quinta-feira, 14 de julho de 2016

As lições de Ronaldo e da seleção aos meus filhos

Maria João Marques

Gosto que os meus filhos, os dois rapazes, cresçam tendo visto as lágrimas de Ronaldo e sabendo que até perante milhões se pode mostrar as emoções, daquelas poderosas que nos põem a chorar.


Este ano tinha planeado não deixar que o Europeu de futebol me solicitasse a atenção. Mas ter um filho de seis anos – com quem necessito de ter conversas frequentes a explicar por que não pode ir vestido com o equipamento do Sporting para todo o lado, desde a escola até aos jantares de Natal – cuja felicidade variava com os sucessos ou os empates da seleção, obrigou-me a permanecer por períodos de noventa a cento e vinte minutos a ver jogadores (os portugueses) cujo nome, para a grande maioria, nunca tinha ouvido. E, em boa verdade, vi lá comportamentos, sobretudo de Ronaldo, que são boas lições para os meus petizes.

A primeira: as lágrimas do último jogo. Uma das grandes conquistas civilizacionais da segunda metade do século XX, ao lado da emancipação feminina e sexual, foi a libertação emocional dos homens. Até então esperava-se que fossem autómatos controlados, até podiam ser excêntricos mas nunca emocionais, afeição só se mostrava (como uma personagem aristocrata explicava num filme inglês há uns anos) aos cães e aos cavalos, as relações pessoais próximas (com a mulher e os filhos) eram de autoridade mais que de amor. Desde então, o ar do tempo deu-lhes permissão para expressões públicas de afeto às suas apaixonadas e para apreciarem os laços com os filhos que só se formam com o contacto de pele na mudança das fraldas, nos banhos e no colo das noites em privação de sono.

Claro que a fleuma masculina era mais propagandística que real. Churchill não tinha pejo em chorar quando visitava as casas destruídas pelas bombas alemãs no East End de Londres e era recebido pelo desamparo dos seus antigos habitantes. E nas guerras do século XIX já há abundantes relatos de condições psicológicas dos combatentes com sintomas semelhantes à perturbação de stress pós-traumático. Os russos na Crimeia tiveram milhares de doentes psiquiátricos e na guerra civil americana a condição era tão comum que até teve direito a nome: soldier’s heart. A imperturbabilidade perante a morte (própria e alheia) tinha a teimosia de não corresponder às descrições de Dumas.

Viajemos para 2016. Numa final de um campeonato europeu, à vista de milhões de curiosos, Ronaldo teve a liberdade (sim, é de liberdade que se trata) de chorar (primeiro) de frustração, dor, desconsolo, raiva, tristeza, um sonho que se podia ter esfumado; e (depois) de alegria, superação, orgulho, assombro por incrivelmente e inesperadamente acontecer aquilo que sempre se tinha acreditado que aconteceria.

Gosto que os meus filhos, os dois rapazes, cresçam tendo visto as lágrimas de Ronaldo e sabendo que até perante milhões se pode mostrar as emoções, daquelas poderosas que nos põem a chorar. E que estas emoções fortes e lágrimas – e a exibição das duas – só apequenam os homens fracos.

A segunda: o ‘que se f@#$’. Tirando o vernáculo, é mesmo este o espírito que quero ver exibido perante os meus filhos. Ao contrário do hino por estes dias tão cantado, estamos longes de ser valentes. Somos temerosos. Odiamos correr riscos porque não conseguimos lidar com um possível fracasso – como se fracassar não fosse a sina de todos nós várias vezes na vida. Um líder político que perca eleições ou um treinador que não ganhe campeonatos tem de ser corrido na hora. Deleitamo-nos com estatísticas que mostram que as novas empresas falham em números expressivos – à laia de aviso ‘ninguém de juízo se mete nessa aventura estranha de criar um negócio’. Até parece que os empresários de sucesso, sem exceção, não tiveram projetos em que só perderam dinheiro e ganharam traquejo. Temos até vários partidos políticos – os da geringonça – que veem como ofensiva a promoção do empreendedorismo.

Pelo que o espírito ‘que se f%0&’ faz muita falta. Vamos à luta, arriscamos e, se correr mal, paciência, que se… As cassandras que se calem, as carpideiras que parem de treinar para a catástrofe que se avizinha, que pior que cairmos picadinhos no chão é ficarmos na zona de segurança, na mediocridade calculada, perto das saias da mãe (em se tratando dos meus filhos, claro que estou disponível para abrir uma brecha nesta teoria) e da boia de salvação.

A terceira lição é de Ronaldo, com a sua transfiguração em treinador de joelho ligado, mas também do resto da equipa. Com a velhacaria de Payet, algo verdadeiramente assombroso sucedeu: a seleção não começou a jogar com o lema ‘pronto, agora já temos desculpa para podermos perder, que alívio’. E isto, há que reconhecer, quebrou uma vetusta instituição nacional que é a culpa alheia. Quantas vezes não tínhamos já visto seleções cheias de divas que, de cada vez que a situação se tornava um bocadinho menos que a ideal – o mauzão do árbitro roubou-nos, a equipa adversária só dá cacetada, o que seja –, amuavam, perdiam o norte e pareciam baratas tontas? E no fim do jogo, claro, o rol de queixumes era quilométrico. Também na política somos mestres do falhanço por culpa alheia. A bancarrota Sócrates é filha exclusiva da crise de 2008, claro, nada do desvario dos gastos públicos socráticos, também estes, de resto, feitos a contragosto a mando da Comissão Europeia. E é ver o PS a salivar por um Brexit sangrento, ou por sanções da EU, para poder justificar os seus miseráveis indicadores económicos.

Mas a seleção no domingo não foi nada disto. Pelo contrário. Deu aos meus filhos essa famosa lição, que agora é também portuguesa: don’t get mad, get even. Que é como quem diz: não te enfureças, vinga-te. De preferência, digo eu, com umas caneladas nos franceses e sem luva branca. Esta parte fica para a próxima. Planear a longo prazo também é uma boa lição.
Título e Texto: Maria João Marques, Observador, 13-7-2016

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