domingo, 15 de maio de 2016

Come torradas, pá, come torradas. E porta-te bem, para levares um beijinho

Helena Matos 
Esta espécie de revolução a retalho em que os radicais nos mantêm depois de terem desistido de a fazer por grosso, permite-lhes condicionar a sociedade muito para lá do poder que o voto lhes dá.

São as torradeiras! Há que regular as torradeiras. A Europa, a tal que está em deriva populista de direita a norte e radical de esquerda a sul, a Europa da crise das dívidas, do sistema financeiro e dos refugiados, a Europa que chama política de defesa a esperar que os EUA a venham ajudar – acharíamos normal, termos de garantir a segurança da fronteira do México com os EUA? Provavelmente não mas achamos natural que os EUA tratem da defesa das nossas fronteiras no Mediterrâneo ou na Ucrânia – descobriu que há que intervir rapidamente para regular as torradeiras. Nem sei como chegámos ao segundo milénio dC sem esse instrumento vital!

Enfim, não se pode dizer que estejamos mal acompanhados nesta esquizofrenia porque se aos anteriores presidentes dos EUA criticávamos o que faziam ou não faziam no mundo agora temos o ocupante da Casa Branca preocupado em deixar a sua marca não no mundo mas sim na regulação do acesso às casas de banho por parte de alguns transexuais.

Portanto é aqui que estamos: na grande conquista da regulação das torradeiras, no acesso às casas de banho por uma minoria dentro da minoria… Entretanto o mundo, o nosso mundo, perde influência e poder. E quanto mais isso acontece mais nos agarramos ao particular, mais nos prendemos ao detalhe, ao minoritário dentro do minoritário… Todos os dias há uma causa, cada vez mais pequenina e mais específica. Até já vamos nas causas personificadas, como aconteceu em Portugal no caso das barrigas de aluguer em que “Joana que nasceu sem útero” se tornou o rosto a tornar evidente a extrema necessidade desta lei.

De repente não estamos a discutir os problemas legais e morais suscitados por uma lei que vai permitir que após uma gravidez e o parto, uma mulher entregue o seu filho a outra, aquela com quem contratualizou aquela criança, mas sim o caso da Joana – tão feliz que ela está! – mais o da sua irmã que certamente a adora e o namorado a quem, garante o jornalista, nada disto faz impressão. Ninguém de bom tino vai dizer que quer ver a Joana infeliz ou o seu namorado impressionado. Sim, porque questionar quer a necessidade quer a bondade desta lei já não é discutir as barrigas de aluguer mas sim a felicidade da Joana. Amanhã a Joana fica infeliz ou a irmã da Joana zanga-se e lá vamos nós aprovar outra lei à medida!
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Título e Texto: Helena Matos, Observador, 15-5-2016

Leia a íntegra do artigo aqui.

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