sábado, 10 de fevereiro de 2018

O valor do respeitinho


Inês Teotónio Pereira

O respeitinho não está na moda. Ter respeitinho aos pais, aos mais velhos, às instituições ou aos professores é coisa do tempo dos filmes mudos. O respeitinho é o respeito só porque sim: sem razão aparente levantamo-nos, deixamos passar primeiro, não interrompemos nem falamos por cima, não discutimos e obedecemos. Respeitinho é qualquer coisa que nos faz engolir em seco, provoca uma fúria interior quase incontrolável e que acaba com um singelo "sim, pai". Ou seja, é o único garante de uma ordem mínima na sociedade e nas famílias sem que o Estado tenha de intervir.

Mas hoje respeitinho é quase maus-tratos, é restringir a liberdade das crianças, humilhar os jovens, vá. Um dos meus filhos disse a uma professora que "em minha casa educaram-me a dizer sempre aquilo que penso" e ele tem imensas opiniões sobre educação de adolescentes, disciplina, matemática, o mundo em geral. Obviamente que a coisa não correu bem. Ele acha uma injustiça não o ouvirem na exata medida em que ele ouve os outros, que a sua opinião não seja tão considerada quanto a dos pais e acredita que está em pé de igualdade com o Papa e com o Presidente da República. E responde. Responde sempre. E quando não responde encolhe os ombros e entorta a boca: "O que é isso, ser insolente?" Só quando o ameaçamos de morte é que ele baixa o queixo e rosna um "sim, mãe".

No outro dia soube de uma mãe que bateu no filho e ele foi para a escola com uma marca na cara. A escola fez queixa à CPCJ e a criança está sinalizada. Pumba: um estalo e o processo. E uma pessoa fica parva. Tirando Nossa Senhora e a mãe do Ruca, que mãe já não se passou com os filhos? E por quê? Por causa do "o que é isso, ser insolente?" depois de hora e meia no trânsito e nove horas de trabalho.

Há uma idade em que eles são maiores do que nós e acredito que todas as regras da educação foram pensadas em função desse dia. Ou seja, para que eles tenham respeitinho quando nós já tivermos força para impor respeito. Uma amiga minha mandou o filho de 15 anos e de um metro e setenta para o quarto de castigo e ele respondeu "não vou". E não foi. Lembro-me de a minha avó dizer a um dos irmãos para se baixar porque ela queria dar-lhe um tabefe (a minha avó dizia tabefe), já que ele não tinha idade para levar uma palmada no rabo. E o meu irmão, com respeitinho, baixou-se. Por isso é que a minha avó morreu em casa dela, rodeada de netos e filhos. Porque respeitinho e amor são as duas faces da mesma moeda.
Título e Texto: Inês Teotónio Pereira, Diário de Notícias, 10-2-2018

2 comentários:

  1. Agora é tarde, não adianta reclamarmos. 'O mal da juventude atual é ter tudo, menos o essencial". De quem é a culpa? Da família? Da sociedade? Quem é que está sofrendo as consequências? Lógico: a família e a sociedade.

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  2. Não adianta colocar a culpa na família e na sociedade.
    O ESTATUTO DA CRIANÇA E ADOLESCENTE DESTRUIU A FAMÍLIA.
    A DIVERSIDADE DESTRUIU A FAMÍLIA.
    A DIVISÃO DE CLASSES DESTRUIU A SOCIEDADE.
    AS LEIS INÓCUAS FACILITARAM A CRIMINALIDADE.
    De fato, ter filhos é uma benesse, largá-los em creches, sendo cuidado por "TIAS" UMA DESGRAÇA ANUNCIADA.
    Justamente os filhos das tias perderam a noção de família, de educação e responsabilidades.
    Pais que colocam filhos para dormir e agradá-los com presentinhos de fins de semana.
    Antigamente eu alegava que somente nos cemitérios e nas igrejas viam-se diferenças sociais.
    Hoje, além dos citados, vemos nas escolas, nos seus celulares, nas suas mochilas, etc...
    No meu tempo calça curta era motivo de bulling.
    Hoje eles usam bermudas, elas com meia banda da bunda de fora.
    A MAIOR CULPA É DA CONSTITUIÇÃO E SEUS ESTATUTOS.
    Se eu roubasse um lápis na escola, apanhava de relho, hoje virou conselho.
    Eu ficava sem meu futebol no campinho, das bolas de gude e da batalha de piões.
    Eu soltava pipa por diversão, hoje pais malditos ensinam cerol.
    Vivemos na sociedade em que destruir é mais vantajoso que construir.
    LEGO é brinquedo de pobre.
    As crianças brincavam de mocinho e bandido e a criminalidade era menor, sabia-se a diferença entre o bom e o mau.
    Fazíamos guerra de bexigas, ovos e tomates.
    Eu ficava na praça esperando as meninas do colégio de freiras soltar e fazer fiu-fiu, elas riam e não nos acusavam de assédio.
    O romance acabou.
    fui...

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