sábado, 18 de fevereiro de 2017

Mentira, corrupção e abuso de poder não têm cor política

Cristina Miranda

Era uma vez um segredo que Centeno queria esconder. Não queria que se soubesse que acedeu negociar condições particulares com futuros administradores do banco público. Que essas condições visavam para além do termo dos tetos salariais, isenção de apresentação das declarações de rendimentos. Como não podia decidir sozinho, informou Costa. Como Costa precisava de contornar a questão da inconstitucionalidade, falou com Marcelo. Marcelo falou com Centeno e Centeno enviou SMS para Domingues. Tudo resolvido. Tudo acertado. Até ao momento em que tudo isto chega ao conhecimento público…

A bomba estourou-lhes nas mãos. Atrapalhaditos, todos resolvem mentir: o Centeno diz que foi apenas “erro de percepção mútuo” (vai-se lá saber o que isto é); o Marcelo diz que não há provas documentais assinadas (tinham de ser também reconhecidas notarialmente, digo eu…) e redobra confiança no “senhor das percepções erradas”; o Costa remete-se ao silêncio enquanto o palco arde mas deita alguma água sobre Centeno que classifica de admirável ministro das finanças (a distração e comédia é seu forte). Mas nenhum assume nada. Isolado, Domingues promete mostrar SMS. Marcelo vê as primeiras e não gosta do que vê. Avisa que só não deixa cair Centeno para manter estabilidade financeira. As coisas complicam-se…

Até que chegou o dia de ver todas as SMS. E não é que Centeno implica Marcelo nas ditas? Com o rabo a arder, Marcelo indigna-se com a devassa e dá o assunto por encerrado. Atrás dele, o Costa. Atrás do Costa as eticamente corretas do BE e atrelado a estas, PCP. A lei da mordaça instala-se. É o boicote declarado às SMS e CPI para pôr fim ao que não lhes convém que se saiba. Porquê?

Chamaram-lhe novela da direita para provocar instabilidade na CGD e privatizá-la (mas que grande lata!!!). Eu chamo de abuso de poder, seja lá de que cor for, para impedir o acesso à informação legítima e obrigatória à luz da lei da transparência no sector público. E qualquer retórica fora deste âmbito é pura manobra de distração para proteger maus políticos cuja a irresponsabilidade é paga por todos os contribuintes. Digo mais: esconder o que se passa na CGD (com ou sem SMS) ou noutro sector qualquer do Estado, é simplesmente criminoso e antidemocrático.

O problema é que o povo português ainda não aprendeu a exigir dos governantes uma conduta ética intocável na condução da Nação. Veem um lado e outro como se de futebol se tratasse e ao invés de os culpabilizar pela má performance política, relativizam argumentando que os outros também o eram, sem perceber que estão a trair-se a eles próprios. Com isto dizem à classe política que não se importam que abusem deles (contribuintes) desde que sejam do mesmo “team” e assim, a porcaria em vez de acabar aumenta a cada ano. E eles riem-se. Claro. Contentes por terem um povo ignorante que manipulam a seu bel prazer sem escrúpulos.

Enquanto assistirmos passivamente a estas e outras novelas políticas, consentindo que continuem a sacanear os contribuintes sem nos unirmos nestes temas, teremos sempre políticos medíocres, de condutas medíocres, com políticas medíocres à frente do país.

Porque a mentira, a corrupção e o abuso de poder, não tem cor política. Tem falha grave de carácter. E permitir isso faz de nós, enquanto povo, exatamente mais do mesmo.

Os políticos refletem sempre a imagem do povo que os elege.
Título e Texto: Cristina Miranda, Blasfémias, 17-2-2017

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