quinta-feira, 2 de junho de 2016

Acreditar no que se quer

Paulo Tunhas
Passos Coelho é mais compatível com a nossa forma de vida democrática do que António Costa. Entre outras coisas, é dotado de uma característica simpática: não acredita que as vacas voem

Dou o meu próprio exemplo, meio envergonhado, apenas porque não me devo, nestas matérias, distinguir praticamente em nada da maior parte das pessoas. Falta-me completamente o interesse e a imaginação para adivinhar “jogadas” e “contra-jogadas” dos políticos. Não tenho ao meu dispor nenhuma teoria da sociedade que julgue resolver de uma penada o grosso dos nossos problemas e que me sinta obrigado a contrapor, com provas definitivas, às dos outros. Não tenho, como alguns poucos efectivamente têm, uma “visão de Portugal”. Nem sequer a filosofia política é a minha área de interesse principal em filosofia, e menos ainda ambiciono (ou tenho predicados para) pertencer à Igreja Universal da Politologia.

Estas múltiplas incompetências, chamemos-lhes assim, não me impedem, e isso também o partilho com a maior parte das pessoas, de ter uma ideia ou outra no que se refere às coisas políticas e de elas, quanto mais não seja à força e governado por uma preocupação de legítima defesa, me interessarem. Isso, pelo menos, em dois planos. Em primeiro lugar, no plano muito geral que respeita ao tipo de sociedade em que gostaria de viver. Em segundo lugar, no plano, mais restrito e sempre pontual, do que parece certo e errado como meio para que essa sociedade, que, pelo menos aproximadamente, é a nossa, não piore e, se possível, melhore. Claro que os dois planos comunicam entre si, não são estanques. Mas não é artificial distingui-los. Até porque as nossas crenças têm características distintas num plano e noutro.

Senão, vejamos. No que respeita às nossas crenças relativas ao tipo de sociedade em que desejaríamos viver, não há maneira de distinguir verdade e erro. Pode-se crer no que se quiser. Não só não há, em termos absolutos e universais, provas indisputáveis e no sentido estrito a favor ou contra qualquer tipo de sociedade, como a história e a etnologia nos mostram (e isso, por acaso, a história e a etnologia mostram-nos mesmo) a extensíssima variedade das formas que os seres humanos criaram para viverem em conjunto. Dizer que não há provas não nos obriga de forma alguma ao relativismo ou a uma situação de indiferença. É perfeitamente legítimo, é claro, ser-se comunista, liberal, social-democrata, ou o que se quiser, e argumentar por uma posição contra as outras. E mesmo que um muito bom argumento não seja nunca uma prova, ele pode ter um peso que os outros não têm, e, quando há possibilidade de comunicação e discussão, pode ajudar a inclinar alguém mais para um tipo de sociedade do que para outra.

O que é central aqui é, como disse, que não há verdade nem erro. O comunismo, o liberalismo e a social-democracia (falo dos produtos mais comuns à venda nas nossas sociedades) não constituem doutrinas verdadeiras ou falsas. Pessoalmente, prefiro viver numa sociedade onde a liberdade seja a maior possível, tanto no plano do comportamento individual como no plano económico, onde as mulheres tenham uma situação de igualdade por relação aos homens, onde se desenvolvam, de uma forma ou outra, mecanismos para a protecção dos mais desfavorecidos e onde as várias concepções de justiça em conflito encontrem modos de dialogarem entre si. Mas não vejo maneira alguma de provar (repito: provar) que deva ser assim. Não passa, de resto, um dia em que não tenha notícia, directa ou indirecta, de opiniões que militam contra um ou outro destes desejos e até contra todos juntos. Verdade minha, erro e irracionalidade dos outros? A questão não se pode, pura e simplesmente, colocar assim.

Se passarmos agora para outro plano, mais restrito, o do acerto dos meios para obtermos certos fins postos em comum, a paisagem muda substancialmente. A questão da verdade e do erro passa a fazer, à sua maneira, sentido. Tomemos o caso português. O PS, o PSD e o CDS partilham realmente (no caso do PS, com eventuais excepções – nos outros casos, se calhar, também, embora de forma menos notória) muitas posições comuns, com as quais a maioria das pessoas, na qual me incluo, se identifica. Bloco e PCP partilham-nas, quando as partilham, mais nominalmente do que realmente. A questão, excluindo o problema das clientelas políticas e outras coisas assim, está apenas nos melhores meios para atingir esses fins: liberdade, etc. E a escolha deve-se fazer entre os meios mais convenientes para atingir os fins em questão, com a devida atenção às circunstâncias e às possibilidades que se encontram abertas.

E aqui entra a celebrada vaca alada que António Costa jurou ser possível e que decidiu triunfalmente incorporar no bestiário histórico do Partido Socialista e no seu circo particular. Confesso que, como muita gente, fiquei perplexo com a facilidade ontológica de António Costa na criação de novos seres mitológicos. O que quereria ele mostrar? Quereria, banalmente, provar que tem graça? Quereria dizer-nos que a muito falada “vontade política” (um conceito um bocadinho oco, diga-se de passagem) nos pode conduzir a algo milagroso? Quereria mostrar que um desejo de sociedade socialista (um projecto de sociedade socialista) possui uma necessidade intrínseca capaz de vergar a realidade empírica?

Em qualquer dos casos (a vontade de ter graça, vá lá, é só triste), a coisa tem mesmo significado. Podemos perfeitamente, em matéria de projectos políticos, desejar certos fins para a sociedade. Não há provas que nos possam desmentir. Mas, no que respeita à obtenção de resultados no interior de um horizonte político comum, não convém imaginar que as vacas possam voar. A catástrofe é garantida. E ouvem-se já várias indicações nesse sentido. Muito provavelmente, além de um certo oportunismo e irresponsabilidade, a tese metafísica sobre a existência das vacas voadoras consagra apenas uma velha característica anti-democrática de uma boa parte do pensamento socialista, que consiste exactamente em desejar impor ao nosso horizonte político partilhado algo que nele não se encontra e que releva de um plano em que o acerto e o falhanço, a verdade e o erro, não têm de ser tidos em conta. Do plano da pura ideologia, pode-se talvez dizer, embora não acredite que o nome elucide perfeitamente a coisa.

A conclusão é relativamente simples. Por muito difícil de engolir que isso seja para muita gente, a direita realmente existente, por ser menos tentada pela importação de crenças por definição irrefutáveis para o plano da acção política, é mais democrática, mais respeitadora de uma visão alargada do nosso horizonte comum de reflexão política, do que a esquerda realmente existente. E é mais capaz de levar a cabo o que é necessário para que a sociedade melhore, e isso mesmo no que respeita à própria concepção de justiça que a esquerda gosta de considerar como bandeira particularmente sua.

Se se quiser, para pôr nomes numa realidade muito palpável, Passos Coelho é mais compatível com a nossa forma de vida democrática do que António Costa. Entre outras coisas, é dotado de uma característica simpática: não acredita que as vacas voem. Não acredita no que lhe apetece crer, sem mais. António Costa, sim. António Costa tem o assentimento fácil dos entusiastas delirantes. Por oportunismo e bruta vontade de poder? É verosímil. Mas aqui a questão deixa de ser interessante e de nos dizer respeito. Porque é que decidiu lixar-nos a vida e acreditar que as vacas voam é lá com ele. O importante é percebermos que se trata mesmo de um padrão de comportamento político que só nos pode fazer mal. Faz mal ser governado por quem decide acreditar, sem inquérito, naquilo que deseja, pela simples razão que o deseja.
Título e Texto: Paulo Tunhas, Observador, 2-6-2016

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