domingo, 11 de fevereiro de 2018

Champigny-sur-Marne: No tempo dos portugueses


Esta comunidade do Val-de-Marne foi cenário de um ataque violento contra as Forças Policiais durante a noite de São Silvestre. Sessenta anos antes, a cidade alojava o maior bidonville de França.

Noémie Halioua

A cada São Silvestre, o comum dos mortais deseja “bom ano”, bebendo champanhe, enquanto os guardiões da paz tentam controlar os delinquentes que só querem brigar. Infelizmente, o ano de 2018 não decepcionou. Desta vez, foi Laurie, policial de 25 anos, que lincharam em Champigny-sur-Marne: bofetadas, insultos e socos. Dezenas de jovens encapuzados se deram o prazer de lhe bater e cuspir, enquanto outros filmavam com os seus celulares. Cena quase comum nos quarteirões sensíveis, onde a frustração de uma juventude suburbana amamentada no ressentimento vitimário transforma-se em hiper violência contra os representantes do Estado.

Mas essa hostilidade não se explica certamente pelas suas condições de vida: meio século antes, a mesma cidade, Champigny-sur-Marne, albergava o maior bidonville¹ de França. Lá, quase 14 000 imigrantes portugueses encontraram refúgio, fugindo da ditadura de Salazar, o serviço militar, a miséria... “Quase todos os portugueses que imigravam nessa época passaram por Champigny”, afirma Valdemar Francisco, presidente da associação portuguesa “Les Amis du Plateau” (Amigos do Planalto). Enquanto a França vivia a expansão industrial dos “Trinta Gloriosos”², ela oferecia a essa mão-de-obra trabalho, mas habitações de condições deploráveis: aliás, esses anos são conhecidos como anos de ‘sem’. “Sem água, sem eletricidade, sem saneamento, sem recolha de lixo, etc. E sem violência, nem associação para gritar racismo. A integração no final do caminho. Quem pode então negar a decomposição francesa?”, questionava o jornalista do Figaro, Alexandre Devecchio, nas redes sociais. Diferentes tribunas no Bondy Blog, Médiapart e Le Monde criticaram-no por comparar as imigrações, já que se deveria constatar a diferença de época.

Chegada à estação de Austerlitz, em Paris, com a casa às costas!... 1965, foto: Gérald Bloncourt

Bidonville de Champigny-sur-Marne, 1963. Foto: Paul Almasy/AKG-images/Museu Nacional da História e das Culturas da Imigração
Apesar do meio ambiente precário, os Portugueses de Champigny não se refugiaram num comunitarismo sectário, não alimentaram ressentimento contra o país de acolhimento a ponto de agredir uma jovem mulher em uniforme. Eles se submeteram às regras do Estado, custo do esforço de integração. A República era, no entanto, severa. Por exemplo, existe esta anedota célebre entre os portugueses. Um dia um imigrante pendurou uma bandeira de Portugal na frente da sua barraca, chegou um agente de polícia que lhe pediu para retirar a bandeira: o que ele fez sem pestanejar. Posteriormente, os filhos destes trabalhadores foram para a escola e juntaram-se à nação francesa.

Bidonville de Champigny-sur-Marne, 1964. Foto: Gérald Bloncourt/Rue des Archives
Há dois anos, a associação “Les Amis du Plateau” inaugurou um monumento em homenagem à cidade e a Louis Talamoni, prefeito de Champigny entre 1950 e 1975, em agradecimento pela ajuda que lhes prestou durante o seu mandato: “Queremos homenageá-lo porque ele nos estendeu a mão [...]. Ele distribuiu cobertores, contratou ônibus para levar as crianças aos banhos, criou uma escola... Era um homem de convicção”, saúda Valdemar Francisco.
Título e Texto: Noémie Halioua, L’Incorrect, nº 6, fevereiro de 2018.
Tradução e Edição: JP


¹ A expressão bidonville, cuja tradução literal é ‘bairros de lata’ (casas feitas com tambores metálicos), está traduzida em português por “favela”, foi o que encontrei. Na minha opinião, não é a mesma coisa. Na favela não existe a transitoriedade daqueles. Isto é, as pessoas optam por residir nas ‘favelas’ por várias razões, nem todas de cariz econômico, mas o fazem de forma, vamos dizer, permanente. É só olhar os materiais utilizados, os puxadinhos, anexos e etc. Os bidonvilles d’então tinham um caráter provisório. Isto é, as pessoas iam para o bidonville por falta de opção, não tinham dinheiro para alugar o que quer que fosse. De lá, trabalhavam almejando uma vida melhor, para elas e para os seus filhos. A grande maioria conseguiu, são hoje parte integrante da França. E o bidonville acabou em 1971.

² “Trente Glorieuses” (trinta anos gloriosos), expressão cunhada pelo economista francês, Jean Fourastié, no livro do mesmo nome, publicado em 1979. Refere-se aos trinta anos, desde 1945 até ao primeiro choque do petróleo, em 1973, de forte crescimento econômico e desenvolvimento de alguns países da Europa Ocidental, o Canadá, o Japão e a Austrália.

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Um comentário:

  1. Le festival des violences gratuites - Journal du mercredi 14 février 2018
    https://youtu.be/cFEAoD6yJpo

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