quarta-feira, 3 de maio de 2017

Dois anos vivendo na América: um balanço

Rodrigo Constantino

Imagem: AppleMark
Completei neste fim de semana dois anos de América. Ou melhor: de Flórida, uma espécie de América Latina que deu certo. O que mudou mais em minha vida nesse período? Qual o resumo dessa experiência? Que balanço faço dessa nova fase de minha vida, no primeiro mundo capitalista?

O leitor que acompanha meu blog já leu alguns textos sobre o assunto, especialmente aqueles que comparam nosso cotidiano com o dos americanos de classe média. Em Brasileiro é Otário? também incluí uma parte inteira com essas comparações, para chocar o leitor desavisado mesmo, mostrar aquilo que o Brasil poderia ser, mas não é.

Aqui, tentarei apenas fazer o resumo do resumo, de forma bem sucinta. Aos que tiverem interesse no assunto, recomendo a leitura do livro na íntegra. Vamos lá, então. O que tenho a dizer dessa minha “aventura” como expatriado ou autoexilado em Weston?

Para começo de conversa, a sensação de segurança. Claro! Venho da “cidade maravilhosa”, do lindo Rio de Janeiro, da beleza e do caos, dos arrastões e das balas perdidas. O motivo número um de fuga do Rio é esse: busca por maior segurança. E que diferença!

É quase impossível colocar em palavras a mudança de mentalidade ao se sentir seguro no dia a dia, em cada sinal de trânsito, ao andar na rua, ao ir a um shopping, em cada saída de casa, dentro de casa. Deveria ser o básico, eu sei, mas o brasileiro em geral e o carioca em especial perderam essa sensação faz tempo, e suas vidas se transformam num contínuo estresse. À simples aproximação de alguém em velocidade maior o sujeito já sente o coração palpitar, a adrenalina correr pelo corpo. Isso é vida?

Mas não é “apenas” isso que muda. É todo o entorno! As ruas bem cuidadas, os muros sem pichação, os jardins bonitos, as estradas sem crateras, os carros modernos trafegando por elas, tudo isso passa uma sensação de ordem, e o ser humano tende a apreciar essa ordem no lugar do caos, da bagunça, da poluição visual e sonora, da esculhambação. Ao longo do tempo, essa atmosfera de tranquilidade e beleza vai mudando o indivíduo, tornando-o mais calmo, sereno. A ordem externa ajuda na ordem interna.

Aí vem a questão dos serviços, resumida na frase da filha de um amigo: “Pai, aqui as coisas funcionam!” Sim, as coisas funcionam. Há menos “malandragem”, menos “jeitinho”, a sociedade é de confiança, partindo da premissa de que o outro não quer te enganar o tempo todo, e isso produz um efeito impressionante para quem está acostumado com a desconfiança generalizada do Brasil. Claro, há “malandros”, e quando são pegos, a lei funciona também: pagam um alto preço pela “malandragem”.

Outro aspecto que me marcou muito: a relativa igualdade nas coisas básicas. É verdade: o capitalismo leva à desigualdade material, o que é normal e até desejável, uma vez que cada um tem vocações, habilidades e sorte diferentes. A meritocracia e o acaso vão sempre gerar resultados desiguais. Mas o ponto é outro: o rico vive muito bem, mas o trabalhador de classe média também goza de uma vida digna!

O rico pode ter um carrão possante na garagem, mas o sujeito de classe média tem um carro com todo o conforto e segurança de que se necessita. Tem uma casa mais humilde, mas decente. O filho frequenta uma escola pública razoável, às vezes muito boa, como no caso da aprazível Weston, escolhida por tanta gente por esse motivo. E ambos vão trabalhar cedo como caixa do supermercado ou algo do tipo, para aprender como a vida é.

O rico não terá cinco empregadas vivendo em sua casa, que não terá dependência, ou elevador de serviço no prédio, tampouco uma cozinha fechada para trancar lá dentro a cozinheira. O rico colocará sua louça na máquina, fará seu jantar em sua cozinha aberta, integrada à casa, e vai cuidar do próprio filho, em vez de uma babá que não desgruda um só segundo do filho dos “ricos” brasileiros, até mesmo em restaurantes!

A mentalidade é outra. A do Brasil é aristocrata no mau sentido, quase escravocrata. A do americano, como também a do europeu, é de igualdade e independência. Como o filósofo Pondé argumentou em sua coluna desta segunda, esse trabalho em silêncio no dia a dia, mesmo nas classes mais altas na Europa, ajuda a forjar o caráter da pessoa. O ócio é a morada do diabo, dizem. O que esperar das crianças brasileiras criadas por suas babás?

Responsabilidade. Eis a palavra. O americano dá mais liberdade e cobra mais responsabilidade. Crianças aprendem desde cedo a se virar sozinhas, assumem funções na casa, trabalham no verão, valorizam o empreendedor. No Brasil, cuspimos nos empresários ricos, assumindo que são canalhas. E o pior é que muitos são, pois a corrupção campeia num modelo com excesso de intervenção estatal.

Eu poderia continuar, mas paro por aqui. Não quero despertar a inveja dos leitores, e sim a sua consciência. O antiamericanismo é forte em nosso país, fruto de uma classe “intelectual” invejosa, socialista. A América é uma grande nação. Não chegou aqui por acaso, muito menos por exploração ou guerras, como alegam os recalcados. Virou a potência que é por mérito próprio, por essa mentalidade calvinista e sua ética do trabalho, por um sistema mais liberal e valores morais sólidos. Tudo sob o ataque dos “progressistas” hoje, é verdade, mas que nem Obama conseguiu destruir!

Minha revolta maior é observar isso tudo, viver isso tudo, e saber que poderíamos ter algo parecido. Se ao menos o brasileiro médio mudasse sua mentalidade… Se ao menos a cultura brasileira fosse mudada… Mas isso é trabalho para mais de uma geração. E é justamente a batalha que escolhi como meta da minha vida, talvez por vocação, por indignação, por patriotismo. Sim, pode parecer paradoxal, e alguns chegam até a me acusar de ter “abandonado” o Brasil. Nada mais falso!

Ora, basta ver como ainda me dedico às mudanças do Brasil, escrevendo diariamente sobre isso, comprando brigas com grupos organizados e mafiosos. Mas faço isso da segurança de Weston, garantindo a integridade física e até intelectual da minha família. O que me deixa ainda mais ousado na hora de atacar os inimigos da nação. Não abandonei o Brasil, mas o Brasil cansa. E trata muito mal aquele que é sério, trabalhador, responsável.

Chega uma hora em que é preciso colocar as prioridades no devido lugar. Não quero ser mártir de nada, e devo à minha filha – e ao filho que nem nasceu ainda – fazer o que estiver ao meu alcance para lhes dar um futuro melhor. Estou convencido de que respirando ares mais civilizados, num ambiente capitalista e meritocrático, com a segurança que temos aqui, com aulas sobre Thomas Jefferson em vez de Che Guevara na escola (pública), tomei a decisão certa. Não volto ainda. Não sei quando volto.

Não quero me mudar do Brasil para sempre. Quero mudar o Brasil de sempre. E sigo na luta inglória, que testa ao limite nossa paciência. A minha é grande, felizmente. Vamos em frente!
Título e Texto: Rodrigo Constantino, Gazeta do Povo, 2-5-2017

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