segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Ainda bem que Merkel não é como Costa

João Marques de Almeida

Nos próximos quatro anos a tentação em Berlim será gerir a Europa de modo a impedir o aumento do eleitorado do AfD. Reformas ambiciosas ficarão para o futuro. O AfD exige menos Europa e menos despesas.


Se Angela Merkel fosse como António Costa, tentaria fazer uma coligação à direita, incluindo a direita radical e populista, o AfD. As eleições alemãs deram uma maioria de cerca de 55% aos partidos de direita. Se Merkel pensasse como Costa, tentaria construir uma geringonça alemã. Não é a esquerda portuguesa que nos diz que a geringonça é um exemplo para a Europa? Ou será um modelo apenas para as esquerdas? As direitas estão impedidas de geringonçar? Se Merkel agisse politicamente como Costa e colocasse uma geringonça alemã no poder, a novidade seria má para um país como Portugal. A tolerância de um governo alemão desse tipo para dívidas elevadas e programas monetários do BCE seria nula. Mas, para bem dos portugueses, da Europa e do próprio Costa, Merkel não é como o nosso PM.

Este exercício de especulação política mostra a fragilidade do argumento dos partidos da geringonça de que a diferença entre esquerda e direita é mais importante do que as diferenças entre partidos democráticos e liberais e forças políticas populistas, antidemocráticas e antieuropeias, as quais existem nas esquerdas (PCP, BE, Podemos, etc.) e nas direitas (AfD, Frente Nacional, UKIP, etc.). O resultado das eleições alemães mostra que os críticos da geringonça têm razão. Na política europeia, há diferenças mais relevantes do que a simples distinção entre a direita e a esquerda. Por isso, Merkel não fará uma coligação com o AfD.

Na sua primeira declaração após conhecer os resultados eleitorais, Merkel foi mesmo mais longe. Identificou o AfD como o principal adversário a combater nos próximos quatro anos. Merkel, a CDU e a CSU sabem que o AfD tirou a maioria absoluta ao centro direita alemão. Aconteceu precisamente o que mais temiam: a emergência de uma força política populista e nacionalista a roubar votos à CDU, ao CSU e ao FDP. Sem o AfD, os democratas-cristãos e os liberais teriam tido uma maioria confortável. O crescimento do AfD constitui também um aviso para a Europa e para as políticas europeias de Berlim.

O resultado das eleições alemãs foi uma derrota para Macron. A sua ambição para o futuro da zona Euro, sobretudo no lado da despesa comum europeia, não resistirá ao crescimento do AfD. Para ser forte na Europa, Macron precisava de uma Merkel forte. Uma Merkel mais enfraquecida fará de Macron um líder mais fraco. Para os próximos quatro anos, a tentação em Berlim será gerir a Europa de modo a impedir o aumento do eleitorado do AfD. Reformas ambiciosas na Europa ficarão para o futuro. Com o SPD fora do governo e com uma oposição forte à sua direita, Merkel terá o mandato mais difícil de todos. O SPD vai pedir mais Europa e mais políticas sociais. O AfD vai exigir menos Europa e menos despesas.

Com o SPD de regresso à oposição, a formação de uma coligação será um exercício difícil para Merkel. A CDU perdeu cerca de 9% de votos em relação à última eleição e sofreu o pior resultado desde que Merkel assumiu a liderança do partido (afinal a grande coligação não foi má apenas para o SPD). Os democratas-cristãos precisam dos Liberais e dos Verdes para formarem um governo maioritário. E será essa a primeira opção de Merkel. As negociações serão, contudo, complicadas. Não será nada fácil para os Verdes irem para um governo de direita, sobretudo com o SPD e o De Linke na oposição. A CSU, com eleições na Baviera no próximo ano, será um negociador exigente e difícil. A Europa fará parte das negociações para o governo de coligação. A CSU e os Liberais já disseram que um orçamento na zona Euro para pagar as despesas da França e da Itália está fora de questão.

Se Merkel não conseguir formar um governo maioritário, poderá ficar à frente de um governo minoritário, com os Liberais. Aqui a dúvida seria se teria o apoio parlamentar dos Verdes ou não. Um governo minoritário poderá levar a eleições antecipadas e à abertura da discussão sobre a sucessão de Merkel à frente da CDU. A Alemanha assistiu ontem ao pior resultado combinado dos dois principais partidos, a CDU/CSU e o SPD, desde a Guerra. Os alemães assistiram igualmente à entrada da extrema direita nacionalista e antieuropeia no Parlamento, pela primeira vez na história da Alemanha Federal. Assistiram ainda ao início do fim para Merkel. Não há razões para celebrar.
Título e Texto: João Marques de Almeida, Observador, 25-9-2017

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