sexta-feira, 21 de abril de 2017

Qual Esquerda, Qual Direita!

Cristina Miranda

Não entendo como ao longo dos séculos ainda não se abandonou a terminologia esquerda e direita, com origem na Revolução Francesa. Pior do que isso foi atribuir uma carga negativa à direita de tal modo que ninguém se quer identificar com ela, quando deveria ser precisamente o oposto. É à esquerda que devemos as ligações aos piores ditadores de sempre, chacinas em massa, privação absoluta de liberdades, fome, miséria e injustiças. A História não mente. Agora mesmo a Venezuela é bom exemplo disso. Mas curiosamente, nas escolas, ainda hoje, passam a ideia que ser de esquerda é ser pelos desfavorecidos das classes trabalhadoras. Ser de direita é ser pelos ricos e opressores. Nada mais falso.

Com efeito, foi com a Revolução Francesa em 1789-1799 que a terminologia surgiu. Quando os jacobinos (radicais alinhados com a baixa burguesia e trabalhadores) e girondinos (moderados com tendência à conciliação e com boa articulação com a alta burguesia e nobreza) reuniram no salão da Assembleia Constituinte para redefinir os destinos de França, os primeiros, em busca de representatividade e legitimidade política, sentaram à esquerda, os segundos à direita, dando lugar a novos modelos políticos, sociais e culturais que viriam a espalhar-se pela Europa. A Revolução francesa era expressamente progressista influenciada pelo Iluminismo francês e os girondinos mesmo ligados à tradição estavam inseridos nesta perspectiva. Dito de outra forma, todos, quer uns quer outros lutavam à época contra a monarquia absolutista, divergindo apenas na forma de chegar à sociedade ideal.

Curiosamente foram os radicais jacobinos, que protagonizaram o Período do Terror onde defendiam o terrorismo de Estado, liderado por Robespierre e que supostamente pretendia fazer uma perseguição aos girondinos, mas que acabou por ser um extermínio de todos os opositores considerados inimigos da revolução, inclusive alguns dos próprios jacobinos que haviam sempre apoiado a mesma. Isto não vos lembra nada?

Nasceu a partir daqui o comunismo, socialismo, fascismo, liberalismo e por aí fora. Na sua base, todos querem uma sociedade mais justa com direitos iguais, sem pobreza, onde todos têm igualdade nas oportunidades. Porém, é a forma de lá chegar que os distingue profundamente. Os comunistas e fascistas acreditam que é no fim das classes sociais com um Estado forte totalitário, que concentra em si toda a atividade económica, distribuindo depois a riqueza consoante as necessidades de cada um, que está a sociedade perfeita e justa. Os sociais democratas e liberais entendem que pelo contrário, o Estado deve ser reduzido deixando livre a economia para fluir e gerar riqueza que depois fortalece o Estado Social de modo a que este assegure direitos fundamentais aos mais carenciados.

Ora, a História já comprovou as duas teorias. Os primeiros deram origem a ditaduras, algumas sanguinárias, sobre uma sociedade de pobreza extrema, manietada, oprimida, sem direitos e estão em vias de extinção no Globo. Os segundos, a sociedades que prosperam e crescem a olhos vistos carecendo apenas de uma maior regulação e controlo, projetando-as a níveis de desenvolvimento jamais registadas antes do século XIX. Dá que pensar.  Afinal qual é o modelo amigo dos pobres?

Acredito que é por mera ignorância promovida nas escolas que leva pessoas a pensarem que são de “esquerda” sem na realidade o serem. Porque quem defende o fim das injustiças sociais, da erradicação da pobreza, tem forçosamente de ser apoiante de uma corrente ideológica social democrata ou liberal. Nunca outra. Porque é precisamente ao estimular fortemente a economia, dando liberdade e espaço às pessoas para prosperarem e criarem postos de trabalho, que uma sociedade cresce para a erradicação da pobreza e nunca o contrário. Isto claro, enquanto o Estado Social se dedica apenas a promover o bem-estar dos cidadãos.  As correntes comunistas, pelo contrário, são desenvolvidas por burgueses e ensinam um grupo a viver à sombra do Estado prometendo prosperidade porque sabem que não podem assumir o poder sozinhos. Precisam de criar uma clientela à sua volta, no Estado, bem “alimentada” com promessas de bons salários e muitos direitos que lhes assegure o voto. E depois, em nome da igualdade condicionam as liberdades de todo um povo para governar “sem opositores”.

Por isso não há cá direita nem esquerda. Há apenas pessoas que acham que o Estado tudo lhes deve garantir sem terem de se esforçar muito, e outros que acreditam que é no trabalho e liberdade individual que se conquistam as coisas.

Sem demagogias e filosofias baratas trata-se apenas, numa linguagem simples, de lutas entre as cigarras e as formigas.

Só isto.
Título e Texto (e Formatação): Cristina Miranda, Blasfémias, 20-4-2017

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Por favor, evite o anonimato! Mesmo que opte pelo botãozinho "Anônimo", escreva o seu nome no final do seu comentário.
Não use CAIXA ALTA, (Não grite!), isto é, não escreva tudo em maiúsculas, escreva normalmente.
Obrigado pela sua participação!
Volte sempre!
Abraços./-