terça-feira, 26 de janeiro de 2016

O Presidente

Maria João Avillez 

Dois pesos e duas medidas, ou a esquerda ancorada no seu pior, intolerante face à vitória de um opositor e do seu programa, mesmo que altamente sufragada pelo povo (mas há o povo “deles” e o outro).

1. Gosto de Cavaco. Sempre o apreciei política e civicamente, não é de agora, mas agora gosto de o afirmar. Agora o “costume” é denegri-lo. A eito. Usando de radiografias políticas enviesadas e sempre a preto e branco (o “branco” são os seus antecessores, dignos da democracia, o “preto” é Cavaco, suportado “à peine” por esses mesmos tão exclusivistas democratas). Têm também abundado as feias maneiras, insultos variados, grosserias, acusações absurdas, de tão obviamente infundadas. E meia dúzia de mentiras, a embrulhar, algumas intencionalmente fora do perímetro politico (já nem falo do meramente institucional) em que alguém no exercício de funções deve ser analisado. E só depois disso, aplaudido, criticado ou combatido. Não tem sido o caso.

Mas o que mais espanta é não só a oportuníssima omissão de tudo o que Cavaco fez, operacionalizou ou conseguiu quando chefiou os seus três governos, como a negação das particulares condições políticas internas ou dos difíceis contextos internacionais em que, na última década, ele se moveu em Belém. Não nego – longe disso… – inabilidades, infelicidades ou perplexidades cometidas nesses dez anos, mas não me cai bem o atestado de imbecilidade que me passam. A mim e a metade do país que bisou ou trisou maiorias eleitorais em nome de Cavaco Silva. Já se sabe: quando “se” vota ao contrário do corso bem pensante é-se um pobre diabo, merecedor de condoída comiseração, mas procure-se alguém com mais intervenção na área pública e melhores resultados no universo político do que este ex-primeiro ministro e ainda Presidente da Republica, desde Abril de 1975. Ou alguém – por exemplo – que tanto se tenha preocupado – concretamente, utilmente – com a imagem externa de Portugal?

Os outsiders sempre pagaram o preço da pertença a outros territórios. Mas um outsider com milhões de votos bisados ou trisados e, além disso, dependente convicto do seu entendimento do interesse nacional – desde o início uma marca de Cavaco Silva – foi, para muitos, como engolir ácido sulfúrico: não engoliram.

Cavaco desconcertou, é certo. Mais que qualquer outra coisa, desconcertou e confundiu. Tinha uma diferente escala de prioridades, veio com outra carta de intenções. Pertencia a outro mundo. Com as vantagens que isso pode ter, com as desvantagens que tal risco comporta. Começou logo na campanha eleitoral para as legislativas de 1985 que ganhou desajeitadamente, seduzindo uns, incomodando outros mas espantando todos. Eu lembro-me: estava lá. Cavaco foi ter com o povo, falou directamente com as pessoas, desenhando uma espécie de arco sobre os partidos, sem sequer se acolher muito ao seu. Como se estivesse a conversar com o país e o diálogo dispensasse interlocutores. Lembro-me de que nunca tinha visto aquilo. E foram centenas e centenas de quilómetros que fiz, país fora, país dentro, com o Expresso – onde então estava – atrás da sua “caravana”.

Apercebi-me de que se criaria um elo entre Cavaco e o país. Resistente e provavelmente duradoiro. E que pese a postura hirta com que nesse outono de 1985 ele atravessara Portugal, uma timidez omnipresente e um figurino que destoava dos cânones permitidos, estava ali alguém para lavar e durar. Nesse sentido foi uma campanha – e uma experiência profissional – invulgares. Tudo era novo, diferente, desconhecido: como lidar com aquilo?

No Expresso, onde não se prestava a menor atenção àquele “provinciano” mas sim ao PS e à sua aposta de maioria absoluta, alertei alguns para o fenómeno que me parecera ver começar a germinar. Pouco me ligaram, nesse tique mecânico e mil vezes reeditado de dar a nobre primazia à esquerda. Acabei a prosa da campanha eleitoral com um prudente “ponto de interrogação” e fui à vida. Mas Cavaco já estava inscrito na do país. Os algarismos baixos que hoje, ao fim de quatro décadas, aferem o seu índice de popularidade, são, convenhamos, um bom álibi para os detractores e maledicentes. Não tenho a certeza que seja isso que o futuro, os vindouros e os livros, registarão. Sublinharão mais depressa as qualidades de liderança e a competência governativa do ex-primeiro-ministro – e as consequências da sua perícia no manejo do país – e admito que menos o recorte presidencial de Cavaco Silva (cada um é para o que nasce).

Mais ênfase nas reformas que foram efectuadas – umas foram, outras não, critiquei essas omissões em escritos vários – e na de convicta determinação que permitiu a normalização do nosso actual modelo de sociedade: quem se lembra do que em 1987 ainda foi necessário fazer para isso? Quanto ao entendimento de Cavaco da função presidencial e ao modo com que a protagonizou, admito que divida e, uma vez mais, confunda. Mas quando se elege alguém é para que esse alguém aplique e pratique as ideias que levaram os outros a elegê-lo. E lhes seja fiel no exercício desse mesmo cargo.

Seja como for, os gestos e as intervenções do Chefe do Estado, os seus avisos, escolhas e recados, têm sido brandidos como objectos contundentes, atirados como lança-chamas mas sempre convenientemente desgarrados das coordenadas nacionais ou internacionais em que eram proferidos, ou se enquadravam.

Sucede porém que, assim de repente, me ocorrem duas ou três lembranças, reveladoras como espelhos. Por exemplo: tantos e tão permanentes ataques, à esquerda, por razões ideológicas, e tantas e tão azedas criticas, à direita, por razões sociais. Não é singular? Ou será que Cavaco foi afinal mais independente do que se diz, dentro daquele pesado palácio?

Foi, pelo menos, independente de algumas tentações políticas, provadas por outros. Bem pelo contrário, pareceu-me ter sempre havido nele pouca propensão – ou mesmo nenhuma – para lá instalar cortes, fabricar partidos, produzir intriga, animar tertúlias de oposição, realizar de congressos contra governos. Recordo três ou quatro: Eanes produzindo e realizando um partido na reservada solenidade da Presidência da República; Vitor Constâncio – a “galinha que não voava”, Soares dixit – demitindo-se da liderança do PS, pasmado e furioso com as directas “interferências” do Presidente da República no Largo do Rato; Jorge Sampaio pulverizando sem motivo uma maioria parlamentar absoluta – gostasse-se ou não dela – para se precaver em deixar herdeiro socialista na chefia do governo. Dois pesos e duas medidas, um clássico.

Mais recentemente, quando Cavaco se cansou (e nos cansou) de clamar por “compromissos” e “entendimentos”, foi expeditamente acusado disto e daquilo. Sampaio da Nóvoa deslumbrou a esquerda ao rotular de “boa” e mesmo “imprescindível” a “ideia” de compromissos… Dois pesos e duas medidas, sim, ou a esquerda ancorada no seu pior: uma extraordinária falta de tolerância para com a opinião vinda de fora das suas fronteiras; para com as gentes e os credos para lá desse espaço; para ganhadores que não sejam “seus”. Intolerante face à vitória de um opositor e do seu programa político, mesmo que altamente sufragada pelo povo (mas há o povo “deles” e o outro).

Quero com isto dizer que Cavaco foi melhor ou pior que outros? Não. Tento apenas recentrar as coisas. E racionalizar narrativas que não circulem apenas pelo crédito zero para uns e pela passadeira vermelha do “tempo novo” para outros.

Se não fosse trágico pelo que desabona da seriedade de um país, de uma elite, de uma sociedade, dos seus partidos, era grotesco. Não iremos longe no destino, podem apostar.

A Presidência de Cavaco não foi fácil, nenhuma é. A sua foi ontem, o país viu-a, nós lembramo-nos: uma primeira fase, com o então primeiro-ministro José Sócrates a dominar – dominar, sim – tudo e todos, enquanto gastava dinheiro que Portugal não tinha. Passados que foram esses anos de susto, o espectro da bancarrota instalou-se à porta do país, depois aterrou a troika, depois a temível “austeridade”.

Pergunto a terminar: como é que o Presidente Cavaco Silva pôde ter-se “colado” – como dizem os do tempo novo e os do tempo velho (que felicidade não ser de nenhum deles) – a um governo se, por exemplo, mas o exemplo é forte!, proferiu a sentença da “espiral recessiva” sobre a política económica desse mesmo governo? Ou quando se propôs amputar um ano à legislatura de Passos Coelho a troco de um acordo político interpartidário que só muito duvidosamente favorecia a coligação e inteiramente desfavorecia o então chefe do Governo?

Chega de exemplos, só não vê quem não quer.

2. Talvez Cavaco Silva seja um case study, não sei. O que sei é que ele é capaz de personificar, nas últimas décadas, uma das mais fulgurantes e expressivas amostras do abismo que por vezes existe entre as elites e a opinião publicada, de um lado; e o povo e a verdadeira opinião pública, do outro.

3. Assim vai a vida. Oca e perigosíssima. Mas festiva. Ao que dizem.
Título e Texto: Maria João Avillez, Observador, 26-1-2016

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