quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Konrad Lorentz

Salvador Massano Cardoso
Quando comecei a ler Konrad Lorentz, há muitos anos, fiquei fascinado com as suas pesquisas e descobertas. A etologia, ciência do comportamento dos animais, revelou aspetos que podiam, pelo menos em parte, explicar muito do que é o ser humano e o que faz. E faz coisas verdadeiras miseráveis, a ponto de envergonhar qualquer outra espécie. É a única que mata o seu semelhante com uma violência e perversidade que não se observa em qualquer outro animal.

A agressividade é inata, assim como outras formas básicas de vida, caso dos comportamentos sexual e alimentar entre outros.

Ficou para a história a imagem dos patos a segui-lo como se fosse a mãe. Os patos quando nascem seguem o que se mexe no momento. Até faz lembrar certas pessoas da nossa praça que, quando nascem para a política, seguem o chefe como se fosse a "mãe". Mas este é outro fenómeno para ser autopsiado noutra altura!

Ganhei gosto pela etologia. Li muito sobre tão importante ciência que ajuda a compreender a nossa natureza, sobretudo, repito, a violência com que somos capazes de tratar o próximo.


A agressividade é inata, vital para a sobrevivência do indivíduo e da espécie, mas no caso dos humanos, seres "criados à imagem e à semelhança de Deus", as coisas complicam-se. O uso das mãos, dos dentes, das unhas e dos pés, são substituídos por arcos e flechas, facas, machados, pistolas, espingardas, bombas e todo o arsenal que a mente humana é capaz de criar, ou seja, multiplica a uma escala nunca vista aquilo que pode ser útil à sobrevivência, matando e destruindo. Muitos dos fenómenos etológicos são úteis porque ajudam a explicar a humanidade; fragmentada em sociedades, grupos, ideologias e religiões que, na prática, se comportam como  "espécies" diferentes e ameaçadoras umas das outras.

Lorentz era um médico austríaco que lutou na segunda grande guerra e foi feito prisioneiro pelos russos. Ganhou o prémio Nobel da Medicina conjuntamente com dois amigos, Nicholas Tinbergen e Karl Von Frisch. O primeiro fez parte da resistência holandesa e foi prisioneiro da sinistra Gestapo, enquanto o segundo tinha sangue judeu.

As suspeitas de que Lorentz era nazi não é de hoje. Após o final da guerra desculpou-se, segundo julgo, argumentando que foi obrigado a inscrever-se no partido para não perder o emprego. Agora, a Universidade de Salzburgo desclassificou-o, "post mortem", anulando o título de doutor "honoris causa" por esse facto. Fico confuso e muito perturbado.

Uma das épocas mais tenebrosas da medicina prende-se com o período nazi. Não é que Lorentz tenha tido parte ativa nas mais execráveis experiências e comportamentos de que há memória. No entanto, o facto de ter concluído pelo efeito "negativo do hibridismo", fenómeno que não corresponde à realidade, contribuiu para reforçar a tese da supremacia racial. Este é apenas um aspeto que norteia a tese nazista do investigador. Nas suas obras, Lorentz tenta explicar em parte a razão de ser do mal da humanidade através de muitos comportamentos inatos a que os seres humanos não são imunes. Agora fico dividido entre o respeito que tenho pelos seus trabalhos e a ofensa da sua atitude política. Seja como for, muitos aspetos da sua obra continuam a ajudar e a explicar muito do que são os seres humanos, violentos à escala mais absurda da perversidade, mas também capazes dos maiores feitos em que o amor e o carinho se podem manifestar com a mesma intensidade, mas de sinal contrário.

Como é possível que alguém que ajudou a compreender a razão do mal possa ter aderido a uma ideologia que é um dos mais tenebrosos símbolos em termos ideológicos?

Uma pergunta que lhe gostaria de ter feito.

Agora tento imaginar qual seria a(s) sua(s) resposta(s).

Quase que me apetece dizer que o ser humano consegue ser mais misterioso do que todos os mistérios do universo, com Deus, sem Deus ou apesar de Deus. 
Título e Texto: Salvador Massano Cardoso, “4R – Quarta República”, 23-12-2015

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