terça-feira, 19 de julho de 2016

A política envenena o desporto

José Milhazes
Na Rússia os resultados desportivos, tal como na União Soviética ou na Alemanha Nazi, são utilizados para mostrar a força do regime. Foi por isso que Moscovo quis organizar os Jogos Olímpicos de Sochi

O Presidente russo Vladimir Putin tem toda a razão quando afirma que “a ingerência da política no desporto é uma reminiscência perigosa”, mas talvez se tenha esquecido de acrescentar que nem todos os meios são aceitáveis para conseguir vitórias desportivas.

O regime cada vez mais autoritário e autocrático do Presidente tem recuperado ideologicamente páginas da História da Rússia para justificar essa política, ao ponto de Valentin Zorkin, presidente do Tribunal Constitucional da Rússia, ter vindo defender a servidão da gleba, abolida na Europa na Idade Média e na Rússia em 1861. Segundo este juiz, uma das causas fulcrais das revoluções do século XX foi a abolição da servidão da gleba, porque esta era “a principal cola que mantinha a unidade da nação”.

Na Rússia, os resultados desportivos, tal como na União Soviética, ou na Alemanha Nazi, ou em outros regimes autoritários, são utilizados para mostrar a força do regime. Foi por esta razão que Moscovo chamou a si a organização dos Jogos Olímpicos de Inverno em Sochi e do Campeonato do Mundo de Futebol de 2018. A mesma razão leva o poder a obrigar os desportistas a fazer possíveis e impossíveis em nome do “patriotismo”, nomeadamente recorrendo a substâncias proibidas.

Trata-se do primeiro caso em que dezenas de desportistas foram apanhados nas malhas da Agência Mundial Anti-doping (WADA), mas a reacção das autoridades russas não brilhou pela novidade, bem pelo contrário.

No campo da política interna e externa, a propaganda russa não se cansa de atirar para cima dos outros (Obama, Merkel, Porochenko, etc.) as causas de todos os males do país. E esta agressividade desinformativa aumenta à medida que os problemas internos e externos da Rússia se agudizam. Isto não faz lembrar a propaganda soviética (transmitida nomeadamente pelo Partido Comunista Português no nosso país) de que as dificuldades se deviam à Segunda Guerra Mundial (isto quando ela já tinha terminado há 30 ou 40 anos), ou à política do imperialismo norte-americana, ou até à necessidade de a URSS ter de ajudar os seus amigos e aliados (internacionalismo proletário)?

No campo desportivo, a reacção mais “ritual” veio de Putin, que afastou alguns importantes funcionários ligados ao controlo anti-doping e prometeu tomar todas as medidas para que sejam observadas as leis internas e externas. No entanto, sublinhou que as acusações se baseiam em revelações de Gregori Rodtschenkov, antigo funcionário do serviço de combate anti-doping que se viu obrigado a fugir da Rússia, ou seja, de um “homem de pouca confiança” ou de um “traidor”.

Antigos campeões olímpicos russos falam em “paranoia” e “demonização” da Rússia, não obstante as provas apresentadas pelo WADA.

Ainda mais enfureceu as autoridades russas a ligação do doping ao FSB, antigo KGB soviético. Aeksandr Karelin, antigo campeão olímpico e deputado do Parlamento, considerou isso “uma estupidez”, frisando: “E ainda envolveram o FSB. Claro que toda a vida demonizaram o nosso país no complexo período post-soviético e existem estereótipos soviéticos de que o KGB controla tudo”.

Ora aqui Karelin esqueceu-se de recordar que existem documentos e testemunhos que mostram que antigos países socialistas faziam exactamente isso. O caso mais flagrante é a República Democrática Alemã, conhecida pelos seus laboratórios secretos no campo do fabrico de substâncias dopantes não detectáveis. Além disso, o KGB soviético produzia veneno para aniquilar os seus adversários políticos e também possuía laboratórios desportivos secretos. No caso do veneno, o segredo veio ao de cima com o assassinato de Aleksandr Litvinenko em Londres. No caso do doping, o WADA conseguiu apanhar os atletas russos com, como se costuma dizer, “as mãos na massa”.

A não participação das equipas russas em competições internacionais, nomeadamente nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, irão certamente empobrecer fortemente o espectáculo e o nível de competição. É pena, mas é preciso limpar o desporto do doping.

P.S. O problema do doping no desporto é muito mais amplo e certamente que os russos não são os únicos a doparem-se, daí ser necessário alargar e aperfeiçoar o combate à praga que destrói o desporto. 
Título e Texto: José Milhazes, Observador, 19-7-2016

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