quinta-feira, 12 de abril de 2018

Uma cartilha extremista

Filomena Martins

A geringonça pode até estar a caminho do fim, mas deve ter feito uma promessa e ainda funciona, nem que seja demonstrando uma hipocrisia política que tínhamos todo o interesse em conhecer.

Os últimos tempos têm sido fantásticos para que a opinião pública entenda, a partir de casos nacionais e internacionais, como pensa, e reage, a esquerda portuguesa. Quase toda a esquerda, e não apenas aquela, mais radical, que alegremente tem suportado e aprovado o funcionamento da geringonça mas agora ameaça mostrar as garras a Centeno depois do seu claro, e esclarecedor, texto a marcar as fronteiras da real estratégia financeira que aí vem.

Para se entender a noção de Democracia e o respeito que essa esquerda sente pela independência do poder judicial, temos, só para começar pelos mais recentes, o processo de Lula.

Não interessa que haja 15 provas, confirmadas por vários tribunais brasileiros. E mais outros seis processos em curso. Ou que a Justiça tenha penhorado os bens ao antigo presidente. Muito menos é legítimo assinalar que o filho de Lula, represente uma versão reduzida do modo de vida do ilustre clã de José Eduardo dos Santos: pai remediado, filhos ricos. E amigos!, também amigos ricos, esse novo paradigma que vai florescendo entre os políticos que se deixam cair em tentação, pelos vistos igualmente na Europa, como se algum dia tivessem sido todos amigos uns dos outros e compartilhado confidências. Nada disso! A cartilha manda falar num “golpe da direita reacionária, racista e fascista”. Seria impossível, aliás, um “problema de corrupção” protagonizado por um homem que se diz ter retirado 30 milhões de seres humanos da pobreza. Foi isto que José Sócrates, impoluto homem de Estado e vítima das mesmas perseguições, mais uma vez nos recordou, com ar grave e indignado, a partir dos estúdios da TVI. Mas, como o Luís Rosa já aqui abordou em detalhe o caso-Lula, sigo em frente.

Regresso a Lisboa, onde a Justiça portuguesa tenta julgar um ex-vice-presidente angolano, Manuel Vicente, por suspeitas de corromper um ex-procurador nacional. O que temos aqui? Crime?! Pois claro que não! O que temos é o PCP a pedir respeito pela soberania do povo angolano, naturalmente. Ou uma parte significativa do PS a defender o envio do processo de quem o “trata com os pés” para um julgamento justo, eu diria justíssimo, em Luanda. A independência dos tribunais, seja em nome do internacionalismo proletário ou da cobardia política, não se fez para arranjar problemas entre Estados e muito menos prejudicar negócios ou arranjar chatices a gente poderosa e útil.

Ah, mas podemos voltar a fazer as malas e rumar à Síria, onde Putin, herdeiro da bondade soviética, mais o nativo Assad, ajudados pelo Irão, de certeza absoluta, mas de certeza mesmo, não usaram armas químicas. O único louco na foto, aliás, é Trump, que se atreve a chamar “animal” a Assad e promete intervir num conflito do qual os Estados Unidos desertaram – é essa a sua culpa.

Se quisermos recuar até à Catalunha, pois com certeza que Espanha não tem o direito a defender a Constituição do país. Nós pudemos, claro, quando Passos Coelho quis cortar rendimentos aos portugueses, escudado pela crise, mas isso é porque a nossa Constituição é sagrada. A espanhola não o é, de todo. O que é, é curioso ver como a esquerda portuguesa se coloca sem reservas do lado de Puigdemont – político que se a Catalunha fosse mesmo independente seria um notório extremista de direita, se não mesmo um novo Viktor Orbán.

E a propósito de Orbán, mais a sua terceira vitória consecutiva por vontade do povo húngaro, escudado numa situação económica e financeira que não quer nem ouvir falar de imigração: o que seria se o primeiro-ministro não fosse António Costa? Julgam que ficaria sem uma palavra crítica pelas felicitações, naturais, normais e democráticas, enviadas ao “fascista”, como o PCP e o BE consideram o líder da Hungria?!

De novo no Brasil. Se uma ativista de esquerda é aí assassinada, há e deve haver votos de pesar e homenagens de protesto em Portugal. Mas se um ex-espião russo é envenenado com a filha em solo britânico, é preciso esperar por provas cabais de que foi da Rússia que veio o veneno; de que foi mão russa que o pôs na casa dos Skripal. E, além do mais, verificar todos os detalhes, à lupa. Só então, se não houver qualquer possibilidade de refutar essa possibilidade, se considerará a hipótese, embora remota, de fazer algo, mas nunca de expulsar um diplomata de Moscovo, como fizeram outros 27 países, marcando a fronteira do século XXI, não vá o país ficar sem representação no Kremlin que ponha em causa ou pague acordos passados.

Se há um regime corrupto que deixa milhares de pessoas à fome na Venezuela, muitos deles portugueses, o PCP nem por isso deixa de saudar o povo venezuelano pela defesa da democracia e da Paz ao reeleger Maduro, o sucessor do amigo de ‘Pino e Lino’. Quanto à China, onde um líder determina perpetuar-se no poder, nem uma palavra! A nossa esquerda não é, afinal, insensível ao processo de investimento em curso, da EDP à banca, dos seguros ao imobiliário ou a outros negócios para manter certos empregos e influências. E se aparecem manifestações e protestos que deixam a França paralisada contra a mega reforma laboral dessa esperança política que é Macron, que até quer acabar com o estado laico, imagine-se, o melhor é mesmo respeitar e bico calado.

De volta a casa devemos saber notar as diferenças entre dois casos distintos. Num, é irrelevante que uma responsável por uma IPSS desbarate dinheiro em luxos pessoais, empregando marido e filho com ordenados de multinacional e à vista do ministro da tutela, velho amigo que já foi presidente da AG da mesma instituição e de um secretário de Estado com quem mantinha uma relação. Isso, além de serem questões do foro pessoal, também merece condescendência: ninguém podia ter descortinado tais crimes. Muito diferente é se cinco gestores de colégios privados recebem apoios do Estado e desviam fundos em benefício próprio. Isso, sim, é sinal de que há uma corja generalizada de criminosos a esmifrarem os contratos de associação.

Sobre o entendimento generalizado no Parlamento, onde a esquerda se aliou ao governo para ocultar o que se passou na CGD, creio não ser sequer relevante dizer o que quer que seja. Imaginam o escândalo que seria? Ainda viria o povo para aí a gritar pela privatização, podia lá ser?!

E sobre o SNS, que antes quase foi destruído pelo insensível Paulo Macedo (agora a recuperar essa CGD), durante a longa noite da troika, agora quase nada há a dizer, embora se sucedam os casos, as denúncias, os protestos e as greves. Só uns tímidos rumores no Parlamento depois do JN mostrar fotos de crianças a fazerem quimioterapia nos corredores do hospital de S. João. E do diretor do mesmo hospital confirmar que há dez anos que o centro pediátrico está em instalações provisórias, nuns contentores mas que há mais de um ano espera pelo desbloqueamento de 22 milhões de euros aprovados para construção da nova ala. Até porque Centeno, no Parlamento, atira responsabilidades para governos passados, e isso é que importa, não o ministro explicar porquê quando ou como vai libertar as tais verbas que aprovou mas deixou cativadas na gaveta dos brilharetes.

Que dizer de tudo isto? Pois pouco, quase nada. A geringonça pode até estar a caminho do fim nesta legislatura (pelo menos pelo lado do PCP, que este esticar de corda do Bloco ainda parece pouco claro), mas deve ter feito uma promessa e ainda funciona, nem que seja demonstrando uma hipocrisia política que tínhamos todo o interesse em conhecer.
Nem que seja apenas por isso, não devemos dar estes tempos por perdidos. Eu não dou.
Título e Texto: Filomena Martins, Observador, 12-4-2018

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