quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

[Para que servem as borboletas?] O melhor dos mundos...

Valdemar Habitzreuter

Estamos vivendo num mundo conturbado, cheio de violências, guerras e outras misérias sem conta que envolvem diretamente o ser humano como protagonista, e sem contar os desastres naturais: terremotos, tsunamis, enchentes, tornados, ceifando milhares de vidas. Este mundo se afigura como um verdadeiro “vale de lágrimas”. Mas, um talentoso matemático e filósofo do século XVII alardeou com fé e convicção que este mundo é o melhor dos mundos possíveis que Deus fez.

Na teodiceia (“Ensaios de teodiceia sobre a bondade de Deus, a liberdade do homem e a origem do mal”) Leibniz desenvolve a teoria de que Deus criou o melhor dos mundos possíveis. Mesmo que estejamos cercados de todo tipo de males: metafísicos (a imperfeição dos seres finitos), físicos (os sofrimentos), morais (o pecado), mesmo assim este é o melhor dos mundos.

Como pode ser isso? Se existe o mal neste mundo não deve ser o melhor dos mundos. Se Deus é onipotente e infinitamente bom por que teria admitido o mal no mundo? Eis o problema.

Se ele é onipotente poderia ter criado o mundo sem que houvesse mal algum, e se o mal se infiltrou no mundo então sua vontade foi contrariada. Será que Ele não é o todo poderoso? Além do mais, se Ele é a bondade infinita não se entende por que existe o mal, já que Ele só quer o bem. Como sair dessa?

Leibniz afirma que a vontade de Deus não foi contrariada de jeito algum ao criar o mundo e, portanto, Ele é onipotente, e muito menos que Ele não seja a bondade infinita; a vontade divina pode tudo, mas Deus submete sua vontade a regras de seu entendimento (razão) do que é bom, justo e perfeito, sem prejuízo de sua onipotência e bondade infinita. Deus entende que este mundo com todos os seus males é o melhor dos mundos que criou. Se Ele tivesse criado o mundo sem o mal não seria o melhor dos mundos, segundo seu entendimento.

Mas, daí surgiria outra pergunta: mas subordinar a vontade divina ao seu entendimento não seria o mesmo que dizer que ele não é onipotente? Afinal de contas, por que Deus entende que uma parcela de mal deve fazer parte neste mundo?

Segundo nosso filósofo, se se fosse levar em consideração só a sua vontade e não o seu entendimento do que é bom, justo e perfeito, Deus faltaria com a bondade e seria um Deus arbitrário, um Deus tirano, ao invés de onipotente - a bondade, a justiça e perfeição são inerentes à onipotência divina. Ele necessariamente, pois, submete-se a regras do que ele entende ser bom, justo e perfeito.

Então, como se justifica que o mal faça parte desse melhor mundo possível dentre tantos outros possíveis que Deus poderia ter criado, inclusive um mundo sem mal algum?

Quanto ao mal metafísico (a imperfeição das criaturas) não depende da vontade divina, pois toda criatura é por essência finita, e se é finita é imperfeita e está sujeita ao erro, e o mal daí proveniente é somente devido a sua imperfeição, e isso não depende da vontade de Deus, mas de seu entendimento. Deus viu que, mesmo com essa imperfeição, as criaturas poderiam trilhar o caminho do bem e se elevarem em perfeição. Neste caso, a razão de Deus antecedeu a de sua vontade. Primeiro Ele teve as ideias para depois aplicar a vontade de criar segundo essas ideias e viu que tudo o que criou era bom - a imperfeição das criaturas não é um mal em si...

Já quanto ao mal físico e moral (sofrimento e pecado das criaturas) é decorrente do mal metafísico, devido à imperfeição da criatura. Mas Deus, ao criar este mundo como um todo, aplicou sua vontade sem o concurso do seu entendimento. Neste caso, Deus aplicou o princípio de criar o melhor dos mundos possíveis. Isto é, como por cálculos lógicos, só poderia ter criado este mundo que aí está com o máximo de perfeição e mínimo de imperfeição. Todos os mundos possíveis que pudesse ter criado não seriam tão perfeitos quanto este que estamos vivendo.

É claro que Deus poderia ter criado o mundo sem mal algum, mas, segundo Leibniz, não seria o melhor dos mundos possíveis. Por que? Diz Leibniz que “nós sabemos, aliás, que frequentemente um mal causa um bem, o qual não teria acontecido de forma alguma sem aquele mal”.

Portanto, o próprio mal contribui para um bem maior, concorrendo a que este mundo como um todo seja o mais perfeito possível; e que as próprias criaturas levem em conta as consequências funestas do mal se nele se comprazerem e, assim, se esforcem a se desenvolverem e a se superarem no bem e, com isso, resultando no aumento do bem no mundo como um todo. Além do mais, o bem maior a ser preservado neste melhor mundo possível criado pela vontade divina, segundo Leibniz, é a liberdade que Deus nos concedeu, dando-nos a oportunidade de pessoalmente saborearmos ou não o bem. De modo geral, o bem sempre será triunfante e sairá cada vez mais fortificado e espalhado globalmente...

Pois, pois, pelo revoar das borboletas coloridas, este mundo é maravilhoso...

Alguém discorda de Deus? A pergunta, é claro, não se dirige aos ateus que diriam: tudo isso é bobagem...  (Rocha o que você me diz?)
Título e Texto: Valdemar Habitzreuter, 23-2-2017

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