sexta-feira, 20 de abril de 2018

Arranhe um “libertário progressista” e veja um comunista sangrar: o caso de Contardo Calligaris

Rodrigo Constantino

Foto: Dagmar Serpa/Revista Claudia

O psicanalista Contardo Calligaris já se disse um “anarquista” numa entrevista para Marília Gabriela, e utiliza sua coluna na Folha com frequência para disseminar seu relativismo moral, seu hedonismo irresponsável e sua visão “progressista” de mundo. Mas, por trás da aparência de libertino meio fora de idade, jaz um velho comunista mesmo. É tiro e queda: basta arranhar um pouco um desses “libertários progressistas” para ver um petista sangrar.

Em sua coluna de hoje, Calligaris falou das reações à prisão de Lula. Sua análise é um espanto: ele compreende quem ficou desesperado, por conta do “viés de confirmação”, considera que quem festejou o fez por inveja, e conclui que a maioria sentiu como ele, uma tristeza pela “morte da esperança”. Vamos ter que dissecar parágrafo a parágrafo pelo efeito pedagógico do típico discurso “isentão” sendo desmascarado:

Houve os que se desesperaram, considerando que Lula é vítima de um complô da classe dominante. Entendo. De qualquer forma, somos sempre todos vítimas de distorções cognitivas induzidas por nossas emoções e crenças. Enxergamos sobretudo o que confirma nossas próprias pré-concessões (é o que os psicólogos chamam de “viés de confirmação”).

Poderia ser um jeito mais elegante e suave de chamar os petistas de membros de uma seita irracional fanática, mas não é o caso. Calligaris realmente entende essa postura, como se todos nós fôssemos vítimas dessas “distorções cognitivas” (menos ele, claro). É como se um petista que ainda defende Lula depois de tudo e chama sua prisão de “golpe” fosse tão parcial como quem acusa Lula. O relativismo é sempre um refúgio para quem quer defender o indefensável.

Outros se regozijaram como se fosse a melhor terça de Carnaval da vida. Em geral, compensamos nossas frustrações odiando qualquer outro que alcance o que ele queria —é o viés do carniceiro: não somos toureiros e, por isso, assistimos uma corrida de touros na esperança de que o toureiro seja encornado. Mas, com algumas exceções, pareceu-me que os que festejavam fossem menos numerosos, menos barulhentos e talvez menos felizes do que eles mesmos esperavam ser.

Atenção! Aqui a canalhice já mostra a que veio. Quem festejou como se fosse Carnaval não o fez porque Lula é um símbolo do comunismo que quase destruiu o Brasil, um cínico corrupto que queria nos transformar na Venezuela, um crápula que roubou e mentiu como nunca antes na história deste país. Não! Quem festejou o fez por inveja, como um carniceiro, como alguém que adoraria ter o alcance que Lula teve na vida. E Calligaris ainda termina dizendo que foram poucos os que festejaram, e que no fundo estavam até meio tristes. Na bolha “progressista” em que vive deve ter sido assim mesmo. Ou então Calligaris sofre do tal “viés de confirmação”, não é mesmo?

O que me leva ao terceiro grupo. Distantes dos aflitos e dos festeiros, encontrei muitos que (como a maioria) consideraram justificada, se não justa, a prisão, mas não festejaram: ao contrário, eles ficaram profundamente tristes. Eu me sinto próximo desses, porque a notícia da prisão de Lula me deixou triste. […] Mesmo assim, acho que a tristeza não foi por Lula, mas pelo Brasil, que é minha casa. Fiquei triste pelo fracasso que a prisão de Lula representa: fracasso do Brasil, fracasso nosso, de todos e para todos.

A maioria festejou sim, mas deixa isso para lá. Calligaris acha que a maioria ficou “profundamente triste”. Precisa sair dessa “lacanagem” e olhar melhor o Brasil fora dessas igrejinhas socialistas. No mais, o fracasso que a prisão de Lula representa não é do Brasil, “nosso”, e sim dos petistas, dos socialistas, dos esquerdistas, de todos que acreditaram num psicopata mentiroso, um populista cínico, num admirador de Fidel Castro. O fracasso é do esquerdismo, não do Brasil todo!

Claro, o próprio Lula, nesta altura, diria que o governo dele não foi fracasso algum e que “nunca antes neste país” etc. Tudo bem, talvez nunca antes neste país um presidente tenha sido tão preocupado com a sorte dos mais desfavorecidos. É possível, mas não foi suficiente.

Aqui vemos a típica concessão canalha do “isentão”, que aceita sem crítica a premissa de que Lula realmente estava preocupado com a “sorte dos mais desfavorecidos”, e não com seu próprio projeto de poder, com seu bolso, com seus companheiros milionários de “partido”, que roubaram bilhões do pobre trabalhador. Quem, depois de tudo, ainda repete a falácia de que Lula efetivamente lutou pelos mais pobres ou é muito limitado, ou é cafajeste.

Lembrei-me, detalhadamente, daquele domingo de novembro em que parecia que ele poderia ganhar. Com Marcelo Vinãr, amigo uruguaio que me visitava naqueles dias, percorri Porto Alegre (onde eu morava): as bandeiras, o gesto do polegar e indicador para desenhar um L, as buzinas, os sorrisos nas ruas. Muito além do entusiasmo partidário dos petistas, havia no ar uma enorme esperança, de um país menos desigual, mais digno, onde todos viveríamos melhor.

Sim, houve uma legião de iludidos, de trouxas que foram enganados pelos “intelectuais”, pelas Marilenas Chauis da vida, pelos Calligaris mesmo. Não era o povão, era a elite culpada, os “professores”, os mesmos que, hoje, alimentam a esperança com o PSOL, com Marina Silva, com Joaquim Barbosa. Essa mesma turminha trocou de guru, mas não de ideologia. Eles ainda querem um “salvador da Pátria” concentrando poder para combater as “desigualdades”.

É o fim dessa esperança que me entristece com a prisão de Lula —tanto mais por ser um fim envergonhado, de rabo entre as pernas. A tristeza vem com uma ponta de irritação: o governo que carregava a esperança de tantos, se não de todos, não soube (ou não quis) transformar o molde de nossas eternas repetições –por insuficiência, por incompetência e talvez simplesmente por falta de coragem.

Esperança de todos?! Santo Deus!!! Me inclua fora dessa! O PT fracassou porque não soube, vejam só!, fazer as transformações sonhadas. Por quê? Insuficiência, incompetência ou falta de coragem. Não passa pela cabecinha oca do psi que seja porque as ferramentas são as erradas, porque em todas as experiências socialistas o resultado foi o mesmo: miséria, escravidão, terror. Se ao menos Lula fosse mais “corajoso” como Chávez…

O molde brasileiro é complexo. Uma de suas componentes essenciais é uma “Elite do Atraso” (como lembra Jessé de Souza, Leya), a qual se constituiu numa colonização saqueadora e na invenção de um modo de produção escravocrata. Como já escrevi anos atrás (“Hello Brasil!”, que atualizei agora, Três Estrelas), essa elite não veio para criar um país e fomentar a existência de seu povo —veio para se enriquecer (e, eventualmente, levar o butim embora).

Citar o livro do petista Jessé de Souza já diz tudo! A “elite do atraso” existe sim, só que é justamente essa, de “intelectuais” socialistas, sustentados pelo estado ou por banqueiros bilionários. Os que querem só explorar o país são exatamente os da elite vermelha, os mamadores profissionais de tetas estatais, os que vivem de ONGs, sindicatos, Lei Rouanet e grana dos ricos culpados. São esses que enriqueceram à custa do povo trabalhador, não os empreendedores, que ficam ricos enriquecendo junto a nação. O butim é liderado pelos piratas socialistas!

Outros diriam que o aspecto essencial é a falta de limites entre público e privado. De fato, esse “outro” aspecto é só corolário do anterior: para a elite saqueadora não há bem comum, não há comunidade de destino, não há interesse da nação —não há nação. Para essa elite, o Estado é um dispositivo que ela compra e vende para estender seu poder sobre o povo e as coisas.

Quem queima bandeira do Brasil em praça pública? A esquerda! Quem detona o patriotismo da classe média? A esquerda! Quem não tem projeto de nação é justamente a esquerda que encanta Calligaris. Já o patriotismo dos seguidores de Bolsonaro é tratado como alienação de xenófobos. Quem quer enxergar o estado como um dispositivo para comprar privilégios é a esquerda, enquanto a direita quer reduzir o estado e tais privilégios.

Exemplo. Nos anos 1980, conheci um empresário brasileiro preocupado com a importação (do Oriente) de produtos análogos, mas muito superiores aos dele. Perguntei se não poderia modernizar, formar melhor sua mão de obra e competir. Ele me disse que seria bem mais em conta distribuir dinheiro a políticos que instaurassem impostos de importação sobre os produtos concorrentes.

Pois é, quando o estado é tão poderoso e pode interferir desse jeito na economia, como a esquerda defende, faz mais sentido o empresário “investir” em lobby em Brasília do que em produtividade. Os liberais querem acabar com a farra, com o BNDES distribuindo subsídios aos “amigos do rei”, com as barreiras protecionistas. A esquerda não quer nada disso. A esquerda quer mais controle estatal da economia, quer a “seleção dos campeões nacionais”.

Os governos do PT tentaram corrigir a miséria produzida pelas elites saqueadoras; infelizmente, talvez para se manter no poder, eles continuaram usando o Estado como um mercado de interesses privados ou partidários. E a esperança de um novo Brasil foi para o brejo.

Os governos do PT não tentaram corrigir coisa alguma: eles pegaram o que já era ruim e entregaram algo muito pior! Eles inflaram o estado, alimentaram o velho patrimonialismo, e fizeram conchavos com as empreiteiras, montando uma enorme quadrilha que assaltou a coisa pública, que tomou para si o estado. Não “continuaram usando o estado” para se manter no poder; tinham um projeto totalitário de poder, e abusaram da máquina estatal como nunca antes na história deste país.

A esperança de um novo Brasil não foi para o brejo: a esperança de um Brasil vermelho como a Venezuela foi para o brejo, ainda bem! Restou uma esperança de mudança, de uma guinada à direita, de uma onda liberal-conservadora que possa resgatar nossos valores morais, combater a hegemonia de esquerda, e colocar nossa economia nos trilhos de um progresso sustentável.

Basta ver como vários brasileiros estão esperançosos com possibilidades que surgem finalmente na política, com discurso diferente dessa ladainha esquerdista de sempre. Mas esses não frequentam os consultórios de Calligaris e seus pares. Esses não vivem na bolha “progressista”. Esses não idolatram Foucault e Sartre. Eles estão trabalhando duro para dar uma vida melhor às suas famílias. Eles não têm tempo para chorar uma lágrima que seja pela prisão de um vagabundo como Lula.

A “profunda tristeza” de Calligaris não encontra eco nos corações desses milhões de brasileiros, que formam uma maioria silenciosa, e sem esse espaço todo na imprensa, cúmplice da esquerda lulista.
Título e Texto: Rodrigo Constantino, Gazeta do Povo, 19-4-2018

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