domingo, 29 de maio de 2016

Bernkastel-Kues... Por que Kues?

Valdemar Habitzreuter
Estive em Bernkastel-Kues, no Vale do Mosel, na Alemanha. É uma cidadezinha pacata, mas notória pela atração turística e pela produção do delicioso vinho riesling de Bernkastel (outrora servido nos aviões da Varig).

Bernkastel-Kues e o Rio Mosel, Alemanha, foto: Berthold Werner 

É claro que não pude de abster-me de sorver in loco de algumas boas taças desse palatável néctar. No entanto, fiquei intrigado de a cidade ser composta dos dois nomes: Bernkastel e Kues. Em verdade, o Vale do Mosel é serpenteado pelo Rio Mosel dividindo, assim, a cidade ao meio: de um lado fica Bernkastel e do outro fica Kues. Mas achei estranho o nome Kues. Só quando me deparei de uma placa metálica numa parede estampando uma figura humana onde se lia: filósofo e teólogo Nikolaus von Kues que me veio à mente que se trata do eminente Nicolau de Cusa [imagem abaixo], nascido aí em Cusa (Kues) no séc. XV, um filósofo bastante estudado e pesquisado no estudo da Filosofia, principalmente pela sua obra: ‘Da Douta Ignorância’ (De Docta Ignorantia) onde apresenta sua teoria do conhecimento.


Não é intento meu de aqui expor essa teoria, há ótimos artigos, dissertações e teses na internet se alguém tiver interesse em inteirar-se da filosofia e teologia desse filósofo. Mas, em linhas gerais, Nicolau de Cusa faz dessa obra seu método de como devemos proceder para conhecer as coisas, a realidade. Diz ele que o ser humano é avido por conhecimento, ele tende a querer conhecer tudo, a totalidade ou a realidade absoluta. Mas tal intento é impossível, pois tratar-se-ia de percorrer um caminho ad infinitum e isso estaria fora de alcance de nossa mente finita que é apenas afeita a medir e conhecer diversas coisas da realidade em sua finitude, mas nunca chegar ao conhecimento da sua unidade absoluta, infinita. Daí ele dizer que quem admite conhecer a coisa ou a realidade em sua totalidade é ignorante, mais ignorante do aquele que admite que é ignorante ao dizer que não sabe muito desse Universo Infinito.

É a douta ignorância, pois, que deve guiar o homem a desenvolver seu conhecimento em relação à realidade que nos cerca, e paulatinamente avançar em conhecimento e sabedoria. Para Nicolau, percorre-se o caminho do conhecimento adotando três vias à moda do platonismo: começa-se pelos sentidos, daí passa-se para a razão e pode-se alcançar a via intelectiva. Pelos sentidos percebemos as coisas, pela razão formamos juízos das coisas e pelo intelecto, o mais alto grau de conhecimento, para Cusa, adentramos, por um ato de intuição, no labirinto do Absoluto sem saber como, mas temos a certeza de um Absoluto que, para Nicolau de Cusa, é Deus. É pois esta obra, Da Douta Ignorantia, a base de sua teoria filosófica e teológica. Aliás, foi um importante assessor dos papas naquela época...  

Está aí, as viagens sempre nos despertam e nos ensinam algo. Munidos da douta ignorância podemos avançar em conhecimentos e sabedoria...  Também Sócrates, cinco séculos antes de Cristo, já dizia: “só sei que nada sei”...
Título e Texto: Valdemar Habitzreuter, 29-5-2016

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