quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

“Fora Foro” é meuzovo!

Luciano Henrique

Existem algumas coisas de que nos envergonhamos em nossa trajetória politica e quase sempre isso tem a ver com coisas que apoiamos e deixamos de apoiar depois. Ou então com coisas que criticamos e deixamos de criticar. Whatever…

Eu me envergonho, por exemplo, de ter participado de um frenesi da direita true nas eleições de 2014, ao considerar como “o maior dos méritos” o fato de um dos candidatos, Levy Fidelix, ter assumido um compromisso: falar DO FORO DE SÃO PAULO nos debates presidenciais. Ninguém ali via chances de vitória do candidato, óbvio, e muitos não o levavam a sério, mas teríamos “uma vitória” em mãos se o Foro ficasse conhecido nos debates.

O resultado foi o desastre: nas vezes em que o candidato citou o tema, o fez de forma atabalhoada. Não gerou praticamente nada. Ele não tinha habilidade com o tema. E mais: ninguém se interessou pelo assunto. Nunca vou esquecer de um dia em que ele resolveu citar “o totalitarismo dos países bolivarianos” e tinha 30 segundos para fazer uma pergunta. Ele gastou 12 segundos só para dar uma respirada, mais o resto para uma introdução e, quando fez a pergunta, já havia estourado seu tempo. Quase ninguém sequer entendeu o que ele havia perguntado. Ridículo. Fidelix não tinha nem sequer um frame pronto para falar do assunto. Obviamente, transformar o lema “Fora Foro” em demanda política foi uma burrice.

(Em tempo: combinar com candidatos para ir “falar do Foro”, que eu me lembre, não foi uma ideia de Olavo de Carvalho. Foi uma ideia de um dos leitores dele, na época. Muitos compraram a ideia. Mas quase todo mundo ali no círculo se empolgou.)

Seja lá como for, adquiri o hábito de, ao longo dos tempos, começar a ser mais pragmático e PRÁTICO no momento de abordar demandas políticas: quando alguém dizia “ei, fale do Foro”, eu começava a questionar: Qual o resultado prático esperado? Isto é uma demanda política? Se é uma demanda, o que devemos alcançar com ela? Com quais frames empacotamos essa demanda? Em que âmbito devemos abordar o assunto? Qual o público a ser alcançado?

Vamos aos fatos: o Foro de São Paulo foi (e continua sendo) fundamental para o projeto de poder socialista latino-americano hoje aqui no Brasil encabeçado pelo PT. Ponto. Mas eu não me lembro de ter visto petistas conseguindo poder “falando do Foro”. Em vez disso, sempre atuaram em alianças estratégicas e táticas com outros partidos e organizações do Foro, e tudo que falam, em público, se relaciona a DEMANDAS, que são pensadas em termos práticos. A militância, enfim, ecoa essas demandas, e não “elegias ao Foro”.

Logo, podemos atacar o Foro de São Paulo de várias formas, e muitas vezes além de sair dizendo “Fora Foro”. Na verdade, apenas um conjunto de formadores de opinião conhecendo o Foro de São Paulo já seria o suficiente. Mas o que geraria mais resultado seriam DEMANDAS bem elaboradas e pensadas de forma que os OBJETIVOS DO Foro fossem atingidos.

Para isto, é só entender o modus operandi dos partidos do Foro chegando ao poder. Entendendo este modus operandi, sabemos como suas demandas são elaboradas, e implementadas. Sabemos como eles montam discursos para implementar uma ditadura sutil. Ou como vão corroendo as instituições, aparelhando o judiciário e controlando de forma safada as campanhas eleitorais. O poder efetivo surge aí: na implementação de demandas pensadas em termos estratégicos e táticos.

Em tempo: se conseguíssemos, via projeto de lei, proibir a existência do Foro de São Paulo, os partidos e organizações ali presentes criariam uma outra organização, provavelmente com mais discrição. Só isso. Basta retornar aos idos dos anos 90 na Colômbia e imaginar uma situação onde os membros do Cartel de Medellín se reuniriam anualmente em um evento público para falar dos “desbravadores da economia popular”, que seriam, é claro, eles próprios. Imagine agora que o Congresso proibisse, por força de lei, a ocorrência deste evento. O que iria mudar na organização e nos resultados do Cartel de Medellín? Nada. Provavelmente eles se organizariam de outro modo.

O que se nota é que muitos dos propagadores do lema “Fora Foro de São Paulo” passaram a perseguir um totem, e não um conjunto de demandas políticas bem pensadas.

É possível observar esse fenômeno com clareza ao lembrarmos os ocorridos do segundo semestre de 2015, quando o STF deu um golpe estabelecendo o controle bolivariano de campanhas, proibindo empresas de fazer doações políticas – utilizadas sabiamente pelo PT para vencer quatro eleições – ao mesmo tempo em que os meios estatais de campanha política para o PT e suas linhas auxiliares seriam mantidos (Lei Rouanet, BLOSTA, “pontos de cultura” do MinC e outros).

Certamente tínhamos uma demanda ali a ser disputada: os “amigos do Foro” tinham que aprovar o controle bolivariano de campanha (como fizeram), e os “inimigos do Foro” deveriam lutar para garantir a liberdade de campanha política. E o que aconteceu? Somente os “amigos do Foro” fizeram alguma coisa, e exatamente por isso venceram. Do lado dos “inimigos do Foro” não surgia sequer um frame. O máximo que vimos foi “ah, o problema do fim do financiamento empresarial de campanhas é o caixa dois”. Falar isso é quase tão patético quanto dizer que “o problema do homicídio é a camisa manchada de sangue” ou “o problema do estupro é o cabelo despenteado da vítima”.

Ou seja, não conseguiam nem sequer identificar o problema trazido pela demanda oponente. Não teria como elaborem frames eficientes mesmo. Desastrados, os poucos a tocarem no assunto falaram nos frames adversários: “fim de financiamento empresarial” ao invés de “controle bolivariano de campanhas” ou “controle petista de campanhas”. Se alguém os questionasse sobre os motivos para barrar a proposta golpista do PT, não sabiam dar uma mísera explicação. Tragicamente, este foi o comportamento padrão da maioria absoluta dos que se propuseram ao longo dos anos a “lutar contra o Foro”.

Fizemos muito bem ao conhecer a estrutura do Foro de São Paulo e devemos ser gratos a pessoas como José Carlos Graça Wagner e Olavo de Carvalho por nos clarificarem sobre a organização e seus objetivos. Mas é uma tragédia cognitiva que pouco se fez com essa informação. Pior: muitos transformaram o Foro em um totem, o trataram de forma abstrata, e ignoraram as demandas da patota, o que exatamente deveria ter se tornado tema prioritário.

O resultado é mais do que vergonhoso: hoje temos fartura em termos de pessoas falando “Fora Foro” e uma escassez incrível de pessoas elaborando demandas para combatê-lo. Sem demandas claras em mente, não há sequer expectativa de bons frames. E, curiosamente, muitos movimentos de rua – que não saem as ruas pedindo “Fora Foro”, espertamente – estão fazendo mais contra o Foro de São Paulo do que muitos que supostamente teriam como prioridade “derrubar o Foro”. Mas estes últimos se limitam a esperar demandas quiméricas como “extinção do Foro de São Paulo”, algo que, se conseguido, somente faria seus inimigos se reorganizarem ainda melhor.

A única forma pragmática de lutar contra o Foro de São Paulo seria lutar contra as demandas da organização. Mas esta é a última prioridade dos “inimigos do Foro”. E mesmo assim alguns são arrogantes a ponto de querer julgar os outros dizendo “(x) não fala do Foro de São Paulo”, como se muitos que adotaram como prioridade “falar do Foro de São Paulo” tivessem bons resultados em mãos. É por isso que hoje já até uso o termo Cartel Bolivariano e foco na luta contra o totalitarismo na América Latina, que na verdade é a ambição única do Foro.

Assim, quando alguém for arrogante e lhe disser que “você não luta suficientemente contra o Foro de São Paulo”, pergunte algumas coisas em retorno. Como, por exemplo, que demandas essa pessoa tem defendido? Essa pessoa teria como evidenciar sua luta por essas demandas? E quais frames ela tem utilizado na defesa dessas demandas? As respostas são suficientes para saber se o discurso de “Fora Foro” serve para algum resultado prático ou apenas como um totem para fornecer conforto psicológico, mas inútil. 
Título, Imagem e Texto: Luciano Henrique, Ceticismo Político, 28-1-2016

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