sexta-feira, 12 de maio de 2017

Engana-me que eu gosto

João Pereira Coutinho

Espantoso: a revista Vanity Fair já publicou Dorothy Parker ou Robert Benchley. Hoje publica A.A. Gill, jornalista que visitou o Brasil para escrever um texto que dá pena. Diz Gill, com erudita sofisticação, que existem dois povos no mundo. Os que gostam de seios e os que gostam de ‘bundas’. Os americanos gostam de seios. Grandes. Enormes. Os brasileiros preferem as ‘bundas’. O filósofo Gill gosta de brasileiros, ou seja, gosta de ‘bundas’. E oferece um ensaio onde está o supremo cliché sobre o Brasil: apesar do crime, das favelas, da corrupção política e do fosso miserável entre ricos e pobres, o Brasil é só alegria. O Brasil é só ‘bundas’.

Será? Há uns meses, em Lisboa, comentei o fato com uma atriz brasileira que conhece por dentro as manifestações de alegria que o Brasil oferece ao mundo. E perguntei: era impressão minha ou a alegria do Brasil vinha sempre embalada numa tristeza funda – a tristeza própria de quem ri para não chorar?

Ela gostou da pergunta e contou uma história apropriada: a história de como os cariocas transbordam de agrado para as câmaras durante o Carnaval, mas regressam à melancolia sincera quando as câmaras de apagam. Questão de segundos. Ela própria presenciara o fenômeno repetidas vezes numa única noite: o sorriso, o festejo automático, a vibração do corpo perante as lentes; e, quando as lentes se afastam, o desânimo progressivo, o desencanto e finalmente a solidão. A imagem é perfeita como comentário de outra imagem: a imagem que os brasileiros constroem de si próprios para iludir a realidade em volta.

Foto: AG News

É um problema de autoestima. De ‘autoestima’, a palavra fatal que acabou por substituir outra. ‘Autorrespeito’. Não são a mesma coisa. Montaigne explica. A estima pressupõe o olhar dos outros sobre nós. O respeito pressupõe o olhar de nós sobre nós próprios. A autoestima depende da opinião alheia. O autorrespeito depende da opinião pessoal: de aceitarmos o que somos sem a obrigação tirânica de sermos o que os outros esperam que sejamos. Para Montaigne, é o autorrespeito que permite uma felicidade serena, ou possível. A autoestima, porque dependente de terceiros. É volátil como o vento. E gera uma insatisfação voraz que transforma qualquer ser humano num escravo.

Os brasileiros vivem para os outros, não para si próprios. E a constante preocupação com a imagem – uma imagem radiosa, perfeita e feliz – é apenas a expressão mais visível dessa escravidão: com menos rugas; mais seios; mais ‘bunda’; melhor nariz; e com a máscara jubilosa de quem passa pela vida a sambar, talvez a realidade seja sublimada, ou apagada. E talvez a tristeza não venha quando as câmaras se apagam.

Mas a tristeza vem quando as câmaras se apagam. Porque ela sempre esteve lá. E a realidade permanece intocada pelo som efusivo do pandeiro: crime, favelas, corrupção política, o fosso miserável entre ricos e pobres. E a obrigação pessoal, e crescente, e permanentemente, de sorrir para as câmaras. De sorrir para os outros.

Até quando, Brasil? Até quando negarás que não existe coisa mais triste do que a alegria do teu povo?
Título e Texto: João Pereira Coutinho, Folha de S. Paulo, 12-9-2007, in ‘Avenida Paulista’, Edições Quasi, maio de 2008, páginas 88 e 89.
Digitação: JP

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