quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

O que há num título?

Paulo Tunhas

Os princípios, os bons, excelentes e magníficos princípios que nos põem tão contentes connosco, dispensam-nos demasiadas vezes de reflectir sobre a nossa responsabilidade.

O pior título jamais dado a um livro é indiscutivelmente o da autobiografia do poeta chileno, e Nobel da Literatura, Pablo Neruda: Confesso que vivi. Durante décadas pensei assim e continuo a pensá-lo. Mas, como em muitos casos destes com palavras, a razão da detestação permaneceu-me em parte vaga. Hoje apeteceu-me perceber melhor.

Há, em primeiro lugar, o flagrante e ostensivo contentamento consigo mesmo. Como coisa distinta da expressão da felicidade, as manifestações de exagerado contentamento consigo mesmo, quando não são pura e simplesmente ridículas, do pior ridículo, tendem a irritar. Porquê? Porque mostram que o sujeito que assim se vê não quer deixar transparecer, mesmo sublimado de uma maneira qualquer, o que na sua vida, como na vida de todos nós, foi medo, erro, humilhação, fracasso, falta de respeito pelos outros, cobardia e outras coisas assim igualmente desagradáveis. O contentamento consigo mesmo (como coisa distinta da expressão de felicidade, insisto) irrita pela suspeita imediatamente provocada de ocultações mais ou menos conscientes.

Não, é claro, que a exibição extensa e minuciosa de desgraças e sofrimentos se recomende verdadeiramente. A parcimónia no capítulo é até aconselhável. Há, ainda por cima, como Espinosa, o filósofo, nos explicou, boas razões para não cedermos à triste paixão retrospectiva da culpabilidade e a outros arrependimentos vários. O género História das minhas calamidades (um título de que sempre gostei e que, no caso do seu autor original, tinha uma forte razão de ser) interessa apenas num caso ou outro. Mas proclamar, com a característica demonstração de satisfação e de contentamento próprio, Confesso que vivi é ainda pior.

Além disso, há nisto a pouca subtil insinuação de superioridade moral, outra coisa que irrita, e não pouco. Só alguém que se sinta moralmente superior pode confessar que viveu. Os pobres mortais não se costumam ver a si mesmos suficientemente apolíneos para falarem com encenado despreendimento da sua vida. Só um elevado sentimento de superioridade moral permite essa curiosa e artificial condescendência.

E como não notar a falta de imaginação? O acto central da imaginação é, num certo sentido, e sem romantismo nenhum, o do reconhecimento que, nas palavras célebres de Rimbaud, la vraie vie est ailleurs. Mesmo que a verdadeira vida chegue a nós, ou nós, por sorte ou engenho, a ela, há qualquer coisa na imaginação que nos obriga a pensá-la sempre como algo que nos escapa. Devemos provavelmente agradecer (mas não “confessar que agradecemos”) os nossos encontros com a verdadeira vida, que até podem ser muito duráveis. “Que bela vida vivi!” é, mais do que aceitável, invejável. Mas Confesso que vivi não. O problema terrível, a obscenidade, para utilizar a expressão que convém, está mesmo no “confesso”, na tal superioridade moral que a palavra quer dar a ver. A vida é a única coisa que não se confessa com trajos apolíneos. Conta-se, se estivermos para aí virados: mas não se confessa.

A superioridade, e, já agora, a falta de imaginação, têm a ver com a convicção de se viver de acordo com princípios que não se põem nunca em causa. Há gente assim, cuja mínima acção é apresentada como resultado da suposta inspiração por um princípio. Não de um impulso, não de um preconceito qualquer reconhecido como um preconceito, não de um desejo ou outro – mas de um princípio. Só o sentimento de obedecer a elevados princípios permite essa peculiar confissão, que não é a revelação do maravilhamento surpreendido com a existência mas do maravilhamento com sermos quem somos e com termos tão bons princípios.

Os bons princípios, e a nossa satisfação com eles, ajudam-nos de facto imenso a confessar que vivemos. Dispensam-nos, idealmente, várias perguntas. Se o que fizemos não deveríamos não o ter feito. Se poderíamos, face ao que agora nos parece ter sido um erro, e magicamente colocados nesse momento anterior do tempo, tê-lo evitado. (Há sem dúvida casos em que sim, mas há muitos casos em que não, mesmo aqueles que mais trapalhadas na vida nos causaram.) E por aí adiante. Resumindo: os princípios, os bons, excelentes e magníficos princípios que nos põem tão contentes connosco, dispensam-nos demasiadas vezes de reflectir sobre a nossa responsabilidade.

O que é à sua maneira terrível em tudo isto é quando essa satisfação consigo mesmo é transportada para o plano político e se torna, por assim dizer, colectiva. O sentimento de superioridade moral, a perda da imaginação que nos faz aceder a um mundo de possibilidades variadas, e, por isso mesmo, nos permite sermos tolerantes com os outros, a crença em princípios dotados de uma justeza inquestionável, a ausência de uma reflexão sobre a nossa responsabilidade, a não ser no quadro rígido da “autocrítica”, tudo isso, passando para o plano político, anuncia, sempre anunciou, o pior. O título da autobiografia de Neruda traz consigo um pouco disto tudo. Confesso que sempre me fez medo. 
Título e Texto: Paulo Tunhas, Observador, 8-12-2016

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