quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Sismo eleitoral

Luís Naves
A Europa está a sofrer uma mudança radical. Muitos eleitores mais pobres sentem alta ansiedade em relação à sua segurança económica e física, pensam que a identidade nacional está em perigo e têm conflitos com os vizinhos muçulmanos. Ontem, na primeira volta das eleições francesas, ocorreu um novo sismo, que deslocou as placas tectónicas da política europeia: a Frente Nacional, de extrema-direita, foi o partido mais votado. Um em cada três eleitores escolheu os nacionalistas.

É difícil antever a segunda volta, por causa da abstenção elevada, mas se a direita republicana desistisse numa das regiões, isso equivalia a eleger o representante da extrema-direita. Se houver muitas votações triangulares, é natural que a FN vença pelo menos em duas ou três regiões. A esquerda pode ganhar duas, os republicanos talvez seis ou sete, mas estamos à beira de algo de profundamente diferente, com possíveis consequências nas presidenciais, dentro de ano e meio.

O que se passou em França é sintoma de uma irritação mais vasta. Os conservadores eurocépticos venceram na Polónia e há sinais de rebeliões em outros países, por exemplo na Finlândia, Dinamarca e Suécia. A União Europeia sairá da onda populista com um aspecto diferente, com escassa paciência para periferias incapazes de controlar a sua contabilidade, provavelmente com duas zonas a diferentes velocidades e com um núcleo duro a acelerar a integração. No futuro, os políticos das correntes tradicionais terão de ouvir mais os seus eleitores ou arriscam-se a derrotas humilhantes. A recente tentativa de criar uma política comum de imigração e asilo foi um erro que pode conduzir a reacções de sentido contrário, em que será pior a emenda que o soneto. As elites mediáticas também precisam de descer das torres de marfim, pois começa a ser patética a distância entre público e matéria publicada. 
Título e Texto: Luís Naves, Fragmentário, 8-12-2015

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