domingo, 12 de junho de 2016

Sobre a hipocrisia

Luís Naves
O tom dos jornais mudou, já não encontramos reportagens sobre desgraças, não lemos prosas repletas de queixumes, as pessoas deixaram de se atirar da janela por causa da crise e todos os indicadores de felicidade melhoraram. Está a ser introduzido um novo vocabulário: restrições em vez de austeridade, retoma em vez de abrandamento, esperança em vez de dificuldades, optimismo em vez de calamidade. A palavra crise foi suprimida, certamente devido à melhoria da situação geral do país, mas parece evidente que os mesmos comentadores que diziam cobras e lagartos do anterior governo estão agora entusiasmados com o actual, desculpando medidas que seriam execradas na conjuntura anterior. Imagine-se o clamor se o fim dos contratos de associação dos colégios fosse decidido pelo anterior governo ou o aumento de capital da CGD acompanhado de aumento de salários dos respectivos gestores. Haveria indignação e rasgar de vestes. O que se viu, afinal, foi diferente: no primeiro caso, uma oportuna operação de propaganda conseguiu virar o bico ao prego e convencer parte do País de que a escola pública estava a ser atacada; no segundo caso, houve um bocejo seguido de encolher de ombros.

Os meios de comunicação escondem a cabeça na areia e perdem leitores, o que significa que perderam credibilidade. Apesar de tudo, há vozes lúcidas: neste artigo, Paulo Ferreira fala em “pornografia política”, e este texto de César das Neves deixa qualquer cidadão preocupado. Uma parte do país regressou ao estado de negação que nos conduziu à bancarrota anterior e isso só pode ter custos elevados para a sociedade portuguesa. O que mais incomoda, nesta cegueira, é o desaparecimento súbito da legião de desempregados, sobretudo os de longa duração, que já não preocupam a elite hipócrita que nos conduz.

E concordo com este texto de Carlos Guimarães Pinto, em Blasfémias. Totalmente no alvo. Se houver Brexit, acabam as conversas sobre a suavização dos tratados existentes, nomeadamente nas regras do Tratado Orçamental, acabam as ilusões de aprovar moções parlamentares inúteis, a criticar medidas previstas nos mesmos textos que os críticos ratificaram.
Título e Texto: Luís Naves, Fragmentário, 11-6-2016

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