terça-feira, 3 de abril de 2018

[Aparecido rasga o verbo] Quando o feto suga em língua compassiva

Aparecido Raimundo de Souza

ENQUANTO UMA MARIPOSA solitária busca a morte na lâmpada clara da sala enorme, o rapaz chega da rua e, sem pedir a benção a quem ali se encontra, oculto em seu silêncio, manda a pergunta:
- Pai, dá pra me descolar a “caranga?”.
O pai, em resposta, quieto em seu torpor, como um ser abandonado, fuzila o filho. Explode:
- Deus te abençoe, meu filho. E boa noite pra você também. “Caranga?”. Nem pensar. Está lembrado da última vez que caí na besteira?
- Esquece aquele dia, Pai.
- Como esquecer? Além de você ter ido parar no hospital ainda fiquei uma semana com o carro preso.
- Passou, Pai. Pedi desculpas ao senhor umas mil vezes.  Não trazendo à tona, só lembrando, paguei todos os prejuízos causados.
- Desculpar até desculpei, filho, você sabe disso. Não sou de guardar mágoas. Esquecer, porém, na minha idade, acredito demorará um bocado. Tudo bem que você ressarciu os prejuízos. Tenha em mente, entretanto, um fato de suma importância. Foi com meu dinheiro.

- Mesada, Pai. Com minha mesada.
- O que no fim das contas nos leva ao mesmo ponto de partida. E a vergonha? Acaso se recorda do vexame que tive de suportar perante meus colegas da repartição lá na Polícia Federal? Para seu governo, aguentei uma enxurrada de gracinhas e constrangimentos a semana inteira, inclusive de meus subordinados!
- Pai, vamos apagar esse incidente. Estou com uma “mina” nova no pedaço. Vai me deixar na mão?
- Acertou na mosca. Vou sim. Aliás, sem nenhum constrangimento.
- Ela tem dezoito anos, é modelo fotográfico e, dentro em breve, estará numa revista masculina de circulação nacional exposta em todas as bancas, peladinha, sem nada, mostrando tudo, como veio ao mundo... 
- E eu com isso? Desista, filho. A resposta continua sendo não!

- Só hoje, Pai. Prometi levá-la a um restaurante...
- E depois?
- Ainda não pensei.
- Esse é o problema, filho... o depois...
O rapaz força um sorriso que se expande fraco no rosto entristecido.
- Veja pelo lado bom da coisa, Pai. O máximo que poderá rolar é um motel de beira de estrada. Afinal, “tal pai, tal filho!”.
- Uma ova! Pare com essa história de “tal pai, tal filho”. No meu tempo não havia essas mordomias. Ai de mim se pedisse o automóvel a meu pai, seu avô.
- Pera lá. – ressaltou o jovem.  - E se o senhor viesse junto?
- Segurando vela? Acaso me acha, aos sessenta e cinco anos com cara de castiçal?
- O senhor não coopera. Leva tudo a ferro e a fogo.

- Por essa razão cheguei ao patamar em que estou – arrazoou em obstinada rejeição. - Na sua idade, dava um duro danado para ajudar em casa.
- Não sou nenhum vagabundo. Tenho meu trabalho.
- Sei disso. E o que faz com o dinheiro que recebe?
- Pago a faculdade, invisto em roupas e sapatos. O senhor nunca precisou comprar um caderno para mim.
- Nessa parte lhe assiste inteira justiça. Uma pergunta que não quer calar: por que não junta todo mês uma pequena quantia e dá entrada num carrinho?
- O senhor sabe que ganho pouco. Ainda que essa mixaria fosse juntada à mesada que me direciona, não daria nem para adquirir os pneus. Não tive a mesma sorte que bateu à sua beira. Os tempos mudaram. Quando o senhor tinha a minha idade...  tudo era mais fácil.

- Fácil? Fácil? Você disse fácil!  No meu tempo filho, no meu tempo não existia uma série de coisas como televisão colorida, tela plana, computador com tecnologia de ponta, telefone sem fio, fax, Internet, celular, WhatsApp, Facebook, Instagram, revistas pornográficas com beldades nuas em pelo. Enfim...
- O senhor pode não querer dar o braço a torcer, todavia, no fundo, concorda comigo e sabe que tenho justificação a contento para corroborar meu pedido. Vamos, Pai, na moral. Libera a “carreta!”.
- Terminantemente não.
- O senhor não vai sair de casa esta noite.
- Eu sei...
- A mãe está fora.
- Quem mandou ser cardiologista?
- A empregada ganhou folga, só retornará na segunda...
- Não preciso de empregada. Sei me virar sozinho. 

- Pai, o senhor tem dois belos “possantes” parados na garagem. Dispensa um deles!
- Dois “possantes” -, como você acaba de frisar -, comprados com o suor do meu rosto. Meu lindo e garboso mancebo faça como eu: vá à luta.
- Pai, deixa de atirar, a seu bel prazer, às coisas na minha fuça. Estou lhe convidando. Vamos comigo. Mamãe está no congresso de medicina, a empregada foi cuidar do marido e dos filhos. Eu pago a conta. O senhor não terá que desembolsar nada...
- Não, não, não!
- Poxa vida...
- Ia me esquecendo. Atente para um detalhe importante que deixamos escapar.
- Detalhe? Que detalhe, Pai?
- Ponha tino. Se eu fosse junto, hipoteticamente falando, se eu decidisse lógico, além da vela, ainda bancaria o motorista particular de vocês. Estou fora!

- Veja por outro ângulo. Hoje não tem futebol e nenhum programa de televisão que o senhor se amarre. Só novelas chatas.
- Pensando nisso, aproveitei, passei na locadora e peguei alguns filmes. “Homem prevenido vale por dois. Dois homens prevenidos...”.
- “Dois homens prevenidos, não sobra nenhum”. Essa é mais fora de moda que bicicleta de uma roda só.
- Ditado fora de moda, é verdade, porém, repare, porém, resume nosso cotidiano nos dias atuais.
- Pai, Pai, me ouça. Seja sensato. Se o senhor prefere ficar em casa, enfurnado, vendo filmes, nada contra. Veja neles, ao menos, um excelente motivo para jogar um dos “pés de borracha” em minhas mãos.  Colabora com seu único herdeiro. Manda a chave. Dou a palavra que estarei de volta em quatro ou cinco horas.
- Você não sabe o que significa quando uma pessoa diz não? Filho, não é não. ENE, A, ACENTO CIRCUNFLEXO NO A, Ó TIL. NÃOOOOOO!

Diante de tantas recusas e negativas o rapaz, tristonho e cabisbaixo, se afasta em direção a seu quarto. Antes de sumir, de vez, no corredor, carregando o peso do desespero, estanca os passos e olha para o velho pai numa derradeira tentativa de demovê-lo do emburramento e fazer com que abra a guarda e descole a BMW preta ou a Mercedes vermelha recém-adquirida. Balbucia:
- Uma pena...!
- O quê?
- Terei que ligar e desmarcar com a gatinha que jantaria comigo! Não quer reconsiderar a idéia? 

- Desista. Posso, entretanto, lhe conceder um favor.
- Qual favor, Pai?
- Solicitar um UBER e pagar com meu cartão. Você terá carro do ano e motorista. Não ajuda?
Ao invés de responder, o rapaz finge não ter ouvido a proposta. Nasce do nada, nessa hora, o desafio da última cartada. Aplica, junto com ela, a lei do João sem braço. Esclarece:
- Veja como são as coisas. Ela me disse... minha “mina” me disse que traria uma coleguinha da Agência. Uma pérola, vinte anos, bumbum empinado, rostinho de princesa. Por isso lhe convidei para vir junto. Pensávamos em jantar os quatro e...

Inesperadamente o sisudo homem salta do sofá, joga para longe o jornal que traz às mãos, desliga a televisão e encara o filho.
- Ãhn, por que não disse de uma vez, seu danadinho?
- O quê eu não disse, Pai? – questiona meio que desconfortável.
- Que a sua namoradinha traria, a tiracolo uma amiguinha?
- Eu...
- É bonita, como acabou de descrever?
- Maravilhosa meu Pai. O senhor ficará de queixo caído. Sem mencionar que faz...
- Deixa quieto. Não diga mais nada. Fico pronto em cinco minutos. – diz prático e esboçando uma aguçada alegria. – Enquanto “mudo os panos”, como vocês jovens e modernos costumam dizer, tome aqui o molho de chaves meu filho - concluiu interesseiro e afogueado. – Adianta o expediente. Desça até a garagem e escolha: a BMW ou a Mercedes?
Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Sertãozinho, interior de São Paulo. 3-4-2018

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