quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Culpa do Trump

O presidente dos EUA veio ao mundo para assumir os pecados da humanidade. Ele é culpado, agora, de ameaçar a Coreia com a bomba atômica

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante reunião sobre a reforma das Nações Unidas na sede da ONU em Nova York - 18/9/2017. Foto: Brendan Mcdermid/Reuters
J.R. Guzzo

É curioso. Até alguns dias atrás, qualquer pessoa com a sua atividade cerebral razoavelmente em ordem seria capaz de jurar que quem ameaçava os inimigos, os vizinhos ou o resto do mundo com um ataque nuclear era a Coreia do Norte. Disparou um míssil que sobrevoou o Japão – e se passou de um lado para outro, poderia muito bem cair dentro. O foguete não era um buscapé; era uma bomba atômica. Antes disso, o ditador coreano, indivíduo até agora considerado realmente capaz de detonar armas nucleares de ataque, ameaçou sabe-se lá quantas vezes bombardear os Estados Unidos e quem mais lhe desse na telha. Faz isso há meses, aliás. De repente, vai se ver o noticiário e ficamos informados que quem ameaça a Coreia, e possivelmente o resto da humanidade, é Donald Trump – sim, ele mesmo, o presidente dos Estados Unidos. O que houve com “a narrativa”, como qualquer mané adora dizer hoje, a respeito de qualquer coisa? Houve que Trump anunciou o seguinte: a Coreia do Norte será “destruída totalmente” se jogar uma bomba atômica no país que ele preside.

Ninguém é a favor de um horror desses, é claro – a não ser o próprio ditador da Coreia, caso se acredite no que ele diz. Mas a ameaça passou a ser Trump. O perigo agora é ele. Quem põe em risco a paz mundial é ele. O governante irresponsável é ele. O maluco beleza é ele. Tudo é ele. E o outro? Parece que já não vale mais. Não é “à ganha”; é “à brinca”. Deve ser só o gordinho sinistro dos gibis. No fundo, ele não quer fazer mal a ninguém, coitado. Problema, mesmo, é esse Trump. Daqui a pouco, a continuar assim, teremos a CNBB, as classes artísticas brasileiras e os militantes dos direitos humanos lançando manifestos em solidariedade ao povo da Coreia e exigindo um boicote mundial contra os Estados Unidos.

É possível que tudo isso só exista na mídia, ou muito mais na mídia do que na realidade, como foi com o “bug do milênio”, o fim das reservas de petróleo e o colapso do capitalismo por causa da Grécia. Falam, falam, falam e no fim acaba não acontecendo nada. A bomba atômica só foi usada uma vez na história mundial, em duas explosões separadas 72 anos atrás. Não quer dizer que não possa ser jogada de novo, mas seria bom admitir que nesse meio tempo houve uma guerra fria inteira, uma guerra no Vietnã, várias guerras do Oriente Médio, etc. – ou seja, não se sai por aí jogando bomba atômica nos outros como se vai na farmácia comprar um melhoral.

Mas é justamente para não ter o trabalho de pensar que tanta gente, cada vez mais, recorre à ajuda de Trump. O que seria do mundo se não houvesse aí um Trump, disponível 24 horas por dia, para levar a culpa de tudo? Nada mais cômodo, em momentos de incerteza real ou imaginária, do que acusar alguém e dar o problema por resolvido. Donald Trump é o grande Judas multiuso que o mundo tem hoje. 
Título e Texto: J. R. Guzzo, VEJA, 20-92017

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