sábado, 18 de fevereiro de 2017

O verdadeiro problema dos portugueses

Se há coisa que os portugueses fazem ainda melhor do que resmungar é obedecer. Pior, fazem-no sem desconforto aparente. E depois queixam-se. E depois obedecem


Alberto Gonçalves

O sacrifício público do dr. Centeno constituiu, como se diz no meio, um grande momento de televisão. Privado do encantador sorriso com que nos brinda há ano e meio, o homem surgiu com a descontração de um sequestrado por terroristas. O sequestrado, admita-se, não teria fornecido explicações menos convincentes. Nos intervalos dos tremores, o dr. Centeno limitou-se a atirar novas patranhas sobre as patranhas já conhecidas.

Trata-se, sem tirar nem pôr, do método adotado pela doméstica sensata ao descobrir que o cabrito assou excessivamente: pega fogo à cozinha inteira. Sucede que, sob a evidente imolação do ministro, incêndios menores prosperavam. Uns provocados pelo dr. Costa, que abusou de um pobre diabo para tipicamente salvar a pele. Outros provocados pelo prof. Marcelo, que só garante a excelência do governo enquanto a respectiva incompetência não lhe cair em cima. O que não nos falta é gente corajosa.

Curiosamente, foram esses valentes ou valentes similares que passaram a semana anterior a desvalorizar o “caso” da CGD, do dr. Domingues (sem prova escrita – daqui em diante, condenações exigem confissão escrita e papel timbrado). De acordo com as teses dominantes, o extraordinário espetáculo em redor da “Caixa” não passava de “tricas”, o termo exato utilizado pela dra. Ferreira Leite lançou a frase sacramental: as “tricas” desviam a atenção dos verdadeiros problemas dos portugueses.

Ficámos assim informados de que as aldrabices “institucionais” cometidas a pretexto de um banco público e ruinoso não são um dos verdadeiros problemas dos portugueses. Quais serão, pois, os verdadeiros problemas dos portugueses, tantas vezes invocados? Ninguém sabe. E se alguém sabe, não diz. O que quem manda nisto costuma inventariar é aquilo que não faz parte dos verdadeiros problemas dos portugueses: por regra, tudo o que possa beliscar a oligarquia. Por definição, a oligarquia não apenas determina o que não interessa à populaça, mas principalmente percebe o que não interessa a si mesma.

Em certo sentido, o verdadeiro problema dos portugueses é a ligeireza com que, por necessidade ou apatia, se deixam manipular por uns rústicos que as peculiares circunstâncias de um país pobre cobrem de poder, influência ou “prestígio”.

A impunidade concedida aos senhores que, oficial ou oficiosamente, nos tutelam não nasceu por milagre: é o resultado inevitável de uma longa história de subserviência. Se há coisa que os portugueses fazem ainda melhor do que resmungar é obedecer. Pior, fazem-no sem desconforto aparente. E depois queixam-se. E depois obedecem.
Título e Texto: Alberto Gonçalves, revista SÁBADO, nº 668, 16 a 22 de fevereiro de 2017

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