terça-feira, 24 de maio de 2016

Rousseau, Pannenberg e a Natureza Humana

Vitor Grando
Jean-Jacques Rousseau nos “ensina”, em seu Discurso Sobre a Desigualdade, que os males da humanidade – guerras, assassinatos, misérias e horrores – têm sua origem não na ação perversa de determinados indivíduos, mas no momento em que um homem finca uma estaca na terra e diz “Isto é meu!”, isto é, a origem dos males encontra-se na instituição da propriedade privada. A natureza humana é essencialmente boa vindo a ser pervertida por estruturas sociais externas, no caso de Rousseau, a propriedade privada. Daí a origem do otimismo antropológico de determinadas correntes políticas, em especial do socialismo. Ora, se a razão das guerras, da fome, da miséria, do racismo, da homofobia, do machismo, da intolerância não se encontra na própria essência do ser humano, tais problemas não serão combatidos na repreensão de atos individuais de maldade, mas precipuamente na luta pela derrocada das estruturas sociais consideradas opressoras e causadoras de nossas mazelas.

O pensamento político conservador tem o pessimismo antropológico como um preceito fundamental, em outras palavras, o ser humano tende sempre ao pior e, por isso, não lhe pode ser dado demasiado poder. A doutrina cristã do Pecado Original é sustentáculo dessa posição antropológica, que, como dizia Cherterton, é a única doutrina cristã empiricamente verificável. Olhe pela janela e verás que o homem é mau. Possivelmente seja justamente essa doutrina que impediu que ao longo de sua história o cristianismo se tornasse fundamento de qualquer movimento revolucionário e totalitário. Antes, sua característica essencial é antitotalitária e contrarrevolucionária. Ao contrário do Islã e do socialismo, que carecem de uma antropologia pessimista e, por isso mesmo, colocam demasiada fé na capacidade redentora da própria humanidade.

Talvez não haja doutrina cristã que, para as sensibilidades seculares, soe mais antiquada do que a ideia de que um pecado de um primeiro homem tenha, de algum modo, sido transferido aos seus descendentes como um vírus pernicioso pervertendo as suas volições. O enfraquecimento da ideia de Pecado Original transmutando-se numa compreensão de pecado estritamente individual, uma ênfase da teologia liberal, dá ensejo a essa compreensão rousseauniana da natureza humana. Wolfhart Pannenberg, o grande teólogo protestante, descreve a transformação da ideia de pecado original em pecado individual e as consequências sociais de se abolir a ideia de uma natureza humana corrompida em sua essência. Ele diz:

“Por mais que o ser humano seja atingido pela realidade do mal, é característico, no entanto, que, em geral, a responsabilidade pelo mal é atribuída a outros, a outros mais ou menos definidos, de preferência a estruturas e pressões anônimas do sistema social”

Ora, isso nos deveria ser evidente. A partir do momento em que se abre mão da ideia de que o problema do mal tem sua origem no coração do homem individual, passa-se a buscar a explicação do mal não nele mas em circunstâncias sociais contingentes. O mal, portanto, não está em mim. O mal está lá fora. A responsabilidade pessoal é mandada às favas. Eu não sou responsável pelo mal que faço, mas alguma estrutura social que é.

Essa ideia rousseauniana, como Pannenberg [foto] bem explica, leva inevitavelmente a manifestações de violência em nome da derrubada dessas estruturas supostamente responsáveis por toda e qualquer desgraça presente neste mundo. Ora, se há guerra e o homem é essencialmente bom, alguma estrutura social torna-se a causa primária da guerra e, com razão, fundamenta uma manifestação de revolta contra tal estrutura e aqueles que a representam. Se um homossexual é agredido, o problema não pode estar naquele indivíduo agressor, já que suas ações são fruto de alguma estrutura social que o torna num agressor. Como qualquer pessoa sensata com um mínimo senso de justiça acredita, o crime tem de ser punido, mas se a manifestação criminosa não tem como causa primária o indivíduo, onde ela está? No caso, sobra para todos aqueles que não reconhecem determinada estrutura, a Igreja no caso, como a origem do mal. O resultado é a manifestação violenta contra essa estrutura e seus adeptos. Ou seja, aquele indivíduo que agride o homossexual é isento da responsabilidade sobre seus atos e essa responsabilidade é transferida àqueles que sustentam o que é entendido como a origem desse mal. Ou se algum homem é autoritário e violento com sua esposa, seu ato individual é o que menos importa. Na verdade, em vez de repreender o indivíduo, seu ato criminoso passa a ser apenas um meio ao combate daqueles que defendem que o gênero masculino e feminino são fundamentalmente diferentes e, mais uma vez, nós nos tornamos os “verdadeiros” responsáveis pela subjugação da mulher.

Além desse resultado inevitavelmente violento de uma antropologia otimista – como bem prova o século XX – essa antropologia também resulta em moralismo farisaico. No caso, um farisaísmo secular. Porque, mais uma vez Pannenberg: “a generalidade do pecado proíbe o moralismo que retira toda solidariedade com aqueles que se tornaram instrumentos do poder destruidor do mal”.

Ou seja, longe de ser fruto de neuroses e mazelas psicológica, a tradicional teologia cristã fornece o único fundamento razoável para a empatia, já que o mal é geral. Se ele está em ato em você, em mim se encontra no mínimo potencialmente. Portanto, aqueles que nos assustam como barbaramente cruéis são o nosso espelho potencial. Não julguemos, pois. A doutrina do pecado original é, portanto, fundamentalmente antimoralista e antifarisaica. Já uma doutrina antropológica otimista resulta no fenômeno do farisaísmo secular por meio do qual determinados indivíduos se veem mais virtuosos por aderirem a determinada ideia e enxergarem o mal numa determinada estrutura social e, como resultado disso, surge a condenação hipócrita daqueles que não enxergam a coisa com os mesmos olhos. Assim, não importam suas virtudes pessoais, se você não enxerga a origem da miséria no sistema capitalista, das mazelas femininas numa suposta sociedade patriarcal, da homofobia no discurso moral religioso, e assim por diante, o fariseu bate no peito e agradece a Deus por não ser como você, esse ser desprezível que não ama o desfavorecido.

Em suma, com base nessa ideia rousseauniana, tudo aquilo que há de mal no mundo ocidental tem de ter origem nas superestruturas tradicionais desse mundo ocidental: a família, a Igreja, o Estado, a Lei, a razão e qualquer instituição tipicamente ocidental. Não é por uma mera contingência que os regimes socialistas deixaram um mar de cadáveres por onde passaram. É, antes, uma implicação necessária de uma concepção irrealista e fraudulenta da Natureza Humana. Por isso, que tais perspectivas são inerentemente violentas. Mas, lembre-se, tudo em nome da liberdade, igualdade e fraternidade. “Obrigado, Senhor”, eles dizem, “por eu não ser como esses pecadores”.
Título e Texto: Vitor Grando, 23-5-2016

Referências:
PANNENBERG, W. Teologia Sistemática Vol. 2. São Paulo: Ed. Acad. Cristã, Paulus, 2009, p. 335-345. 
ROUSSEAU, J.J. Discursos Sobre a Desigualdade. In: MARCONDES, Danilo. Textos Básicos de Filosofia. Rio de Janeiro: Zahar, 2007

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