terça-feira, 19 de abril de 2016

Um país que adora devorar as suas aéreas

Cláudio Magnavita

A GOL Linhas Aéreas Inteligentes está enfrentando um cenário hostil, até então desconhecido pelas empresas nascidas após a era VARIG/VASP/TRANSBRASIL.

O cenário que temos hoje na aviação brasileira é uma reedição das hostilidades de regras de mercado que abateram as três gigantes daquela era.

A perversa equação que inclui: custo Brasil, desvalorização da moeda nacional, dolarrização da moeda nacional, dolarização dos insumos e crise econòmica são exatamente os mesmos.

Quando a GOL, AZUL e AVIANCA surgiram, encontram uma TAM em reestruturação e a caminho de um crescimento vertiginoso, que serviu como remédio para a exposição anterior aos mesmos problemas. Ao criar massa crítica e virar a líder do mercado, a TAM, hoje LATAM, foi levada a se fusionar com a chilena LAN e pode cicatrizar parte da exposição anterior. Parecia que o mercado estava saneado e tínhamos empresas realmente sadias.

O que resultou a exposição destes CNPJs há 10 anos de uma cruel realidade brasileira?

A GOL foi criada a partir do zero, com beneplácito do Poder Concedente que lhe outorgou rotas inimagináveis para uma entrante.

Cresceu ganhando dinheiro em uma economia que crescia e com a inclusão de novos CPFs ao mercado de passageiros. O resultado foi exitoso. Virou case mundial.

Hoje, ao apresentar um dos maiores prejuízos da história da aviação, vira case mundial do colapso financeiro que só lhe dá tranquilidade a curto prazo. Para médio e longo o cenário é crítico.

A situação é realmente grave. Se o barril de petróleo estivesse a 100 dólares o colapso seria absoluto. Se reeditarmos os pregos usados para crucificar os gestores da VASP, TRANSBRASIL e, especialmente, da VARIG, podemos dizer que é um problema de má gestão. De gestores incompetentes e de acionistas descuidados. Mas será isso? Será essa a sina das empresas aéreas brasileiras? Estar nas mãos de incompetentes?

Com uma análise mais fria e com lupa, chegamos a concluir exatamente o contrário. O Brasil possui excelência na gestão de empresas aéreas, com executivos capazes de manter as companhias voando e com elevados índices de segurança, apesar do cenário hostil que enfrentamos. A turma da VARIG conseguiu isso no passado até a invenção “dos notáveis” que enterraram a empresa.

A GOL é hoje uma empresa fundamental para o modal aéreo do país. A sua delicada situação financeira é um problemão para todos nós e não apenas para os seus acionistas e executivos. Dependemos do transporte aéreo. Todos os PACS da vida foram incapazes de desnvolver o transporte ferroviário e outros modais necessários para um país continental.

A dolarização da aviação é um câncer quando a nossa moeda esfarela e não se tem um read em moeda forte. O quadro fica mais grave quando o mercado encolhe. Mais grave ainda quando o custo tributário e de infraestrutura dispara.

O que temos hoje é um quadro já vivenciado no passado por dezenas de executivos, que foram heróis e acabaram aposentados com o carimbo injusto de incompetentes. Foram heróis. Falta na aviação cabelo branco. Tirar as soluções que foram pensadas no passado e nunca colocadas em prática por grave omissão do poder concedente.

A situação delicada que temos hoje é muito preocupante. Não podemos ser o país, que a cada ciclo de 15 anos devora as suas companhias aéreas. Este é um grande problema para todos nós e terá reflexo sério na nossa balança cambial, nos deslocamentos domésticos e da nossa dependência do modal aéreo.
Título e Texto: Cláudio Magnavita, jornalista especializado em aviação. Publicado no “Jornal de Turismo”, edição nº 765, março de 2016

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