sábado, 6 de fevereiro de 2016

Sobe-desce com o ésimo

Jacinto Flecha

Dois leitores da minha última crônica (Ano MMXVI – Segundo milésimo décimo sexto) escreveram-me elogiosamente, e com boas sugestões.

O primeiro informa não ter concluído nenhum curso universitário, e declara-se estupefato com algumas preciosidades da nossa língua (eu diria preciosismos), tipo octingentésimo, quadringentésimo. Nunca ele tinha tropeçado nisso, nunca perdeu noites de sono por causa disso e nunca precisou disso para viver. Mas reconhece que um em um milhão pode precisar, portanto é bom esses palavrões estarem de plantão para quem quiser complicar com eles a vida dos outros.


Declara também ter gostado da ideia do ascensorista, com seu sobe-desce de dôzimo para dezenóvimo, e vice-versa. Acha a ideia original, mas bastante limitada, e não atina com a maneira de aplicá-la a algum octingentésimo que se apresente.

Agradecendo a atenção desse conterrâneo, passo a analisar as considerações do outro, que não é brasileiro, e sim francês radicado no Brasil. Como se sabe, os franceses são todos muito educados – ou não, conforme as circunstâncias. Tanto é assim que ele começa elogiando o trocadilho com iMaginot, e logo depois afirma que é muito fácil fazer trocadilhos na língua francesa, que tem o mesmo som final para muitas palavras, embora escritas de uns dez modos diferentes. A minha conclusão é que talvez seja uma espécie de riqueza da língua…

O franco-brasileiro concorda ser estapafúrdio (drôle) fazer contas dentro do mesmo número, como ocorre a partir de setenta e um (soixante onze). E afirma que os franceses teriam resolvido isso de acordo com a minha sugestão (septantehuitanteneuvante), se os belgas já não estivessem falando assim. Uma boa ideia para a França só pode surgir na cabeça de um francês, além disso é muito cômodo poder incriminar os belgas como deturpadores da língua.

Prossegue afirmando que os meus legítimos esforços para corrigir a língua dos outros deveriam ter encontrado melhor uso na solução daqueles nossos palavrões dos numerais ordinais. Coisa, aliás, que os franceses já resolveram sem a minha ajuda dispensável. Tudo muito amável, como se pode ver. E explica que os ordinais franceses são enunciados simplesmente escrevendo o número em algarismos arábicos, e acrescentando a ele um ième em sobrescrito. Por exemplo, 49ième. Muito mais fácil do que os nossos palavrões. Evidentemente os franceses não nos permitirão copiar o ième deles, mas podemos usar ésimo, algo assim: 49ésimo, que na leitura seria quarenta e novésimo.

Parece que esse meu leitor franco-brasileiro não tem conhecimento amplo da nossa língua, pois já temos uma solução até mais fácil para o efeito que ele menciona: 49º. O difícil para nós é quando queremos escrever ou falar os ordinais por extenso, sem os algarismos, como fiz acima com a pronúncia do quarenta e novésimo. Talvez possamos aproveitar a sugestão dele para isso também. Que dificuldade haveria, por exemplo, em dizer oitenta e setésimo, oitocentos e setenta e um-ésimo, etc? De primeiro a décimo ficaria como está, e de onze a vinte usaríamos imo, curvando-nos assim à pitoresca sugestão do ascensorista.

Esqueci-me de informar que o primeiro leitor, o brasileiro, está disposto a quebrar lanças contra os tais quingentésimos. Propôs até uma passeata diante da Academia Brasileira de Letras, com cartazes e slogans assim: Abaixo o octingentésimo! Não queremos setingentésimo nem sexcentésimo!, e assim por diante. Ele só tem dúvida se faríamos isso diante da Casa de Machado de Assis, pois no nosso caso não se trata de letras, e sim de números. Pergunta-me se existe Academia Brasileira de Números. Já respondi pessoalmente, mas não disponho de espaço aqui para incluir a minha resposta.
Título, Imagem e Texto: Jacinto Flecha, ABIM, 6-2-2016

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