quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

[Aparecido rasga o verbo] Coice de mula

Aparecido Raimundo de Souza

1
O GAROTO CHEGA NA SALA, SE VIRA PARA O PAI QUE ESTÁ COM OS OLHOS grudados na televisão assistindo à decisão do campeonato de seu time preferido. Sem se importar com a impaciência do torcedor inveterado, – que parece à beira de um ataque de nervos –, o inocente manda a pergunta:
- Pai, ô pai, por que o pato não fica molhado quando nada?

Para se livrar do filho pentelho o homem responde ligeiro com a primeira ideia descabida que lhe acode à cabeça:
- Porque usa toalha.

Mas o moleque quer mais. Insiste:
- Iguais às que mamãe põe no banheiro quando o senhor entra para tomar banho?
- Sim. Agora vá brincar lá fora, filho. Cadê seus coleguinhas, o Ricardo e o Amauri?

2
O pirralho não atenta para esse fato de ir lá fora brincar com os amiguinhos. Na verdade, parece insatisfeito. De fato, esta:
 - Pai, ô pai, elas são de algodão ou de linho?
- O quê?  Cai fora, imbecil, dá um tempo!...
- Eu só queria saber se elas são de algodão ou de linho para falar para os meus amigos...
- Tá bom, porcaria. São de algodão.
- É por isso, então que todos os patos são brancos? Por que são de algodão?
- Os patos não são de algodão.
- O senhor acabou de falar...
- Eu me referia às toalhas... não aos bichos em si.

O menino fica um tempo pensativo e logo a seguir volta à carga. Desembucha:
- Pai, ô pai, o pato é um bicho ou uma ave?
- O quê? Quem é bicho?!
- Perguntei se o pato...
- Depois, filho. Vá brincar. Deixa o jogo acabar. Tá quase no final do segundo tempo...
-  Mas eu...
- Tá. É ave.



3
O moleque sai correndo em direção à porta da rua. O sujeito respira, aliviado. Menos de dois segundos, contudo, retorna. E prossegue, curioso:
- Pai, ô pai...
O pai, entretanto, está pisando em ovos, pê da vida. É até capaz de estrangular alguém. Rói as unhas, em atitude desesperada.
- Vai, Ronaldinho -, grita gesticulando as mãos -, seu...   seu desgraçado, não perde essa... que filho de uma égua, chuta essa bola...
- Pai, ô pai...

Colérico, soltando fogo pelas ventas, o cidadão se volta para o pequeno. Seus olhos se cruzam por um instante apenas.
- Vai brincar... vai brincar seu monte de merda.
- Eu estou brincando...
- E então? O que foi agora? Por que diabo não me deixa em paz?
- Eu queria saber se...
- Depois, depois. Agora não... Vai ver se estou na esquina...
- Mas ô pai...
- Tá. Fala rápido, infeliz: o que é desta vez?
- Peixe bebe água?

4
Ronaldinho chuta para gol. O goleiro, atento, pula no ar. Por instantes voa, voa como se tivesse asas.  Se a bola entrar, o time ganha, do contrário, vai para as cucuias. Além de perder o campeonato ainda por cima será rebaixado.
- Entra, entra, entra...
Por azar, a bola é agarrada na hora agá. O goleiro se abraça a ela, e, ao fazê-lo cai para o chão e se estrebucha no gramado em piruetas grotescas como se ensaiasse uma dança esquisita.
- Pai, ô pai...

5
A fúria do perdedor é tanta, mas tanta, que até esquece que é o pai. Desesperado e suando em bicas, pior que moringa nova, gira, então, sobre o próprio corpo e, envia um tabefe tão grande e forte que pega, em cheio, no rosto do filho. O coitadinho, igualmente ao goleiro, é atirado de cara contra os ladrilhos da sala. O sangue jorra de sua boca, com abundância. À força vigorosa, como se tivesse sido atropelado por um caminhão desgovernado em alta velocidade.

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Título e texto: Aparecido Raimundo de Souza, jornalista, de Vila Velha, no Espírito Santo, 23-2-2017

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