa, por enquanto, é a consequência mais visível da saída das forças de segurança israelenses da área.

Num texto tão longo, o autor não toca uma só vez no terrorismo palestino, a não ser para rejeitar como loucura a frase de uma mulher “que dizia que não é razoável trocar paz por terra: troca-se paz por paz, ela repetia, querendo dizer um não às teses de acabar com a ocupação e os assentamentos”.

Por quê? Veloso acha que se devem aceitar os termos desta troca: paz por terra? Digamos que assim fosse: Israel deve negociar com quem quer destruí-lo? A minha fórmula, por exemplo, é um pouco diferente da expressa por aquela senhora: troca-se terra por paz. Primeiro os palestinos põem fim ao terrorismo. E, então, se conversa sobre terra…

Em outro momento patético do texto, o cantor cita como exemplo de grandeza intelectual uma frase do cineasta palestino Hany Abu-Assad. Em sua passagem por Salvador, Veloso lhe perguntou se era religioso. A resposta foi esta: “Nunca fui, não tenho fé, mas hoje me considero religioso muçulmano por razões políticas”.

O que há de belo nisso? Aí está a essência, note-se, do terror islâmico: usa-se a religião como um elemento unificador da “causa”, ignorando as diferenças, que é a essência dos regimes democráticos, abertos, plurais. E se todo israelense não religioso decidir sê-lo também por “razões políticas”. E se, “por razões políticas”, os ocidentais decidissem usar o cristianismo como força de resistência, inclusive militar?

Eu poderia me estender neste texto e lembrar a este senhor que o país que mais matou palestinos até hoje foi a Jordânia; que o único lugar do mundo em que árabes conhecem a democracia é Israel — parece haver algo auspicioso na Tunísia, a ver… Que boa parte das agruras por que passam os palestinos na Faixa de Gaza não tem relação nenhuma com os israelenses; eles são tiranizados é pelos trogloditas do Hamas. Mas pra quê?

E Veloso decidiu mergulhar na lama, comparando, ora vejam!, o governo israelense aos nazistas. Como um pouco mais de coragem, teria feito isso por sua própria conta. Mas preferiu o refúgio dos covardes e foi buscar a associação na pena de um judeu, citando Yeshayahu Leibowitz.

A síntese desse procedimento é a seguinte: quando um judeu defende o Estado de Israel ou o seu governo, a sua opinião é obviamente suspeita. Coisa de judeu… Se, no entanto, até um judeu ousa evocar o nazismo, então isso traduz necessariamente uma sapiência superior.

Ora, se até judeus podem se comportar como nazistas, o nazismo perde uma de suas singularidades, que era promover o extermínio de judeus. E, ora veja, justamente os judeus teriam sido responsáveis pela perda de tal singularidade. Veloso iria adiante e ainda diria, cantarolando “Odara”: “E quem me deu essa ideia foi um… judeu!”.

Quando José Guilherme Merquior disse que Veloso tinha o miolo mole, o cantor tinha lá a sua graça, envolvido com algumas polêmicas no campo da cultura e do comportamento. Aí o tempo foi passando… Ficou o miolo mole. Foi-se a graça. 
Título e Texto: Reinaldo Azevedo, VEJA, 10-11-2015

3 comentários:

  1. Assunto tão polêmico que é preciso cautela.
    Só pode ser tratado com muita profundidade ,e equidistância, sem paixões.
    Portanto terei cuidado e direi apenas o que penso ser uma verdade esquecida por todos, o povo Palestino ,é vitima dos muitos lados, de Israel , da Jordânia e do Hamas.
    Aquela terra pertence por direito a Israel e aos Palestinos .
    Ambos os povos sofreram e tem direito a terra.
    Somente o bom senso, sem radicalismo ou terrorismo de ambas as partes poderá ser solucionado o conflito.
    Cometem com Palestinos o grande crime cometido contra Israel pelos nazistas.
    E a própria ONU,que através de um arranjo aceitou a criação do estado de Israel, não reconhece o estado Palestino.
    Interesses estranhos, fora das fronteiras dos dois estados , não permitem a PAZ.

    Paizote

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  2. Afinal, qual é o problema do Caetano?
    Circe

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    Respostas
    1. Circe,
      Cheguei ao Brasil, vindo do Congo-Brazzavile, escalando (aproveitei) algumas cidades da África (ex-francesa). A minha última escala na África foi em Dakar. De lá vim a bordo de um avião da extinta Swissair até ao Rio de Janeiro. Foi em 29 de março de 1972.
      Semanas depois, não muitas, me deliciava com os programas da televisão brasileira. Para mim, eram o máximo.
      Aliás, desde então, ganhei um grande respeito por Silvio Santos e por Chico Anysio.
      Assisti a muitos programas do Chacrinha, mas dele nunca foi fã.
      Pois bem, foi num dos programas de Chacrinha que vi, pela primeira vez, essa figura. Estava maquiado de "novo tropical" ou "tropical novo", não me lembro da denominação correta...
      Desde então testemunhei a construção do "mito" Caetano pela corporação 'intelectual' e autoalimentadora que se autoproclama defensora da cultura nacional.
      A mesma que construiu Chico Buarque e outros ícones da esquerda caviar e da burguesia envergonhada.

      Ih... viajei.
      O problema de Caetano Veloso é um só: não ter problemas, pelo contrário, só adições.

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