sábado, 2 de dezembro de 2017

Uma semana no Terceiro Mundo

Alberto Gonçalves

Felizmente o dr. Rio dá uma ajuda: a comissão de honra e a lista de apoios declarados, repletos do pior entulho oligárquico que o partido produziu em décadas, são quase um manifesto favorável ao rival

Domingo

Quarenta anos após o 25 de novembro de 1975, que nos apresentou a um regime ligeiramente similar às democracias civilizadas, um golpe de sentido inverso subverteu os resultados eleitorais e convidou dois partidos comunistas a partilhar o poder. Em quase toda a parte, a ascensão de forças totalitárias é um alarme e uma aflição. Em lugares exóticos, é motivo de celebrações: a 26 de novembro de 2017, o governo achou que a concessão do país à prepotência material e à indigência mental merecia um “evento” especial e o “evento”, uma sessão de perguntas ao primeiro-ministro a cargo de “espontâneos”, aconteceu.

Como é natural, a comemoração de uma fraude, ou de dois anos de sucessivas fraudes, merecia ser assinalada através de nova fraude. O controlo dos “media” ainda não é o suficiente para esconder que os “espontâneos” eram, afinal, figurantes contratados, as perguntas eram gentilmente combinadas e as respostas, de facto temerárias incursões do dr. Costa pela língua portuguesa, eram uma encenação pelintra. Um vídeo, publicado no Observador, exibiu as atividades dos senhores ministros durante o circo: remover cera dos ouvidos, dormir, tirar macacos do nariz, brincar com o telemóvel, comer os macacos.

Foi, em suma, um espetáculo de propaganda típico da Bolívia com que muitos sonham. E foi, dentro do subgénero Propaganda Boliviana, um espetáculo bonito. A única dúvida é perceber quem saiu mais dignificado do mesmo. Talvez o governo, generoso a ponto de esbanjar a réstia de vergonha que nunca demonstrou possuir. Ou os figurantes, gente tão feliz e honrada que se vende a intrujões por trocos e merenda. Ou as televisões, que ávidas de informar transmitiram a farsa depois de a farsa ser exposta. Ou Portugal em peso, que podia estar a imitar nações a sério e está nisto.

Terça-feira

O dr. Centeno, especialista em fazer aos macacos do nariz aquilo que, nas horas vagas, faz aos rendimentos dos cidadãos que não trabalham para o Estado, é candidato a liderar uma coisa chamada Eurogrupo. O dr. Centeno concorre contra criaturas do Luxemburgo, da Eslováquia e da Letónia. Por sorte, e engenho, a vitória do dr. Centeno parece assegurada, talvez porque a nossa dívida pública é incomensuravelmente superior à dos pobres rivais, talvez porque alguém tem de ir lá parar.

Certo é que, como tudo o que cheire a cargo internacional, inclusive os que não possuem nenhum peso ou implicam mérito além da obscuridade periférica e “imparcial”, o país oficial e oficioso derrete-se com façanhas assim. Por algum motivo, convencionou-se que despejar, a título de penduricalho, um compatriota em lugar de “prestígio” é desculpa para cada português entrar em delíquio nacionalista. Mesmo quando o lugar de “prestígio” era desconhecido de toda a gente meia hora antes e o compatriota disputa o cargo com portentos igual e radicalmente anónimos.

Descontado o pasmo dos pategos, não acho mal. Em princípio, aprovo qualquer pretexto para pegar numa “personalidade” indígena e despejá-la bem longe (embora não faça alarde disso, fui um entusiasta do envio do eng. Guterres para os campos de refugiados e para Nova Iorque, não necessariamente por esta ordem). O problema é o cargo em questão ser, ao que consta, cumulativo, pelo que o dr. Centeno manterá as funções caseiras que tantas alegrias proporcionam aos jornalistas da RTP e da TVI. E, ainda que não mantivesse, o dr. Costa seria perfeitamente capaz de o substituir sem subir o nível do titular nem baixar a dívida. Caso o dr. Centeno ganhe, esta é daquelas situações em que mais ninguém ganha.

Quarta-feira

O PSD tem muito menos encanto na hora da despedida de Pedro Passos Coelho. Terminada a vigência desse homem afinal tão decente que se calhar passou por aqui ao engano, o que sobra? Sobra, pelos vistos, o socialismo nem por isso envergonhado de Santana Lopes e de Rui Rio, sobre os quais não é fácil arranjar um argumento que os distinga. Felizmente, o dr. Rio dá uma ajuda: a sua comissão de honra e a sua lista de apoios declarados, repletos do pior entulho oligárquico que o partido produziu em décadas, são quase um manifesto favorável ao rival. Nomes como Ângelo Correia, Manuela Ferreira Leite, Couto dos Santos e Ferreira do Amaral, isto para não falar das paixões assumidas de Pacheco Pereira ou daquele sr. Capucho, são, ou parecem ser, razões sucessivas para um optimista achar que, apesar de tudo, o PSD ficará mais bem servido com o embaraçoso dr. Santana. Mas um realista percebe que o país está desgraçado.

Quinta-feira

Não tenciono elogiar Belmiro de Azevedo. Por um lado, porque não venero ou abomino homens de negócios. Empresários a sério, por oposição aos espécimes que usam o epíteto, mas não largam o Estado, agem por interesse próprio e deixam que os efeitos secundários do seu trabalho aconteçam naturalmente e não se prestem a grandes juízos de valor – e assim é que deve ser. Por outro lado, não é preciso elogiar Belmiro de Azevedo na medida em que os partidos comunistas com representação parlamentar já se encarregaram disso. Ao negar, por oposição assumida ou abstenção cobardolas, o voto de pesar na AR, PCP e BE prestaram ao dono da Sonae a maior homenagem possível: é bom que uma pessoa parta entre o amor dos que lhe são próximos, e o ódio dos que lhe são distantes. Ser detestado, até na hora da morte, por uma corja devota de tiranos e tiranias é sinal de que, nas horas da vida, se fez alguma coisa bem-feita. Será com certeza o caso. 
Título e Texto: Alberto Gonçalves, Observador, 2-12-2017

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