segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

A vitória de Marcelo

Luís Naves

1 - A vitória de Marcelo Rebelo de Sousa nas eleições presidenciais de ontem repõe o equilíbrio num sistema político que se afastou das preocupações dos cidadãos. Se Marcelo fosse eleito pela Assembleia da República, teria já sido derrotado por Sampaio da Nóvoa ou iria perder na segunda volta; se fosse eleito pela comunicação social, teria sofrido uma copiosa derrota; se fosse eleito nas redes sociais, ficava em terceiro lugar, atrás de Nóvoa e de Marisa Matias. Há um crescente fosso entre o país real e o país publicado.

A eleição de Marcelo é a terceira derrota consecutiva do primeiro-ministro António Costa, cuja estratégia é evidentemente a errada, dispondo de um apoio popular que pouco ultrapassa um terço do eleitorado (basta olhar para os números de ontem). É possível argumentar que, pela segunda vez consecutiva, o povo português votou a favor da estabilidade, do equilíbrio e do entendimento entre os partidos que tradicionalmente ocupam o centro; ou seja, votou a favor de um hipotético Bloco Central, que é a solução política evidente para a actual situação do país.

2 - A estratégia do PS já falhou, a do Partido Comunista parece suicidária. Tal como aconteceu na Grécia ou em Espanha, o eleitorado comunista tende a aderir a uma alternativa mais urbana, no nosso caso ao Bloco de Esquerda, que tem um novo estilo, que explora novos temas e é socialmente um partido menos conservador do que o PCP. Os velhinhos da reforma agrária estão a desaparecer, como estão a desaparecer os operários, surgindo uma geração com problemas diferentes, que não são propriamente os da miséria, mas os da pobreza relativa.

Esta mudança subtil criou em Espanha o fenómeno do Podemos, que engoliu os votos comunistas e agora ameaça os próprios socialistas. O Bloco teve dois bons resultados consecutivos, mas mesmo assim não passa muito dos 10%, valor com a sua fragilidade. Falta imenso para chegar ao patamar do Podemos. O eleitorado radical em Espanha atinge quase um terço do total, incluindo secessionistas: aqui, é de um sexto.

Muitos comentadores diziam que em Portugal o centro desapareceu. Marcelo provou que não tinham razão. O país não se divide entre direita e esquerda, como sugeria a crispação dos últimos meses; o país real continua a dividir-se politicamente entre um terço na direita, um pouco mais de um terço à esquerda e quase um terço ao centro. O eleitorado é prudente e gosta da serenidade. Ganhou assim o candidato que melhor entendeu o país.
Título e Texto: Luís Naves, Fragmentário, 25-1-2016

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