quarta-feira, 13 de abril de 2016

O processo de destituição

Luís Naves
Enquanto avança o processo de destituição de Dilma Rousseff, o noticiário nacional preocupa-se com a questão da legitimidade democrática e tenta desvalorizar os adversários da presidente, repetindo o paupérrimo “não vai ter golpe” ou exibindo reportagens em que os críticos do poder são apresentados como débeis mentais. Alguns argumentos apontam a fraqueza do caso contra Dilma, os autores esmiuçam detalhes legais, dando pouco peso aos indícios de, nestes seus pecadilhos, a presidente ter violado a Constituição ou ter procurado obstruir a justiça. A democracia brasileira enfrenta uma crise existencial, mas os deputados que vão votar a destituição também foram eleitos e as revelações do escândalo de corrupção deixaram milhões de pessoas justamente indignadas. Os jornalistas portugueses deviam fazer o exercício de se porem na pele dos brasileiros, tentando entender por que razão eles não querem esta gente.

Na melhor das hipóteses, Dilma escapará à destituição, conseguindo um terço dos deputados, mas o país dificilmente aguentará três anos de alta ansiedade. A economia brasileira está em queda livre. Em 2015, o produto caiu mais de 3% e, em 2016, continuará a descer, só não se sabe quanto: as previsões oficiais, sucessivamente revistas em baixa e ainda talvez optimistas, dão uma contracção de 3,5%; instituições internacionais falam em mais de 5%. O desemprego está a subir velozmente e as poucas benesses que os pobres poderão ter recebido na última década continuam a dissipar-se.

O escândalo de corrupção em larga escala mostra que o PT tentou criar um regime clientelar, mas por motivos que deixam qualquer um perplexo, em Portugal continuamos a ouvir histórias da carochinha, como se Lula fosse estadista e não existisse uma investigação judicial que, em qualquer país livre, daria origem a uma profunda limpeza. A imprensa brasileira, hostil ao PT, é ignorada pelos nossos comentadores, como se fosse a voz de uma ditadura, em vez de ser uma imprensa livre e até particularmente vibrante. Sim, o congresso estará cheio de corruptos, nenhum partido escapou aos subornos, o presidencialismo no Brasil é caótico e o método eleitoral permissível a descarados episódios de caciquismo, mas não se percebe como é que a democracia pode manter-se durante três anos num lume brando destes. Mesmo que sobreviva à destituição, Dilma terá de se demitir, e é preferível que o faça mais cedo do que tarde. 
Título e Texto: Luís Naves, Fragmentário, 12-4-2016

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