domingo, 24 de janeiro de 2016

Não há paciência

Helena Matos

A questão racial tornou-se o mais patético exercício de promoção do coitadismo, sobretudo entre os negros norte-americanos. Que é o mesmo que dizer que em todo o mundo a que chegue a televisão.

Eu sei que devia escrever sobre o orçamento ou, mais pertinente ainda, sobre a queda em desgraça do Tribunal Constitucional que se limitou a decidir como sempre fez ao longo destes últimos anos – protegendo os membros da corporação Estado – mas que desta vez, e ao contrário do que tem acontecido, acabou criticado por quase todos. Mas o que tenho para escrever sobre o assunto ainda acaba a colidir com a assepsia do dia de reflexão e longe de mim perturbar voluntaria ou involuntariamente a reflexão de quem quer que seja. Presumo até que por estas horas, sentadinhos em tapetes, no cimo de serras e nas profundezas das grutas milhares de portugueses em posição de lótus procuram avaliar as diferentes propostas eleitorais. Que não acabem com o cérebro e as costas feitos num oito é o que lhes desejo. E foi assim que, de assunto em assunto, acabei noutra eleição ou mais propriamente nos óscares, cerimónia regra geral aborrecida para todos os mortais à excepção dos candidatos mas que acabou transformada em acontecimento mundial.

Os óscares ganharam agora outro foco além do cinematográfico propriamente dito. Trata-se da cor da pele e do sexo dos nomeados. Enfim o cinema é uma indústria e a indignação também e cada um faz nessas indústrias o que quer ou pode para ganhar a vida. Mas à liberdade dos senhores Will Smith e Spike Lee de dizerem e fazerem o que lhes apetece – nomeadamente o anúncio de que não participarão na cerimónia dos óscares por só terem sido nomeados actores no dizer deles caucasianos (confesso que no caso do Stallone após tantas operações e tanto botox nem consigo garantir que ele seja humano, quanto mais caucasiano ou asiático!) – corresponde o direito dos outros lhes responderem que boa parte do que dizem não passam de rotundas parvoíces.

Mas vamos ao assunto propriamente dito: este ano não há negros entre os actores candidatos aos óscares. Por acaso também não vislumbrei por lá nenhum chinês, ou melhor dizendo asiático. Claro que também não há mulheres gordas nem feias. E quanto a idades seríamos levados a acreditar que o sexo feminino desaparece da face da Terra passados os 35 não fossem estar candidatas as anciãs Cate Blanchet (nasceu em 1969) e Charlotte Rampling, que veio ao mundo em 1946 e a quem as declarações que fez sobre este assunto – “racismo contra brancos” – devem ter feito perder qualquer possibilidade de ganhar a estatueta (isto apesar de Charlotte Rampling se ter apressado a pedir desculpa e dizer que foi mal interpretada).

A questão racial tornou-se o mais patético exercicio de promoção do coitadismo, sobretudo entre os negros norte-americanos. que é o mesmo que dizer que em todo o mundo a que chegue a televisão. O que não fazem ou não conseguem é invariavelmente o resultado do racismo e nunca do seu não esforço ou desinteresse. Em Portugal, temos nesta matéria o incontornável paradoxo de se explicar com o racismo e os problemas associados à imigração os fracos resultados escolares dos alunos ditos africanos. Note-se que a não ser que a Amadora ou Moscavide fiquem em África não há razão alguma, a não ser a cor da pele, para que se chamem africanos a estes jovens nascidos em Portugal, frequentemente filhos de pais nascidos também em Portugal. Curiosamente ninguém se interroga sobre os brilhantes resultados escolares dos filhos dos ucranianos, que pouco tempo depois de chegarem a Portugal se tornam nos melhores alunos das suas turmas.

Sob o silêncio em torno deste assunto, nomeadamente o silêncio de muitas daquelas associações que vivem de denunciar o racismo e que na minha opinião em vez de o combater o promovem, guetizando ainda mais aqueles que deviam integrar, esconde-se um arreigado paternalismo, esse sim racista, que na prática se traduz por isto: os ucranianos são brancos, têm olhos azuis e para mais vieram daquele caldeirão do ex-mundo comunista, logo politicamente não interessam a ninguém. Pelo contrário os negros (e agora também os muçulmanos) vivem mediaticamente falando sob a tutela da esquerda. Esta primeiro quis libertar África. Transformadas essas libertações em embaraçosíssimas ditaduras, entende agora a esquerda que há-de transformar no seu novo eleitorado essa multidão, que em boa parte teve de deixar África porque as tais libertações só produziram miséria. Com as classes trabalhadoras a descrerem cada vez mais das virtudes do socialismo, promover o ressentimento e o assistencialismo numa população para mais jovem é uma boa forma de garantir os votos por largos anos.

Nos EUA temos a juntar a tudo isto Hollywood e o puritanismo. Assim, com aquele frenesi que os levou à Lei Seca e destrambelhos quejandos, atiram-se agora às questões que se dizem de género e a tudo o que vagamente possa ser relacionado com o racismo. Há de tudo e para todos os gostos. Como não é humanamente possível seguir todos os racismos por ali denunciados resolvi focar-me na problemática dos homens asiáticos que denunciam que o cinema os discrimina. Porquê? Entre outras coisas porque nunca são vistos como desejáveis pelas mulheres brancas! A esta assexualização dos homens corresponde, segundo os promotores desta causa, uma sexualização das mulheres asiáticas. Enfim acabaremos literalmente a discutir a cor dos anjos mas não quero sair deste assunto sem lançar eu mesma uma outra causa: a das mulheres brancas que nos filmes ficam sempre a perder para as asiáticas que, para lá doutras vantagens estéticas, são sempre enaltecidas pelos guionistas, homens obviamente, porque não falam: nos filmes ocidentais as mulheres asiáticas aparecem invariavelmente como seres de poucas ou nenhumas palavras. Ora uma mulher silenciosa, ou mais propriamente uma mulher que não lhes diga a verdade, é o sonho de qualquer criatura do sexo masculino nascida no Ocidente. E assim esta minha causa junta não só o combate ao racismo face às mulheres asiáticas, mais o racismo perante as mulheres brancas como ainda combate o machismo dos homens ocidentais. Fantástico não é? Ainda acabo nos óscares!

Quero acreditar que a histeria terminará. Que um dia seremos capazes de reflectir sobre o proselitismo que levou a situações tão aberrantes quanto a vivida em Rotherham, Inglaterra: em pleno século XXI, 1400 crianças que estavam sob a tutela dos serviços sociais foram abusadas sexualmente. Os abusos duraram anos. O facto de os abusadores serem de origem paquistanesa levou a que durante anos e anos não só não se fizesse nada para acabar com aquele pesadelo como os poucos que o tentaram denunciar acabaram a ser confrontados com acusações de racismo e desadequação aos valores multiculturais.

A falta de destaque noticioso sobre o caso de Rotherham, que contrasta por exemplo com a indignação com os abusos sexuais levados a cabo sobretudo no século passado por sacerdotes católicos, é sintomática da hipocrisia que reina nesta matéria, hipocrisia que ela sim é uma forma de racismo. Porque uma violação é uma violação independentemente de quem a pratica e de quem a sofre.

E agora ou escrevo sobre o sucedido em Colónia ou, opção bem mais interessante, sugiro que nas intermitências da empastelada noite dos óscares vejam um filme. Chama-se Cowboys. É de 1972 e tem como principal protagonista um John Wayne já velho o que não lhe tira nada daquele sugestivo andar que ninguém explicou tão bem enquanto símbolo da  masculinidade quanto o actor Nathan Lane na Gaiola das Malucas.

Mas voltando a Cowboys a história nem é muito original: Wil Andersen (Wayne) um rancheiro para quem a vida não deve ter sido meiga vê-se por circunstâncias várias à frente de um grupo de rapazes, os cowboys possíveis já que os homens adultos tinham desaparecido em mais uma corrida ao ouro. Wil Andersen (Wayne) tem de levar a sua manada para um local que fica a 650 quilómetros. É fácil perceber que a viagem se transforma num ritual de passagem dos rapazes para o mundo dos adultos.

Contudo o filme não é hoje propriamente considerado uma fita familiar. Antes pelo contrário. Ora porque Wil Andersen (Wayne) tem um entendimento da educação dos rapazes nada consentâneo com as pedagogias de hoje, ora porque reproduz todos os estereótipos da masculinidade e, cereja no topo do bolo, porque a palavra nigger é pronunciada no filme a propósito do cozinheiro Jebediah Nightlinger interpretado por Roscoe Lee Browne. Perante o primeiro negro que viam na sua vida os miúdos não só proferem nigger várias vezes como pretendem saber se aquela negritude abrange todas as partes do seu corpo.

E assim os jovens de hoje podem ver filmes com sexo, violência e consumo de drogas à vontade mas claro nenhum adulto responsável pode gritar com eles como faz Wil Andersen (Wayne) no filme e claro que os negros passaram a afro-americanos, os chineses a asiáticos e por aí fora.

Perante o desconchavo de tudo isto só apetece recuperar a resposta de Roscoe Lee Browne, sim o mesmo que faz de cozinheiro em Cowboys e que era um notável intérprete de poesia e textos clássicos e dono de uma dicção fabulosa, àqueles que o acusavam de ter uma voz demasiado branca: “Peço desculpa tivemos uma mulher a dias branca.” 
Título e Texto: Helena Matos, Observador, 24-1-2016

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