quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Política e economia, hoje, desmentem James Carville, vide Trump e Temer

Cesar Maia

1. James Carville, publicitário responsável pela primeira campanha presidencial de Bill Clinton, ganhou notoriedade com a vitória de Clinton sobre Bush pai, candidato à reeleição. Bush abriu a campanha disparado na frente, após a primeira guerra no Iraque, transmitida em tempo real pela CNN, e com vitória rápida e decisiva dos EUA. Na Guerra do Golfo (08/1990-02/1991), Bush teve a seu lado os destacados generais Colin Powell – secretário de estado - e Norman Schwarzkopf – comandante das operações -, estrelas da mídia naquela conjuntura.

2. Surpreendentemente, na parte final da campanha, a diferença pró-Bush foi diminuindo, até que Clinton se aproximou. Numa das reuniões de Carville com sua equipe, ainda com Bush favorito e na dianteira, gravada em vídeo e depois amplamente divulgada após a vitória de Clinton, as dúvidas ainda persistiam. Carville, de pé e aos berros, determinou a estratégia da vitória: “É a economia, estúpido”!!!!

3. Carville realizou uma ampla pesquisa com cerca de 40 perguntas. Em todas – menos numa - os temas levavam Bush à vitória. A exceção foi a economia e o emprego, que depois do auge, durante a Guerra do Golfo, começavam a declinar. Carville focalizou a campanha no emprego/economia, apenas um dos 40 temas pesquisados, e sua frase ficou famosa. Ou seja, a situação da economia conduziria o resultado eleitoral. Essa frase passou a ser um carma para os marqueteiros.

4. A situação de hoje, nos EUA de Bush, contraria essa tese da economia como fator determinante da política e da popularidade presidencial. O desgaste de Trump nos EUA e no mundo todo vem destacado pelas pesquisas de opinião que o colocam com a pior aprovação presidencial por décadas. Mas a reversão econômica e o crescimento de 3% ou pouco mais, nos últimos dois trimestres, com queda do desemprego e da inflação, não afetou a sua avaliação. Sua impopularidade mantém-se e agrava-se.

5. No Brasil ocorre fato semelhante. Temer convive com uma impopularidade recorde. Desde que assumiu a presidência após o impeachment de Dilma, a curva de sua avaliação é declinante, chegando agora a uns 5% de avaliação positiva.

6. Mas ao lado dessa curva – declinante e sustentada - os gráficos com os indicadores econômicos mostram trajetória completamente invertida agora no segundo semestre de 2017. A economia voltou a crescer e os analistas falam que a recessão acabou. O desemprego começa a diminuir e é assim nos últimos quatro meses. A inflação despencou para um nível de 3%, raro nos anos pós Real. O setor externo apresenta saldos crescentes. Os juros vêm sendo reduzidos, atingindo agora quase a metade do que estavam na transição do impeachment.

7. Temer mostra forte vitalidade no Congresso, mesmo debaixo de um enorme noticiário negativo com as duas denúncias apresentadas contra ele pelo Procurador Geral Janot. O professor Carlos Pereira, doutor em ciência política pela New School University, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e professor visitante na Universidade Stanford, em estudo recente publicado no caderno Ilustríssima da Folha de São Paulo (29/10/2017) demonstra com dados e gráficos que desde FHC, “Temer é o presidente mais eficiente na relação com o Congresso desde 1995”.

8. Nesse estudo, Carlos Pereira mostra que Temer tem o menor custo-benefício no jogo parlamentar. Isso desmente o noticiário que atribui o apoio a Temer a uma política abusiva de clientela – com cargos e emendas - que seria recorde na votação das duas denúncias. Isso que estas votações retardaram a votação das reformas econômicas que restam e levantaram dúvidas sobre as suas aprovações.

9. É provável que vencida a turbulência dessas votações na Câmara de Deputados, onde Temer obteve uns 55% dos votos, precisando de 33%, essas votações retornem às pautas e ordens do dia. Mas, assim mesmo, não há qualquer expectativa que ocorra uma reversão significativa e abrupta na avaliação de Temer. A política de clientela não explica os votos dos deputados que estão atentos às suas bases a apenas um ano das eleições de 2018.

10. Os casos de Trump e Temer desmentem a assertiva de Carville como uma regra geral, compulsória e inexorável nas correlações entre Economia e Política em relação aos chefes de governo. Isso deve animar os “mercados”. 
Título e Texto: Cesar Maia, 1-11-2017 

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