quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Sem cor, sem cheiro e sem sabor: a escalada do relativismo

Leo Daniele

No artigo intitulado “Tem razão”, publicado no jornal “O Estado de S. Paulo” de 27 de janeiro de 2005, Fabio Porchat escreve: “Cada um tem a sua razão de achar certo ou errado. E é claro que você vai concordar com algumas coisas e discordar de outras. Vivemos num mundo plural, mas ainda pensamos com uma cabeça bilateral. Certo ou errado. Bom ou mau. É ou não é. A questão é que tudo está certo e errado, é bom e mau, é e não é, ao mesmo tempo.”

Nessas palavras está expresso exatamente o que se deve entender por relativismo, para o qual não existem certezas, nem verdades absolutas. A verdade, o bem e o mal variam sempre de acordo com a pessoa e as circunstâncias de tempo e de lugar. Ninguém nunca pode dizer: isto é assim, e não é de outro jeito. Bem, digamos, pós-moderno, não é?

Um exemplo desta colocação encontramos numa enfermiça e famosa canção: “Imagine que não exista nenhum paraíso. É fácil se você tentar. Nenhum inferno abaixo de nós, sobre nós apenas o firmamento. Imagine todas as pessoas vivendo pelo hoje…”. (Imagine, de John Lennon).

E, como reconhecia o Papa Bento XVI,  existe em nossos dias a “ditadura do relativismo”!

Uma leitora relativista escreveu a  Plinio Corrêa de Oliveira: “Algo em seus artigos me entristece. É a certeza que o sr. sente a respeito de tudo quanto afirma. É uma certeza tão categórica, tão compacta, tão absoluta, que causa mal-estar. Aos que pensam como o sr., porque a certeza deles é bem menor que a sua. Aos que não têm certeza nenhuma, porque sentem as certezas do sr. como pontiagudos desafios. E aos que do sr. discordam… destes então nem se fale.”

E ele, um antirrelativista, respondeu: “Se lhe pareço intolerante, a sra. há de achar lógico que eu não tolere certas posições doutrinárias. Eu é que não compreendo como a sra., que se gaba de tolerar tudo, não me tolere a mim (e aos incontáveis brasileiros que a sra. reputa intolerantes). Sua tolerância tem mão e não tem contramão. A sra. tolera só os que, como a sra., são tolerantes. E me acusa de só tolerar os que pensam como eu…

“‘Sentir certeza a respeito de tudo quanto afirma’, é coisa rara e louvável. Mas na maneira da pensar de alguns — como da leitora — é censurável.

“Por que razão isso é assim? Há muitas causas. Uma das principais é a rejeição, consciente ou subconsciente,  de tudo quanto seja absoluto. E é por isso que todo relativista tem algo de ateu, pois o Absoluto é Deus.

“A indisfarçável tristeza profunda do mundo moderno sob a aparência do contrário certamente tem muito a ver com essa fuga do absoluto. Certamente disso já falava Camões. quando dizia que  ‘Não nos dá a Pátria, não, que está metida, no gosto da cobiça e na rudeza, de uma austera, apagada e vil tristeza’”. (“Folha de S. Paulo”, 29-10-77)

Quanto a nós, continuemos a julgar as pessoas baseados somente no ”sim e não”. Pois diz  Nosso Senhor Jesus Cristo: “Seja, porém, o vosso falar: Sim, sim; Não, não; porque o que passa disto vem do Maligno” (São Mateus 5-37).
Título, Imagem e Texto: Leo Daniele, ABIM, 17-2-2016

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