sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

[Aparecido rasga o verbo] Ritual do destempero

Aparecido Raimundo de Souza


1
DE REPENTE, NO MEIO DO CAMINHO DE VOLTA PARA CASA, deu uma tremenda de uma caganeira em Manoel. Sem saída, e se contorcendo para não sujar as roupas (só tinha uma muda) parou e olhou em volta. Transeuntes iam e vinham, numa afobação descomedida. Bairro de gente rica era assim mesmo: lojas espalhadas por todos os lados das calçadas, gente entrando e saindo. Do outro lado da avenida, crianças se divertiam numa pracinha cheia de brinquedos, ao lado de suas mães, enquanto outras, acomodadas em luxuosos carrinhos, passeavam acompanhadas de suas respectivas babás.

2
Manoel tinha que dar um jeito. E rápido. A coisa, por dentro, explodiria a qualquer momento. Avistou o esqueleto de um prédio abandonado em meio a outros tantos edifícios de portes sinuosos. Estava ali, no centro daquela selva de cimento armado, a solução para seu problema. Sem pensar mais, correu ligeiro. À outrance que o movia, atravessou em meio ao movimento incessante, pouco se importando com os carros que cruzavam em ambos os sentidos buzinando atabalhoadamente.
- “Filho de uma égua!”
- “Quer morrer, desgraçado?”
- “Sai da frente Mané”.

3
Logo que se viu seguro e longe de olhares curiosos, desafivelou o cinto, baixou a calça surrada, a cueca remendada, levantou a camisa manchada e posicionou o cano de descarga com a extremidade do orifício anal voltada para alguns centímetros do chão. Pouco antes de largar o batente (era auxiliar de ajudante de pedreiro), soltara uns bufos que pareciam normais.

Contudo, à medida que se aproximava do seu canto de sossego (morava numa favela três quilômetros longe do trabalho), essas ventosidades ficavam mais ferozes, se tornaram decisivas e concludentes, a ponto de darem lugar a impulsivos traques barulhentos e estrepitosos, que estouravam estranhamente, e, com arroubos, o que o fazia olhar longamente para todos os lados, desconfiado, aturdido, pensando, talvez, que a multidão que cruzava com ele, em sentido contrário, escutasse a voz chorosa do seu intestino desordenado.

4
Entretanto, Manoel não atinou com o principal. Nem dava tempo. Um bando de moleques bebia, fumava crack e cheirava cola num outro extremo da velha construção. Quando viram que o infeliz pegava exatamente a direção de onde estavam, cessaram por momentos a algazarra e se esconderam, à espreita, para ver o que ele viera urdir longe do burburinho que reinava em meio a toda aquela agitação.
- “Que será que esse sujeito quer aqui?”
- “Véiiii... acho que mijar...”
- “Agachado?”
- “Talvez soltando um ‘barro”.
- “Vamos conferir?”

5
Foram bisbilhotar e descobriram que o pobre do Manoel, amoitado por detrás de umas paredes umedecidas batia realmente “uma laje”, expelia as impurezas que saiam precipitadas e impetuosas de seu interior, como se estivessem sendo detonadas num culto macabro, uma espécie de vazamento que não tinha como ser contido. O cheiro forte da merda exposta, apesar de misturado com a fumaça dos garotos, e, na rota de uma tênue ventilação que soprava das bandas do mar, não dava vazão e fazia a fedentina entrar rasgando, com vontade nariz adentro. Um dos observadores teve uma ideia. Atirar pedras no infeliz. E assim foi.

6
A primeira arremetida acertou a parte carnosa do seu fundo de agulha, exatamente no momento em que o infeliz precipitava, para fora, uma nova enxurrada de água suja misturada com fragmentos de folhas de couve, feijão, torresmo e linguiça de porco, restos de uma feijoada que a mulher ganhara da patroa, no domingo. Essas matérias inflamáveis saíam fazendo uns estardalhaços peculiares, atributos de quem efetivamente se envolvera em fortes desarranjos. O fato é que ao bater de encontro com o chão coberto por chumaços de capim molhados, a coisa se espalhava formando um imenso e esquisito círculo avermelhado.

7
A segunda pedrada pegou em cheio, na cabeça, um pouco acima da testa. Por segundos, Manoel se sentiu meio grogue e atabalhoado. Seus óculos caíram e ele se viu desafrontado pela breve cegueira que o impediu de enxergar em derredor. Como se abaixara de cócoras, ajeitado em encantadora pudicícia, e, por essa razão, sem ter onde segurar com firmeza, ou apoiar os cotovelos, lhe veio à mente a infeliz ideia de espalmar as mãos sobre os olhos, com os dedos separados uns dos outros. Foi seu mal. Desequilibrou o corpo, e, no momento seguinte, despencou para trás, de costas, com as suas vias naturais expostas bem no meio dos resíduos inúteis.  Embrabeceu. Virou bicho. Esqueceu até que precisava limpar o rego da bunda.
- Puta que pariu! Puta que pariu, de rodinha, para andar mais rápido - vociferou encolerizado! – Eu mato!

8
Enquanto tentava se soerguer, procurou não sujar o resto do corpo, e, consequentemente, as roupas, pelo menos até poder acabar de chegar, tomar um bom banho de lata (não dispunha de chuveiro nem água quente) e se livrar daquele malfadado inconveniente catingoso.

***   
Nessa hora, uma terceira pedrada zuniu no ar e voltou a lhe acertar mais acentuadamente. O coitado do Manoel enfiou, então, a cara, no meio do caldo das suas fezes. Enlameado pelo excremento, ficou de quatro patas, numa posição ridícula. Decidido, levantou de vez, ainda cambaleante. Um choro convulso tomou conta de seus olhos.

9
Recompôs como pode as roupas, e, em seguida, juntando as forças que lhe restavam, pôs se a correr a esmo, sem saber a direção certa, atrás dos pestinhas, ao tempo que soltava uma série de impropérios contra eles numa fúria enfática.
- “Vou pegar vocês, seus malditos. E botarei no rabo de um por um...”.

10
Nesse corre daqui, corre dali, e mais, dizendo insultos aos fedelhos, à alta voz, numa gula de descontrole, a coisa degringolou. Para tumultuar, os endiabrados garraram também a gritar, de sacanagem, para chamar a atenção. Conseguiram. A cena, num abrir e fechar de segundos, mudou completamente de rumo. Começou a juntar gente em frente ao edifício abandonado. O trânsito parou. Buzinas danaram a tocar. Encostou um carro da polícia, sirene aberta, faróis ligados. Em seguida mais outro. E outro mais. Uma pá de policiais começou a se movimentar num farfalhar rumorejante enquanto outros tomavam posições estratégicas. “Tinha um pedófilo molestando menores”. Cercaram o local, enquanto um grupo de fardados se posicionava armado com cassetetes, balas de borracha, bombas de efeito moral, metralhadoras e até escudos.

11
Quinze minutos depois conseguiram domar a fera perigosa. O pobre indefeso do Manoel. O coitado saiu arrastado, o rosto lívido, destruído pela flor negra da vergonha. Tinha as roupas e os sapatos borrados. Tudo nele era um merdeiro só, polvilhado a fetidez do que restou da desastrosa vontade de aliviar o intestino. Mesmo algemado, fedendo a titica podre, pior que fossa de morro a céu aberto, o desditoso não deixou de segurar a sacolinha do supermercado aonde levava a marmita vazia.

12
Enquanto marchava para o camburão, deixando em seu rastro o fruto de suas tripas, a turba, em derredor, sem saber direito dos fatos, não perdoava, ao contrário, instigava a imaginação das autoridades.
- “Tarado, tarado, tarado! Pau nele...”.
Os meninos lá no interior da construção voltaram a se ocupar do que faziam, enquanto riam e motejavam a mais não poder.

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Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, jornalista, de Campos dos Goytacazes, norte do Estado do Rio de Janeiro RJ, 17-2-2017

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