sábado, 9 de abril de 2016

O futuro meteu a marcha atrás

Maria João Avillez
Passos Coelho está isolado de uma “casta” que não presta mas lhe quer a pele. E que disfarça (mal) ambições difusas e confusas de “liderança”, que simultaneamente quer mas teme, deseja mas não assume

1. Há anos que Pedro Passos Coelho está “isolado”. Que me lembre, pelo menos desde 2010. Ou era o PSD que não estava “unido atrás dele”, ou era Angela Merkel — asseguravam-me fontes “bem informadas” — que “estava contra ele”, ou era Cavaco Silva que “sempre se dera mal com Passos Coelho”. Sorte espinhosa, esta.

Em Maio do ano seguinte, ganhas as eleições legislativas contra o governo do PS pelo mesmo Pedro Passos Coelho, houve uma brevíssima trégua na sua “solidão” política. Talvez por decoro face à plateia do país, diariamente convocada para uma ficção que a realidade também diariamente desmentia mas foi breve o intervalo: Passos sofria de “isolamento” como quem tem uma doença de pele

Seguiram-se anos assim, iguais: no governo, no partido, no país da comunicação social, nas televisões, nas manchetes, ninguém “se revia no primeiro-ministro”. E menos num governo que obviamente não “podia” durar com a “certeza” do segundo resgate à porta. E nem aquele fatal “irrevogável”de Julho de 2013, que vinha tão a jeito, conseguiu que o desfecho coincidisse com o veredicto mediático-socialista da queda antes do tempo: o país dispensou a ultima tranche do empréstimo da troika e o tão certo desfecho desaguou em nova vitória legislativa. (O que entre outras coisas mostra “que essa” parte do país, teria pelo menos merecido alguma atenção por parte de jornais e jornalistas, sempre preferencialmente entretidos na afanosa pesca do verbo esclarecido de Pacheco Pereira que “até era do PSD”, ou de Bagão, “que sempre fora CDS”.)

Além do seu partido (mas era preciso ser capaz de ter o PSD manso de veleidades e Passos foi), o “isolado” teve consigo uma coligação unida e sobretudo — e antes do mais — uma parte substancial do país, sem a qual ele nada faria. Nós vimos, foi ontem. Estamos lembrados.

2. Peço desculpa pela arenga acima exposta. Julgava-me liberta dela para todo o sempre mas tive de voltar a soletrá-la para poder aterrar no “hoje” Começo por um “hoje” que decorreu em Espinho e onde algumas boas intervenções correram o risco de serem devoradas pela ficção. Era até por vezes como se alguém pusesse as luvas nos pés e calçasse os sapatos nas mãos. Ou exibisse uma foto de pernas para o ar, com a imagem ao contrário.

Pela enésima vez queriam que nos fixássemos num Passos Coelho que nunca existiu. E que apenas fantasmaticamente se corporizava nas perguntas ou opiniões de barões e oligarcas, pivôs e comentadores, segundo um guião pré-definido e igualmente ficcional. Uma espécie de Passos Coelho pronto a servi e enfeitado com aqueles defeitos nossos conhecidos que com alta inconsistência e muito tédio são ciclicamente ressuscitados: é “frio”, confundindo-se comodamente “frieza” com resiliência e “rigidez” com a sua recusa (que se agradece) em exibir estados de alma; sem “jeito para comunicar,” mas desde quando é que Passos Coelho ama os palcos acima de todas as coisas? “Teimoso”… talvez porque recusa guiões alheios?

Nada de muito novo mas como quase exclusiva base da intervenção mediática foi pobrezinho além de inverosímil. E no baronato, a cultura da intriga anónima esteve florescente: dos “altos dirigentes” que exigiam o anonimato às fontes sem rosto, a colheita foi boa e o despeito, exuberante. Provavelmente é o que lá há mais. Mas como eu, muita gente se teria certamente inquietado se tivesse tropeçado numa súbita mudança de “perfil” ou se tivesse visto Passos Coelho ceder, mesmo que por mera exaustão, às reclamações de um cerco de barões despeitados.
3. O “hoje” do PSD não é sofrer do mal de liderança nem de bússola parada. O melhor que actualmente ainda tem é justamente a sua liderança. E nesse sentido não é Passos Coelho que está “isolado”, é o seu partido que se entala entre a temível oligarquia que lá sobrevive — hipócrita, ambigua, débil, dúbio — e um aparelho que, apesar de bem melhor que a oligarquia, devia trocar a sua manifesta fome de lugares pelo apetite de servir a política.

Nesse sentido, sim, Passos Coelho está isolado de uma “casta” que não presta mas lhe quer a pele. E que disfarça (mal) ambições difusas e confusas de “liderança”, que simultaneamente quer mas teme, deseja mas não assume. Capaz de alimentar qualquer pequena ou média intriga sem substância, possui o misterioso tique de se considerar sempre “melhor” do que qualquer líder (o PSD sempre apeou lideres com um sangue frio que não corre em mais partido algum). Sem surpresa trocaram a comparência no Congresso de Espinho pelo (suposto) glamour de treinar as massas a partir da bancada da televisão enquanto outros se confortavam em desabafar no primeiro jornal que os acolhesse. Conhecemo-los. Fazem medo mas não se exclui que tenham futuro, a política está enevoada. Mas que Passos destoa disto, destoa.

(Breve entre parêntesis ainda a propósito de Espinho: Santana Lopes, parece, pelo contrário, pouco enevoado, talvez tenha amadurecido de vez. Mesmo que interessadamente, deu-se ao trabalho de rumar a norte, onde, com um aparato de que tem o segredo, disse algumas verdades. Além de se ter ocupado da marca — impressa no país — e da memória — inscrita no PSD –, de Cavaco e Passos, tratados até aí como dois figurantes, alheios à “casa”. Deu aos Césares o que era de cada César. E ja que voltei a Espinho, foi politicamente interessante reencontrar Carlos Moedas: apreciar ao vivo o efeito de uma cultura politica “outra”, e apreciar o “modus operandi” político e civilizacional de alguém que vive e respira num ar menos rarefeito.

Não ocorre todos os dias.

4. Embora sempre ameaçado pelo expirar do seu próprio prazo de validade, é da voz de Passos Coelho que se têm ouvido as propostas mais consistentes de reformar coisas tão pouco despiciendas quanto a Segurança Social e a própria… política, para só escolher estas. É um bom sinal para quem podia estar entrincheirado em si mesmo e um desafio político útil, recuperar da sua governação o que deve ser projectado, relembrado, rentabilizado no futuro, fazendo disso uma mais-valia e uma assinatura.

Tenha ou não êxito imediato no propósito de arregimentar vontades para reformar o país, contrasta pelo menos com o vaguíssimo e preguiçoso mapa de “reformas” do governo do “tempo novo”. Onde ainda o pior talvez seja o achar-se – como aparentemente os seus autores acham – que alguém normalmente constituído, pode levar aquilo a sério. Deve ser uma experiência invulgar poder viver num universo tão irreal. Um mundo privativo das três esquerdas, onde se tenta convencer os portugueses de que vivem melhor (com o dinheiro de quem?), se evoca a torto e a direito o (artificial) “desanuviamento” do ar e se levanta a voz na “Europa” (em qual?)

Dizer isto cai mal, eu sei. Logo numa altura em que o país deixou subitamente de ter problemas e a vida se anuncia tão bela, E tão distendida, tão leve.

5. Qualquer pessoa séria sabe que não é bem assim, as noticias não são boas, há uma deterioração que os números, mesmo que se manipulem, ainda que se deturpem, nunca poderão esconder: mais perto que longe, a realidade se encarregará de fazer a sua “fracassante” entrada em cena. E não é preciso evocar o papão europeu, os “mercados”, ou seja o que for. Basta só atender à realidade intramuros, quando ela começar a dar de si.

Apenas dois pequenos exemplos:

1) As “cativações” começam a dar que falar, as reações vieram com as andorinhas. A última foi a da Universidade. O Governo obviamente não lhe chama “cortes” — o PS podia lá contrariar os seus periclitantes parceiros? — mas são um corte “disfarçado”: o dinheiro está “lá” mas não se lhe pode tocar. De caminho joga-se uma tripla — finge-se que se cumpre o programa do governo; finge-se que se aplica o acordado com os parceiros; finge-se que se é fiel à palavra dada, neste caso, aos reitores. E entretanto…
vai-se “cativando”.

2) O célebre plano B — que o governo esconde, o país desconfia que existe e o Presidente do Banco Central Europeu confirmou — é porventura a melhor radiografia da deterioração em curso.

6. Sem novidade, a tendência, nos palcos do poder e nos écrans, tem sido a de persistentemente anular – com carácter de urgência e irreversibilidade — a governação anterior: quatro anos de erros e de mansidão em Bruxelas. Mas a coisa subitamente subiu de tom. Com nuvens mais pesadas que o esperado a anunciarem-se sobre a actual governação (ameaçando a prometida glória de um futuro feliz e a sobrevivência da própria governação) inventou-se um salvífico bode expiatório: o passado “culpado”. Não foi aliás difícil, há sempre fiéis mensageiros. Já começaram a doutrinar-nos que os erros cometidos pelo governo da coligação PSD/CDS foram tão, tão, tão terríveis, que justificam tudo o que de mau pode (afinal?) vir a passar-se entre nós: dificuldades, dívidas, défice, desemprego. A cantilena está em marcha, o refrão é: “a culpa é toda deles”. Estamos avisados.
Título e Texto: Maria João Avillez, Observador, 8-4-2016

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