sexta-feira, 4 de agosto de 2017

O suicídio do presidente

Alberto José

No dia 5 de agosto de 1954, na rua Tonelero, em Copacabana, duas balas tiraram a vida do Major da Aeronáutica Rubens Florentino Vaz, que fazia a segurança do deputado Carlos Lacerda [foto] que estava em campanha agressiva contra o PTB e o presidente da República, Getúlio Dornelles Vargas.


A partir desse crime, as investigações foram centralizadas pela Aeronáutica que, juntamente com a Polícia Civil chegou ao suposto assassino, de nome Alcino e ao mandante, Climério, membro da Guarda Presidencial, comandada pelo (Tenente) Gregório Fortunato.

Na conclusão dos comandantes militares, o crime foi de responsabilidade do presidente e, no dia 23 de agosto, foi apresentada a ele a decisão dos militares para que ele renunciasse a fim de poderem dar continuidade às investigações.  Getúlio Vargas respondeu aos militares que “não renunciaria e do Palácio só sairia morto”!

No dia 24 de agosto de 1954, eu tinha 13 anos e fui para a escola pública Amaro Cavalcanti, situada no Largo do Machado, a cerca de 500 metros do Palácio do Catete. Cheguei às 7h da manhã e vi no portão o aviso que, devido à situação instável da ordem pública não haveria aulas naquele dia.


Vendo os carros da Polícia e do Exército se dirigindo para o Palácio do Catete, resolvi ir até lá para saber o que iria acontecer em seguida. Quando cheguei, o Palácio estava cercado pelo povo que gritava: “desce, covarde, assassino, filho da puta”, mandando que Getúlio saísse e fosse para a rua!

Furei aquela massa de pessoas desatinadas e fiquei bem embaixo da sacada do quarto do Getúlio, na esquina da Rua do Catete com a Rua Silveira Martins. O tumulto era muito grande e o povo revoltado não parava de escorraçar e ofender o presidente!

Às 7h40, aproximadamente, muitos que estavam próximo ouviram o barulho de um tiro. Cerca de vinte minutos depois, trajando um terno bege, o ex-ministro, jornalista Lourival Fontes, amigo do presidente Getúlio Vargas, abriu as grandes portas da sacada, olhou para o povo que continuava a gritar e anunciou: “O presidente está morto!”


Durante toda a vida, eu jamais passei por uma experiência igual à que aconteceu naquele momento. Quando o povo ouviu o anúncio, em fração de segundos, senti que uma carga elétrica poderosa percorreu a multidão, como se alguém tivesse ligado um cabo de alta voltagem naquele povo que cercava o Palácio.

A partir desse momento, o povo começou a gritar e a chorar bradando: “desgraçados, assassinos, mataram nosso presidente, corvo filho da puta, gorilas, comunistas” e coisas desse tipo!

Ao mesmo tempo, saíram quebrando tudo, virando bondes e ateando fogo aos carros dos jornais O Globo, Diário de Notícias e Tribuna da Imprensa que distribuíam nas bancas as edições extras pedindo a renúncia do presidente.

O povo saiu correndo pela Rua do Catete e pela Praia do Flamengo até à Cinelândia, onde aumentaram as depredações.  Uma parte do povo foi atacar a Embaixada Americana na Rua México e outro grupo maior foi para o Largo da Carioca.

No Tabuleiro da Baiana, terminal dos bondes da Zona Sul, um jovem escalou uma parede para derrubar um painel do Lacerda e foi derrubado por um tiro nas costas, desferido por um policial.

O povo cercou o policial que foi desarmado e linchado até a morte!

A partir daí, durante 48 horas as ruas foram tomadas pela temida Polícia Especial, cavalaria da PM e tropas do exército e aeronáutica que atiravam com tiro real e lançavam granadas de gás contra o povo!

Dependendo do momento, a reação popular é imprevisível! 
Título e Texto: Alberto José, 3-8-2017

Um comentário:

  1. http://beradeirocurioso.blogspot.com.br/2014/09/conspiracao-na-morte-de-vargas-sera.html

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