domingo, 15 de maio de 2016

Camilo e filhas

Alberto Gonçalves

Segunda-feira. A meio do Jornal das 8 da TVI, José Alberto Carvalho anuncia a "peça" (e que peça) seguinte: "Pai das deputadas Joana e Mariana Mortágua mantém a rebeldia e a insatisfação sem meias palavras. É Camilo, o revolucionário."

Começa a coisa. Um velho passeia em São Bento e a voz off explica: "Salazar e Caetano hão-de dar voltas na tumba face às regras da democracia parlamentar que permitem hoje a Camilo Mortágua caminhar livremente pelos Passos Perdidos." Corte para o interior do "hemiciclo", o qual revela que a voz off pertence a um sr. Bandarra, em princípio jornalista. A narração prossegue, por sua vez revelando que o sr. Bandarra pratica um estilo de jornalismo, vá lá, peculiar: "Camilo participou nos mais célebres, arriscados e espectaculares golpes contra o regime fascista [sic]." Intercalada com fotografias de arquivo, a hagiografia continua: "Camilo, aqui atento, crítico e sempre utópico. Mas terá sido para isto que lutou e arriscou a vida?" Ao fundo, ergue-se música épica. Enfim, Camilo fala.

E fala, com "gravitas" de serão teatral, para confessar que, afinal, a democracia parlamentar, cheia de "contradições" e "fingimentos", não é bem o seu género. Se calhar, proibiam-se as bancadas do PSD e do CDS e aquilo ficava composto. O sr. Bandarra não vai por aí: "Camilo não é homem de fingimentos ou meias palavras" (já alguns profissionais da TVI não dispõem de muitas palavras inteiras), pretexto para evocar a história do Santa Maria e o desvio do avião da TAP, ambos "os primeiros desse tipo em todo o mundo." Por acaso é uma cabeluda mentira, mas ao sr. Bandarra interessa menos a realidade do que demonstrar que os Descobrimentos não cessam de correr no sangue lusitano. Desse por onde desse, o "célebre assalto ao Banco de Portugal na Figueira da Foz" não pôde reclamar estatuto de pioneiro. Em compensação, deu origem "à fundação da mítica LUAR". Logo, garante o sr. Bandarra, Camilo é: a) um terrorista; b) um criminoso comum; c) um maluquito. Nada disso: "É um histórico da luta e acção directas." E teve "uma vida cheia". O sr. Bandarra, cujo crânio parece vazio, não questionou os propósitos altruístas do roubo. Ou a legitimidade da "acção revolucionária".

Após lamentar que não se façam filmes "de suspense e aventura" sobre Camilo, "libertário e até romântico", o sr. Bandarra parte para a "peça" em si. O desplante prossegue - informa o visor - por vinte minutos, nenhum desprovido de elogios ejaculatórios do sr. Bandarra, que trata o revolucionário por "tu" e explica que este "sempre insistiu em pensar pela própria cabeça", característica indispensável no marxismo.

Por falta de espaço, e de compreensão dos paginadores do DN para com os grandes heróis do totalitarismo indígena, não posso contar tudo. Limito-me a revelar dois ou três pontos altos. Quando comenta o assassínio de um dos oficiais do navio sequestrado, Camilo limpa as unhas e diz "É a vida." E acrescenta: "Somos todos culpados, incluindo ele." Um tribunal a sério discordaria. Depois, Camilo informa que "a violência não física é por vezes muito mais violenta do que aquela que faz sangrar". O marinheiro abatido também discordaria, mas isso já são manias. Segundo o sr. Bandarra, o Santa Maria foi "uma espectacular operação".

Pelo meio, há uma digressão acerca das populares filhas de Camilo, a quem os pais deram "toda a informação", desde que, evidentemente, "assentassem no caco" certos "princípios". Ou seja, lá em casa discutia-se o espectro ideológico de M a M, ou de Marx a Mao. Uma das meninas, não sei se a que, sem dúvida sob influência parental, publicou a meias com Francisco Louçã um livrinho intitulado Isto É Um Assalto, proferiu umas banalidades alusivas à "consciência política" e "coerência" do paizinho.

Presumo que o sr. Bandarra ainda arranjou lugar para enaltecer as proezas de Camilo posteriores ao 25 de Abril, da ocupação da Torre Bela à condecoração de Jorge Sampaio (a Ordem da Liberdade, naturalmente). Mas o texto vai longo e o meu estômago não permitia mais. A TVI apresentou "Camilo, o Revolucionário" como "uma reportagem que contribui para melhor se compreender a história recente de Portugal". Para melhor se compreender a história recente, recentíssima, de Portugal poderíamos igualmente recorrer aos indicadores económicos, que na última semana mantiveram o trilho do desastre. Ou aos ataques ao carácter dos jornalistas que, de José Rodrigues dos Santos a José Gomes Ferreira, não se curvam devidamente perante os potentados socialistas. Ou à tomada definitiva da educação (força de expressão) por parte do sr. Nogueira e dos comparsas do sr. Nogueira. Ou às ameaças do sr. Nogueira aos "comentadores de direita" que ousam descrever a perigosa nulidade que ele, factualmente, é. Ou ao menosprezo um bocadinho racista pelos "ignorantes" do congresso brasileiro por parte de iluminados que fazem alianças com partidos comunistas ou que integram partidos comunistas. Ou ao riso permanente e desconchavado da criatura que ocupa o cargo de primeiro-ministro.

Escolhi, porque sim, a redentora peça do sr. Bandarra com o romântico Camilo, um momento de pornografia mental que não serve para quase nada, excepto para ilustrar na perfeição o estado a que isto chegou e sobretudo o estado a que, salvo milagre, isto chegará. 
Título e Texto: Alberto Gonçalves, Diário de Notícias, 15-5-2016

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