quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Terceiro ciclo da crise: a onda azul chega aos valores

Cesar Maia
           
1. Desde a crise financeira de 2008, cresceu progressivamente a Onda Azul, com partidos de corte de centro-direita vencendo eleições. Essa Onda Azul começou pela Europa e se espalhou.
           
2. Durante alguns anos ela teve caráter econômico. Ou seja, a crise era explicada pela omissão dos governos e pelo abuso na desregulamentação do setor financeiro, destacando os aplicativos e o sigilo bancário especialmente nos paraísos fiscais. As ideias liberais avançaram e venceram eleições – no período inicial – em quase toda a Europa Ocidental.
           
3. A política econômica defendida pelos líderes e partidos de centro-direita tornou-se consensual e incorporou setores socialdemocratas para estes se tornarem sustentáveis, como na Grécia e França.
           
4. O desmonte da Primavera Árabe, os fluxos crescentes e multitudinários de refugiados empurrou a Onda Azul mais à direita, sob pressão da opinião pública. À guerra civil na Síria e a transformação do terrorismo, com ocupação de amplos territórios no Iraque e na Síria pelo Estado Islâmico, somou-se o uso do terror sem alvo ideológico, mas apenas como propaganda armada. O caso da França é emblemático. A direita nacionalista na Europa ganhou expressão política e o Brexit no Reino Unido é expressão disso. E se o plebiscito de dezembro agora na Itália derrotar o primeiro-ministro e a eleição do ano que vem derrotar os socialistas na França, esse ciclo se reforça e completa sua hegemonia na Europa.
           
5. E a Onda Azul chegou à América Latina, deixando de ficar restrita a países da América Central, e avançando de forma hegemônica na América do Sul. A desintegração da Venezuela implodiu a referência que a esquerda populista tinha. As vitórias eleitorais na Argentina e no Peru cristalizaram a Onda Azul. E a ampla corrupção governamental no Brasil deu caráter virótico à Onda Azul. Já com Macri na presidência, as investigações chegaram à Cristina Kirchner com a força da “lava-jato” brasileiro. O entorno de Bachelet involucrou-se em desvios éticos e, com isso, sua popularidade despencou.

6. 2016 ampliou a dimensão da Onda Azul, completando seu círculo. Chegou aos valores conservadores que passaram a ser hegemônicos político e eleitoralmente. O plebiscito do acordo de paz na Colômbia foi derrotado por ter incluído valores “liberais” em relação à vida e a família. As eleições peruanas da mesma maneira, com ampla maioria na câmara de deputados.
           
7. As eleições municipais no Brasil tiveram este caráter. Não apenas a esquerda foi dizimada pelos escândalos, como as vitórias em grandes centros como Rio de Janeiro trouxeram consigo valores conservadores. As eleições presidenciais semana passada na Bulgária e na Moldávia surpreenderam com vitórias de candidatos à esquerda pró-Putin. E – atenção – se enquadraram totalmente no ciclo hegemônico de valores conservadores.
           
8. E para completar – com pompas e circunstâncias – a vitória de Trump nos Estados Unidos. Se o neonacionalismo justificado pelos avanços do Estado Islâmico e pela proporção de migração indocumentada repetiram clichês já apresentados em outras eleições, agora os valores conservadores, cristãos, tiveram efeito virótico espalhando-se pelo interior e quase isolando os democratas nas grandes metrópoles. A antipolítica foi além da europeia, e agora nos EUA, é assumida com slogans contra as “ideias politicamente corretas”.
           
9. Poder-se-ia dizer que este é o Terceiro Ciclo político da crise de desde 2008:
a) Politica Econômica Liberal,
b) Nacionalismo Europeu, e agora
c) Hegemonia dos Valores Conservadores-Cristãos.
São sinérgicos, se reforçam sinalizando que a Onda Azul ainda tem fôlego. 
Título e Texto: Cesar Maia, 23-11-2016

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