quarta-feira, 4 de maio de 2016

= 12 = O destino dos párias

José Manuel
Corria o ano de 2002, quase no final em que o PT já estava praticamente no poder. O dia em que ocorre a narrativa a seguir pode perfeitamente ter sido, em mais uma data 12, como as que se seguiram.

Dentro do gabinete da presidência da Varig, um homem honrado e ilustre, estava naquele momento, como presidente da empresa, lutando para salvar com todas as suas forças um patrimônio cultural, industrial e tecnológico com quase cem anos e mais de trinta mil seres humanos entre funcionários e dependentes.

Esse homem, era ninguém menos que  Ozires Silva, Coronel e engenheiro aeronáutico da Força Aérea, criador e fundador de uma das mais belas histórias industriais do Brasil, a Embraer.

Contabilizando os minguados trocados, depois de tantos planos econômicos fracassados, três, quatro tipos de sistemas monetários e uma inflação que esfrangalhou as suas entranhas, a Varig vinha se mantendo como uma UTI voadora constante, mas sempre desempenhando o seu papel de levar o nome do país, orgulhosamente verde e amarelo em suas asas, cada vez mais longe.

Foi então que adentrou no gabinete um facínora, com ADN corrupto em suas veias, já conhecido e hoje devidamente trancafiado pela Lava Jato.


O rol de processos desse indivíduo é tão extenso que não cabe aqui neste texto, nem vale a pena relembrar.

Ao tomar conhecimento dessa relação, a conclusão é de que é um super currículo do mal e que o alçava desde seu aprendizado em Cuba, já à época, a tentar subornar a Varig a contribuir para os seus asseclas de partido, com a premissa de que a própria Varig, o valor da sua imagem e o seu fundo de pensão à época, o quarto maior fundo privado brasileiro, seriam o tubo de ensaio para os butins que se sucederiam ao longo de quatorze anos. Os cento e treze bilhões, hoje, contabilizados por CPI, em desvios fraudulentos nos fundos de pensão das estatais, corroboram que o assalto à Varig seria apenas um treino à grande Blitzkrieg, em várias frentes Panzer, bem ao estilo nacional-socialista, em movimentos politicamente rápidos e precisos, dentro desses fundos de pensão.

À infeliz solicitação e, por falta absoluta de recursos, a resposta do Coronel Ozires, só poderia ser a de que não existiam recursos para isso. À saída, e na porta, em tom de escárnio, típico dos gangsters cosa nostra que se acham acima do bem e do mal, ameaçou ao estilo Consigliere típico de seu perfil, dizendo que então, a Varig seria fechada.

Hoje, vivendo à espera de mais condenações, em um cubículo restrito, aguarda neste lar doce lar duas coisas na sequência natural, o resto da sua quadrilha chegar, e a morte, para que entre quatro paredes lhes cantem Mozart em requiem aeternam.

Neste dia então, serão ouvidos por todo o presídio os cantos à capela, de números três e sete:

3. Dia de ira
Dia de ira
Neste dia
Os séculos se desfarão em cinzas
Assim testificam Davi e Sibila
Quanto temor haverá então
Quando o Juiz vier
Para julgar com rigor todas as coisas

7.  Condenados
Condenados malditos
Lançados às chamas devoradoras
Chama-me junto aos benditos
Oro, suplicante e prostrado o coração contrito
Quase em cinzas Tomai conta do meu fim

Jesus menino, ainda em Nazaré, tinha como um de seus passatempos preferidos depois das aulas na sinagoga, brincar na rua com os seus amiguinhos usando parábolas com números.

Mais de dois mil anos são passados e ele continua nos brindando com essas surpresas que normalmente não nos damos conta, mas que certamente deveríamos.

12 de abril de 2006, 10 horas de uma ensolarada manhã, liguei o meu computador como todos os dias, e o que vi na tela naquele momento foi o meu bilhete de passagem, formatado e já por eles executado tendo como destino, o inferno.

Naquele momento, acabava de perder a casa que construía na época, um patrimônio de mais de cinquenta anos de trabalho, a incógnita estonteante de um filho em idade escolar e todas as perdas e humilhações a que que tive de me submeter. Apesar do ocorrido, nossa família não desistiu e fomos à luta com o que nos havia sobrado, tentando um mercado absolutamente desconhecido para nós. Nesse período as minhas únicas armas de indignação foram o verbo e a fome. 

Através destes dois artifícios consegui levar a minha mensagem o mais longe que pude. A mensagem teve sucesso, apesar das sequelas pertinentes ao esforço dispendido, mas o novo negócio não, assim como os mais de cem mil sonhos, alguns seculares, espalhados por este país, derretidos com ódio fervente por esta quadrilha e sua sanha pelo poder, dinheiro alheio e fácil.

Agora, dez anos, três mil e seiscentos dias terríveis de holocausto, aquele menino Jesus volta aos meus sonhos para brincar comigo e me mostrar que as suas parábolas com números não são exatamente uma brincadeira. É mais sério de que podemos pensar. É o eterno e devastador retorno de se brincar com as leis de Deus.

12 de maio de 2016, o mesmo número, apenas trinta dias a mais do que em 2006, será a nossa libertação física e espiritual de um desastre inominável, em que todos sem exceção sabiam o que iria acontecer pois exemplos semelhantes ao longo da história se repetem com a mesma ideologia maligna, mas o povo se esquece de olhar para o céu.

Não escrevo sequer uma vírgula sobre política, porque não escrevo sobre traidores da pátria, que apesar de honrosas exceções, povoam aos milhares este país. Pena, neste momento, que na democracia não exista uma equivalência a uma Corte Marcial, para um julgamento justo e rápido a esses traidores da nação, mas a total reversão de todos os seus bens ao patrimônio público deve ser estritamente observado  e com o máximo rigor a partir deste momento. Ou fazemos história agora, ou não haverá exemplos a mostrar aos nossos filhos, não teremos futuro como Nação.

Continuarei escrevendo sempre sobre a nossa saga, até que a última linha dos processos em andamento, seja sentenciada, sobre o crime perpetrado contra a nossa empresa, até e, principalmente, em homenagem a todos os que tombaram na luta pela sobrevivência de um ideal. 
Título e Texto: José Manuel, ex-tripulante Varig, 4-5-2016

Um comentário:

  1. Caro JM, Vc sempre nos traz à Consciência dos Fatos, e da Realidade.
    Parabéns pelo Relato, ou seja pelo Texto!
    Muito Bom!
    Um Abraço,
    H Volkart

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