sexta-feira, 28 de abril de 2017

Anna Akhmátova

João Pereira Coutinho

Retrato de Anna Akhmátova por Kuzma Petrov-Vodkin em 1922
No inverno de 1945, o filósofo Isaiah Berlin viajou de Moscovo para Leninegrado. A guerra terminara pouco antes e Berlin encontrou uma cidade devastada. Mas essa viagem a São Petersburgo da sua infância não valeu apenas como retrato da destruição e da barbárie. Ao entrar numa livraria local, Berlin inquiriu sobre o destino de escritores vários, que ele julgava mortos e enterrados. Como Anna Akhmátova, uma das figuras mais marcantes da poesia russa pré-revolucionária.

Para espanto de Berlin, Akhmátova não estava morta nem enterrada. Vivi perto, bem perto dali. E, se Berlin quisesse, seria possível conhecê-la naquela mesma tarde. O encontro foi rapidamente providenciado. Pela descrição que Berlin nos legou, Akhmátova surgiu como ‘uma rainha trágica’, no seu porte majestático. E ainda era possível divisar no rosto envelhecido, a espantosa beleza de uma das mais sublimes mulheres daquela cidade. ‘Um anjo negro tocado por Deus’, nas palavras felizes do muito infeliz Osip Mandel’shtam.

Elaine Feinstein, biógrafa de Pushkin, revisita essa ‘rainha trágica’ numa das biografias mais aguardadas do ano: Anna of All the Russias: The Life of Anna Akhmatova. É o retrato competente de um calvário poético e pessoal: de como alguém conservou a alma e a dignidade perante um mundo invulgarmente brutal.



Anna nasceu em 1889, perto de Odessa, na Ucrânia. Por imposição do pai, que não tolerava os seus exercícios poéticos, acabaria por abandonar o nome de família (‘Gorenko’), escolhendo ‘Akhmátova’, nome de princesa tártara sua antepassada. Nas palavras de Joseph Brodsky, seu discípulo e confidente nos anos finais, a escolha do nome foi o seu primeiro poema.

Akhmátova começou por receber a influência dos simbolistas, sobretudo de Aleksandr Blok. Mas cedo se revoltaria contra essa influência: a partir de 1913, e juntamente com Mandel’shtam e o primeiro marido, Nikolai Gumilev, participa no movimento acmeísta, que pretendia, quer com o misticismo simbolista de Blok, quer com o futurismo de Maiakovski, procurando uma poesia capaz de transmitir a experiência pessoal através de uma linguagem clara e rigorosa.

Mas a poesia de Akhmátova é indissociável do sofrimento russo e o ano de 1917 é, pelos piores motivos, momento marcante da sua biografia poética. Muitos escritores celebraram a revolução bolchevique como momento de libertação. ‘Um milagre’, dizia Blok; ‘um segundo Bonaparte’, afirmava Marina Tsvetaeva, sem saber que Lenine seria o início da sua destruição pessoal.

Akhmátova entendeu que 1917 inaugurava uma via dolorosa para a Rússia. Não apenas pela pobreza material e moral, que transformaria o quotidiano do povo russo num inferno secular. Mas pelas tragédias pessoais que Akhmátova enfrentaria já sob Estaline: as mortes de Gumilev e Mandel’shtam às mãos do regime; os quinze anos de Sibéria para o seu filho, Lev. E a proscrição da sua poesia, considerada ‘pessoal’ e ‘decadente’ (leia-se: ‘burguesa’ e ‘reacionária’) pelos críticos oficiais, sobretudo pelo sinistro Andrei Zhdanov.

A tudo isto Anna Akhmátova respondeu, ficando. Na verdade, Akhmátova sempre se recusou a deixar a Rússia. Não por desprezo ideológico face ao Ocidente (como em Gogol). E muito menos por uma qualquer inadequação às principais capitais da Europa (como em Belinski): em 1911, Akhmátova vivera em Paris, e desses anos Modigliani deixaria pinturas célebres. Akhmátova ficou para testemunhar: para que da sua ‘boca extenuada’ pudesse ainda gritar ‘um povo de 100 milhões’. As palavras pertencem a Requiem, escrito entre 1935 e 1940, obra monumental sobre um tempo feroz.
‘Era no tempo em que só um morto,
Contente por estar em paz, sorria.’

Anna Akhmátova sobreviveu a esse tempo. Não apenas fisicamente, o que já não deixa de ser uma proeza. Mas moral e poeticamente. Nas palavras de Mandel’shtam, Akhmátova conseguiu trazer a complexidade e a riqueza do romance russo do século XIX para a lírica do século XX. Fato. Mas conseguiu mais: como exemplo de resistência, a ‘Anna de Todas as Rússias’ legou ao seu povo uma impossibilidade de esquecimento. Em 1966, ano da sua morte, esse povo saiu à rua e, em silêncio, agradeceu.
Título e Texto: João Pereira Coutinho, Folha de S. Paulo, 20-8-2005, in ‘Avenida Paulista’, Edições Quasi, maio de 2008, páginas 64, 65 e 66

Um comentário:

  1. Indubitavelmente, Anna foi uma poetiza além do seu tempo. Direta, objetiva, séria, romântica, realista. Inesquecível. Mais que isso, eterna, etérea. Não importa o tempo que passe.

    'Torcia as mãos sob o xale escuro...
    "Por que hoje estás tão pálida?"
    - Fui dar a ele de beber minha amargura
    Até deixa-lo embriagado.

    Como esquecer? Ele saiu, cambaleando,
    Nos lábios uma horrenda contorção...
    Desci correndo, sem pegar no corrimão,
    E no portão segurei ele pela manga.

    Sufocada, eu gritei: "O que se deu
    foi brincadeira. Se tu fores, não aguento."

    Ele então com toda calma respondeu
    E com frieza: "Não te exponhas tanto ao vento."

    https://traducaoliteraria.wordpress.com/2016/03/04/anna-akhmatova-poemas/

    Tradução de André Nogueira (Ponto e Virgulina).

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