quinta-feira, 2 de junho de 2016

A condescendência

Maria João Avillez

De onde virá este “estado de condescendência” num país de língua afiada, desconfiança militante, culto da maledicência? E as elites, que dizer da sua amabilidade com as misérias do “tempo novo”?

1. Deve haver poucas coisas tão inoxidáveis quanto observar os comportamentos das pessoas lendo a história escrita diariamente pela natureza humana. Nunca ou quase nunca se repararem bem, a natureza humana nos esmorece ou amolece quando nos confronta com o que ela própria é capaz de “produzir”, do bom ao mau, do prosaico ao prodigioso. Já se sabe? Não, justamente nunca se sabe o suficiente. Eu por exemplo não sabia que a minha capacidade de pasmo pudesse ser assim tão posta à prova. E não, nem sequer me foi preciso uma janela indiscreta para observar — e pasmar. Bastou-me simplesmente pousar o olhar sobre o grande fresco comportamental do “tempo novo” e depois deixá-lo pousado nesse mural que era suposto transmitir-nos viço e força (e quem sabe, até virtude) mas não. Transmite antes uma admirável leveza: como tudo mudou tão subitamente da manhã para a tarde com amável bonomia; como actuações, decisões, medidas governamentais, algumas de puro assombro, se somam e multiplicam agora sob uma espécie de mudo comprazimento; como o punhal afiado de ontem se travestiu na condescendência gelatinosa de hoje (mas os encarregados do “tempo novo” não se importam, é dela que se alimentam, tenha a consistência que tiver.)

Há uma quantidade muitíssimo considerável de gente que condescendentemente se dispôs a acreditar no país das maravilhas, acreditando até ser parte das maravilhas e vir a beneficiar delas; há mel que subitamente passou a escorrer das páginas e microfones de quase todos os jornais e jornalistas ou das palavras escolhidas de inúmeros comentadores e editorialistas que nos convencem do contrário do que vimos ou sabemos; há um mar de gente que parece acordar e adormecer protegida pela camada protectora da tal condescendência (ou deveria dizer indiferença?) que tudo acolhe e tudo engole. Sem estranheza que se note, ou estados de alma que se registem.

Um desafio e peras para uma observadora, e ando nisto há meses.

2. Desafio e mistério: de onde virá – e daí o interesse do exercício – este “estado” num país de falsos brandos costumes, língua afiada, desconfiança militante, culto da maledicência? Com que ingredientes se fabricará esta qualidade de condescendência que quase se transformou numa forma de vida, ou até como justificar a amenidade do clima que envolve a CIP e outras cipes? E as elites e os que pensam, e os que decidem, que dizer da sua (aparente) amabilidade com as misérias do “tempo novo”?

Tornar-se-ia entediante enumerar exemplos e já aqui falei de alguns há dias. Basta apenas evocar um quotidiano ficccional feito de contas erradas vendidas como “controladas”; ameaças reais de desastre económico logo redimidas pelo fantasioso “novo diálogo com a Europa” do qual o país sairá supostamente vencedor mas só supostamente; a imperdoável venda da ilusão de que o “consumo” faria disparar o “crescimento” (temo que os números que aí vêm, alusivos à receita, estilhacem de vez a ilusão); a decisão (oh quão datada) da introdução das “35 horas” já em desuso em toda a parte após as fissuras abertas nos tecidos económicos onde vigoraram com alta infelicidade; uma “Educação” a desfazer-se, alunos aflitos, pais desnorteados e apenas sindicalistas felizes e não me refiro agora de todo ao caso dos contratos de associação, mas àquilo que já não tem remédio: as alterações de fundo e substância ocorridas com o ano lectivo em curso, revogações, substituições, alterações, num galope descoordenado de mudanças contra o que estava, porque o que estava perdeu o direito de cidade.

Há parentescos familiares no governo para dar e vender, há amigos íntimos com responsabilidades de negociação reservadas apenas aos bastidores, há comportamento de “donos” em vez de atitudes de servidores públicos mas quem se incomoda por aí além com estas, como dizer? novidades? Os dias da ira deram lugar à terra prometida onde já não cabem “generalizados” protestos, ecrãs televisivos entupidos de indignação, “repúdio” de leis e medidas. É vida. A do tempo novo. Mas lá que espanta esta disponibilidade silenciosa para concordar, não fazer ondas, deixar-se ir em enganadores cantos de sereia, espanta sim. Salvo alguns reparos e modestas críticas, a palavra de ordem é condescendência, respeitemo-la. (Aliás se ela não se tivesse transformado numa prática, o mórbido e lesivo acordo com os estivadores teria alguma vez sido assinado? Sabemos que não teria.)

O chefe do Governo acena com vacas que voam e oferece uma delas a uma senhora? Que ideia tão engraçada, original, inesperada, e nem quero pensar em Durão Barroso, Cavaco, Santana, Passos fazendo o mesmo com tão sedutora segurança quanto à graciosidade do gesto e à oportunidade da ideia.

O Chefe de Estado atribui (como nos iogurtes) prazo de consumo ao governo, marca horário para crise e… quê? Um laivo de estranheza, quando muito, face à manifesta infelicidade política do gesto mas, sejamos condescendentes, estas coisas acontecem, “foi o comentador que pregou uma partida ao Presidente” (ouvi eu, desgraçadamente).

Mas que importância, o tempo novo é mais “divertido” e tudo menos não haver show, nem espectadores, nem episódios diários, nem frases-comentário, nem cobertura televisiva assegurada por essa esvoaçante revoada de repórteres que parecem sempre estar com febre tal o altíssimo grau de desvelo com que oficiam. Não se sabendo aliás quem mais contribui para o retrato deste singular estado de coisas, se os enlevados repórteres, se o causador de tão entusiasmada militância e refiro-me obviamente ao retrato que daqui resulta para um país que caiu em “instalação”. Uns chamam-lhe “estabilidade” e outros “consenso” e também não se sabe qual dessas expressões será, no caso, mais estéril ou mais falsa.

Convenhamos que o espectáculo da nossa política hoje — na invejável leveza com que é interpretada no palco e na não menos invejável condescendência com que é visto da plateia – dá que pensar. Exige treino e paciência, não se muda assim de cânones e costumes num ápice, há que reaprender a viver (a nova vida).

3. Claro que a forma mais cómoda, mais à mão, de “ler” o que acima expus é remeter de imediato para o pessoal, fulanizar, evocar “sentimentos”, falar em “antagonismos” pessoais. Antes fossem, arrumavam-se desconfianças e discordâncias na prateleira das relações humanas. Menos sentimentalmente, aflijo-me com a navegação: nem as rotas já percorridas parecem as mais indicadas para a nossa geografia, nem os rombos entretanto provocados deixarão o navio inteiro.

Dir-se-á que sou (muito) minoritária. Paciência, nunca será isso que me fará fingir que acredito na qualidade dos marinheiros.
Título e Texto: Maria João Avillez, Observador, 31-5-2016

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