sexta-feira, 17 de março de 2017

Os jornais como plataforma para as redes sociais

Cesar Maia
           
1. Décadas atrás, uma matéria num jornal ou revista que interessasse a um político ou a um grupo político, tinha que ser recortada e mostrada ou, na melhor hipótese, o interessado comprava vários jornais. Os políticos tinham seus jornais de forma a tratar uma matéria – críticas, denúncias, elogios...– multiplicando pela própria distribuição da edição de seu jornal ou comprando espaços nesse ou naquele jornal. Esse caminho – muito usado – era e é de baixa credibilidade.
           
2. Antes, os grandes jornais não precisavam de se preocupar com o uso que seria feito das matérias publicadas. Afinal, o multiplicador era a própria edição e tiragem do jornal. O multiplicador – uso ou abuso – externo era de pequeno ou nenhum impacto. Depois, o multiplicador aumentou com o uso da xerox ou a transformação de uma certa matéria de jornal em panfleto. Aumentou, mas a edição original e a sua tiragem continuavam sendo, de longe, o principal multiplicador.
           
3. Antes, uma matéria de jornal ou revista lida ou vista pelos leitores era ampliada pelos leitores múltiplos. Quantas pessoas liam o que interessava dos jornais e revistas comprados por outros? Revistas na sala de espera dos escritórios e consultórios são outro exemplo. A leitura dos jornais pendurados nas bancas de jornais multiplicava apenas o que saía na capa, e para um público localizado.

           
4. A internet e as redes sociais mudaram radicalmente essa proporção entre matérias publicadas em jornais ou revistas e a sua multiplicação. Uma matéria de interesse político, uma vez reproduzida nas redes sociais (e nos blogues), passa a ter um alcance muito maior que a tiragem do jornal ou revista que lhe deu origem.

5. Uma pequena notícia em página interna sem destaque, desde que seja de interesse político, pode gerar uma quantidade de leitores maior que a tiragem da edição original, através do multiplicador das redes sociais. Nesse sentido, os multiplicadores das matérias nas redes sociais são editores – reeditores – dos próprios jornais.
               
6. Os blogs de jornalistas são exemplos disso. Multiplicam, fora da edição formal do jornal, notícias que podem circular mais que a tiragem de origem.
               
7. O famoso editor do Nouvel Observateur dizia, anos atrás, que os editoriais dos jornais eram a consciência de culpa dos noticiários dos próprios jornais. Se antes era assim, hoje o multiplicador das notícias pelas redes sociais tirou do controle dos editores o que, do conteúdo publicado, terá maior ou menor impacto de opinião pública.
               
8. Se é assim, o controle interno de conteúdo nos jornais tende a ser crescentemente maior. Quando se diz que os jornais devem cada vez mais ter matérias de opinião, na prática isso significa não pulverizar o noticiário com a independência dos repórteres, porque perderiam o controle do multiplicador e até antagonizando com a linha editorial.
               
9. Num seminário recente, um debatedor dizia que os jornais estão se transformando em plataformas para as redes sociais. Será?
Título e Texto: Cesar Maia, 16-3-2017

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