quinta-feira, 9 de junho de 2016

País com rumo

Alberto Gonçalves

Lembram-se de quando uma criancinha enfiou 'espontaneamente' um cravo vermelho numa G3? Há quem se lembre, e por estes dias tenha recuperado a bonita imagem, velha de quarenta e tal anos, para o Facebook. De facto, espetar produtos de floricultura em armas de fogo era uma actividade a que as crianças do meu tempo se dedicavam imenso (eu próprio recheei algumas bazucas com buquês de gardénias).

Esse gesto simples e terno definiu uma época, e desde então a consciência cívica dos petizes passou a ser altamente valorizada. Pode levar-se os filhos a marchas avessas à "austeridade", vigílias contra a "ditadura" de Bruxelas, protestos dos estivadores ou dos revisores da CP e sobretudo arruaças em prol da escola pública. O que não se pode é levar os filhos, ainda que três vezes mais crescidos do que o mocinho do cravo, para defender alternativas à miséria da escola pública, conforme aconteceu no domingo.

Para falar com franqueza, o critério não é exactamente esse. O critério é este: os menores, mesmo que de colo, são espontâneos e desejáveis em qualquer ajuntamento destinado a reclamar dinheiro alheio e, desculpem a redundância, aprovado pelo Comité Central do PCP. Nos ajuntamentos restantes, a exemplo do acima citado, a presença de menores resulta obviamente de manipulação, coacção, talvez até tortura. Sem ameaças, nenhum menino ou menina sairia à rua para exigir liberdade de escolha e, de caminho, ajudar o contribuinte a poupar uns trocos. É evidente que há aqui conspiração do capital.

Não vão por mim. Vão pela multidão de comentadores isentos que denunciou tamanha infâmia, além de diversas infâmias adicionais. A acreditar no que li e ouvi, a manifestação dos colégios com "contratos de associação" junto ao parlamento constituiu um momento particularmente repelente da nossa história. Aquilo era uma desavergonhada exploração de catraios (por oposição ao adorável catraio de "Abril"). Aquilo era uma data de "betinhos" inimigos do bem-comum (por oposição aos heróis que vivem à custa dele). Aquilo era um bando de lacaios da iniciativa privada (por oposição aos valentes serviçais da CGTP). Aquilo era um séquito de adoradores do lucro (por oposição aos fiéis do prejuízo). Aquilo tem de acabar.

No que depender dos poderes em vigor, aquilo vai acabar. Isto da cidadania só é muito lindo com regras. Se, ao contrário da maioria esclarecida e dependente do Estado, uma parte da população não acata os translúcidos benefícios do colectivismo, os aeroportos estão abertos e, para os renitentes, as cadeias também. Do alto da sua bondade e domínio da língua, o dr. Costa e o Presidente Marcelo fartam-se de apelar à "descrispação" da sociedade.

Porém, não existe entendimento possível com neoliberais/fascistas, toldados pelo ódio e pela crença absurda de que um governo subordinado a estalinistas terminará em desastre. Se a situação o exigir, parte-se os dentes à reacção, como sugeria o camarada Álvaro. Ou põe-se os patrões na ordem, como sugere a camarada Catarina. Ou, no caso em questão, fecham-se os colégios e pronto, como adverte um blogue patrioticamente amigo do PS.

O essencial é manter o rumo do socialismo, custe o que custar. Os reaccionários sabem que custará demasiado, mas felizmente não contam. 
Título e Texto: Alberto Gonçalves, Sábado, 7-6-2016

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